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Abriu recentemente em Londres, no Soho, um restaurante pop-up que não tem cozinha, apenas serve conservas de peixe, com pão, salada... Não foi a originalidade do conceito que me chamou a atenção, que por cá já surgiu há algum tempo e até serviu de inspiração a este, como é referido no artigo " The idea came after they discovered a tiny restaurant in Lisbon serving only tinned seafood.". O que me chamou a atenção mesmo foi esta foto da montra. Ora vejam lá se não é tudo muito familiar:

 Ambas as fotos DAQUI

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publicado às 12:20

 

A Rota das Estrelas faz mais uma vez escala em Lisboa para, amanhã e no sábado, proporcionar dois jantares, cada um da autoria de quatro chefes diferentes, que têm em comum o local, o restaurante Feitoria, do hotel Altis Belém, o respectivo chefe, João Rodrigues (na foto, de divulgação) e o preço, 195 euros por pessoa, com tudo incluído, vinhos e um cocktail no terraço do hotel, mesmo sobre o Tejo. Para quem vier de fora de Lisboa e quiser ficar ali hospedado, há condições especiais.


Esta interessante e já habitual iniciativa anual, quase minifestivais gastronómicos, que possibilita também um maior contacto entre chefes portugueses de diferentes pontos do País e com outros do estrangeiro, trará a Lisboa, para o jantar de amanhã, Miguel Laffan, do L’And, de Montemor-o-Novo, Vitor Matos, do Largo do Paço, de Amarante, Benoît Sinthon, do Il Gallo d’Oro, do Funchal, e Jacqueline Pfeiffer, do Le Ciel, de Viena. No sábado, será a vez de Miguel Rocha Vieira, do Costes, de Budapeste, Michel van der Kroft, do Nonnetje, de Harderwijk (Holanda), Yves Le Lay, do Alexander, em Pädaste Manor , na ilha de Muhu (Estónia), e Vincent Farges, da Fortaleza do Guincho.


Uma boa oportunidade, portanto, para conhecer estilos e cozinhas diferentes, umas mais próximas outras mais distantes, mas certamente com um nível elevado e um ambiente muito agradável e hospitaleiro. Vamos ver como corre. Reservas: tel. 210 400 208,
reservationsbelem@altishotels.com

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publicado às 13:04

Hoje já ganhei o dia...

por Paulina Mata, em 17.09.14

A Alexandra Prado Coelho publicou hoje no seu blog Mais Olhos que Barriga uma excelente entrevista com o Andoni Luis Adu­riz  do Muga­ritz. Vale mesmo a pena lê-la. A mim já me fez ganhar o dia!

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publicado às 14:28

Instantâneos do Instagram

por Miguel Pires, em 16.09.14
photo.PNG
Do mesmo chefe pasteleiro que teve diariamente à sua porta, em Nova Iorque, filas e filas de pessoas para comer uma das suas invenções, o cronut.

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publicado às 09:36

photo 1.JPGFoi apresentado esta quarta-feira, na Cervejaria da Esquina, o novo livro de Vítor Sobral "Petiscos da Esquina", que reune um conjunto de receitas de pratos e fotos da sua veia petisqueira cuidada e dos seus restaurantes - 5 neste momento (com um sexto a caminho) em 3 países e em 3 continentes diferentes: Portugal, Brasil e Angola. 

 

Como refere Edgardo Pacheco no prefácio, "há cinco anos, Sobral foi o primeiro cozinheiro de renome a criar uma tasca moderna de petiscos. (...) Hoje qual é o bairro de Lisboa ou do Porto que não tem tascas, tabernas ou casas de pasto finas?". Tudo começou, portanto, em 2009 com a Tasca da Esquina, em Campo de Ourique a que se seguiu, no mesmo bairro lisboeta, a Cervejaria da Esquina. Depois foi a vez de levar a Tasca para São Paulo (Brasil) e, mais recentemente, para João Pessoa (Paraíba, Brasil) e Luanda (Angola), aqui com o nome Kitanda da Esquina. Para breve está a abertura em São Paulo da Taberna da Esquina um conceito ainda mais petisqueiro e informal.

 

Quem conhece o chefe português sabe que defende a gastronomia e a portugalidade com unhas e dentes. Por vezes até é demasiado faccioso mas, tal como quando se fala do clube do coração, ninguém leva a mal. Contudo Sobral não se fecha num facciosismo bacoco e desde que começou a viajar pelo Brasil (foi o primeiro cozinheiro português a fazê-lo com regularidade) que alguns produtos e sabores tropicais passaram a fazer parte do seu leque de ingredientes, tal como acontece agora com sabores angolanos, ainda que em menor escala. A este propósito, Edgardo Pacheco refere, no mesmo texto, que Vítor Sobral tem um dom que herdou de família "e com esse dom, anda a desenvolver a sua cozinha da lusofonia, que o mesmo é dizer anda a dar aos clientes de Lisboa pratos com notas de sabores brasileiros e africanos; aos clientes de São Paulo e João Pessoa toda a nossa riqueza e a de Angola e ao de Luanda coisas de cá e do Brasil". Não se trata de prosa romântica do Edgardo, pois eu mesmo já vi apreenderem a Sobral, no aeroporto de São Paulo, uma mala cheia de enchidos e queijos portugueses. Mas vamos ao livro...

 

"Petiscos da Esquina" reúne 63 receitas divididas por cinco capítulos, cujos títulos dispensam explicação: Frio, Natural, Quente e a Ferver. São "Petiscos para todos os contextos", lê-se no final do texto de introdução. Além das receitas, o livro, de capa mole e formato prático (17 x 24cm), destaca-se pelo seu visual: da  paginação ao design sóbrio mas actual (de Maria Manuel Lacerda da 386 design), passando pela qualidade de impressão e, sobretudo, pelo óptimo trabalho fotográfico da Lemmonier Foto (de Nicholas Lemmonier) e de food stylist dos cúmplices e sócios de Sobral (e que ele muito bem elogia no livro) Hugo Nascimento e Luís Espadana. 

 

Contudo, este livro não se livra de um mal comum na edição deste tipo de obras em Portugal. As receitas são simples e descomplicadas, o que permite que o livro chegue a um público mais abrangente. Contudo, falta precisão a algumas receitas (um assunto que a Paulina Mata abordou em tempos aqui). A sensação que fica é que há falta de editores especializados que saibam olhar para uma receita e para as necessidades de um público entusiasta, por certo, mas não profissional.

 

Por exemplo, logo na primeira receita, "Alhada de Camarão" diz-se para salgar o camarão "sem casca e só com a cauda, durante 6 horas", mas não se diz se depois o mesmo deve ser lavado ou não. Se não diz, parte-se do principio que não, é certo. Contudo, como há produtos que são lavados depois da salga, não ficava mal ser mais preciso. Outro exemplo: na segunda receita, "Anchovas, queijo de Minas grelhado e orégãos", é legítimo partir do princípio que se a mesma envolve um queijo brasileiro, então a anchova seria fresca (embora menos comum por cá, existe muito no Brasil), até porque a receita só refere "120 gramas de anchova em filete". Claro, quer pela quantidade, quer pela foto da página seguinte, rapidamente cheguei à conclusão de que se trata de anchova de conserva (ou semi-conserva). Contudo, mais uma vez, não custava nada ser preciso.

 

Estes pormenores não retiram brilho a este livro (até porque podem facilmente retocados numa segunda edição), nem a minha recomendação como  obrigatório para fãs e não fãs de Sobral que passam a ter à mão uma série de petiscos com uma apresentação cuidada e combinações a preceito e sem resíduos de banalidades ou seguidismos. É que se há pouco tempo "O Livro das Sanduíches", de Hugo Nascimento, vinha com uma sobrecapa branca apenas com a inscrição #chegadehambúrgueres, este livro de Vítor Sobral deveria trazer uma, também,  com a menção: #jáchegadetapas

 


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"Petiscos da Esquina", de Vítor Sobral; Casa das Letras, 212 páginas. Preço: 18,90€

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publicado às 10:19

Nunca percebi porque é que num país devoto de sopas nunca pegou a moda do ramen ou de outros pratos de massas orientais (sem ser a versão fast food de centro comercial). O soba é uma massa fina de de trigo sarraceno (buckwheat) que tanto pode ser preparada e servida fria como quente. Neste vídeo, que é o primeiro do MAD 4 a ser disponibilizado, o mestre Tatsuru Rai, chef do restaurante Rakuichi Soba, em Hokkaido, Japão, prepara artesanalmente (e em silêncio - apenas com alguns comentários de Rene Redzepi) esta massa, cujo uma boa parte da produção do cereal que lhe dá origem vem precisamente da sua região.

 

A semelhança entre os movimentos do mestre e os de um bailarino de uma peça de Pina Bausch são pura coincidência. Uma nota final: celíacos, paleolíticos e glúten free freaks: podem ver este vídeo porque tal como o trigo sarraceno não contem glúten.

 

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publicado às 01:07

Em época de regresso às aulas publicação aqui este texto que escrevi, em Abril, na revista 2 do Público

 

Será possível, em tempos de austeridade, apostar numa alimentação nas escolas públicas tendo como preocupação critérios como a produção biológica e a sustentabilidade, além dos rácios nutricionais e de saúde publica? Como fazê-lo sem aumentar os orçamentos disponíveis? E como conquistar os alunos?

 

Em cidades como Copenhaga, na Dinamarca, ou Malmö, na Suécia, há um objectivo concreto para que as refeições públicas, nomeadamente nas escolas, recorram cada vez mais a produtos de origem biológica. Um capricho de país rico, dirão alguns. Mas nestes países também se fala de crise e os orçamentos não esticam.

 

Em Copenhaga há um ambicioso projecto de reconversão de uma zona da cidade historicamente ligada à indústria da alimentação. O Eat District pretende integrar nessa área uma série de valências, como hortas urbanas, produção de refeições públicas e actividades para crianças e profissionais, todas com uma orientação “bio”. Um dos pilares do projecto é a KBH MadHus (Casa da Comida de Copenhaga), que inclui uma área de formação do pessoal de cozinha, responsável pela produção de quatro mil a cinco mil refeições diárias para escolas, com enfoque no seu aspecto apelativo e produzidas com ingredientes sazonais, maioritariamente de origem biológica (75%). A MadHus inclui ainda uma área equipada com cozinhas e dirigida aos alunos das escolas, onde se desenvolvem diariamente actividades que visam transmitir uma cultura associada à gastronomia, à alimentação saudável e à sustentabilidade.

 

Anne-Brigitte Agger é directora da MadHus e diz-nos que teve de lutar para que a conversão bio fosse possível. É que, embora as autoridades municipais tenham definido como objectivo ter 90% das refeições públicas confeccionadas com produtos biológicos até 2015 (num país que já de si tem uma das maiores quotas de consumo nesta área, de 72%, de acordo com uma sondagem em 2012 da FiBL-Ami, que reúne dados governamentais e do sector privado), a mudança teria de ser feita com as mesmas verbas.

 

A mera substituição de produtos de origem convencional por outros biológicos aumentava o orçamento em 20-35% e não alterava por aí além o que ia no prato — que não era de grande fama. Era preciso ir mais além: converter ementas mas também mentalidades (e nisso modificar certos princípios, como, por exemplo, a redução de proteínas de origem animal e a inclusão de mais produtos hortofrutícolas sazonais). Na MadHus, onde trabalham 35 pessoas — educadores, chefes de cozinha, nutricionistas, gestores de produção, designers, profissionais de comunicação —, a motivação é elevada porque os resultados têm sido animadores: da péssima imagem e aceitação das refeições públicas que levava a que não mais de 2% dos alunos comessem nas cantinas, passou-se para 20% em menos de quatro anos e o objectivo a curto prazo é chegar aos 35%.

 

Projectos como o de Copenhaga, ainda que com metas diferentes, têm sido aplicados nos sistemas de refeições públicas de outros países, ou de outras cidades principais, como Nova Iorque, Roma ou Londres. Em Lisboa, visitámos duas escolas e falámos com diversos especialistas que se têm dedicado ao tema. A aceitação da comida nos refeitórios das nossas escolas públicas não é tão má como na capital dinamarquesa, mas a atenção das autoridades nos aspectos nutricionais e de higiene, por um lado, e economicistas, por outro, está longe de ser suficiente para cativar os alunos, sobretudo, os adolescentes.

 

Já passa das 13h e na cantina da Escola Básica Parque Silva Porto, em Benfica, prepara-se a mudança de turno. Os alunos da pré-primária terminam o almoço e, dentro de momentos, entrarão os mais velhos, do 1.º ciclo. O prato principal é igual para uns e para outros: arroz de peixe com alface. O procedimento não deverá variar muito nas outras escolas do ensino básico e jardins-de-infância da capital, sob a alçada da autarquia, variando apenas no tipo de refeições fornecidas, consoante as especificidade de cada escola (se têm ou não cozinha, por exemplo).

 

Alexandra Veiga, da Uniself, empresa que fornece uma boa parte das escolas do primeiro ciclo em Lisboa e também esta em Benfica, diz que “douradinhos, tesourinhos (pelos desenhos), hambúrgueres, frango assado e bolonhesa” são os pratos que mais agradam aos alunos. E os menos? “Salada de peixe e arroz de peixe.” Este último é o prato do dia e, digamos, para “castigo” não está mal. Não é necessário persuadir os alunos a ingeri-los, “ainda que estes os considerem desagradáveis”, como consta no artigo n.º27 do caderno de encargos, o documento definido pela Câmara Municipal de Lisboa que especifica as regras que os fornecedores têm de cumprir.

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Peixe contra pizza

 

Talvez porque nesse dia houvesse animação teatral, ou porque as actividades do recreio abriram o apetite, ou porque, simplesmente, lhes soube bem. Peço para provar. O aspecto está longe de ser fantástico, mas os olhos não desdenham. E ainda menos o nariz, ou as papilas gustativas que parecem aprovar o prato. Pelos vistos, é possível dar sabor a um cozinhado feito com pescada congelada e delícias do mar. Como? “Faço um puxadinho com cebola, alho e azeite”, revela-nos Fernanda, com um sorriso discreto. No fundo, o procedimento não é diferente do que faria em casa qualquer mãe com os mesmos ingredientes e uma boa mão para a cozinha. A diferença é que em casa pode-se fazer alguma batota, dado que não se tem de responder perante os critérios nutricionais e as capitações estipulados no caderno de encargos.

Por serem crianças pequenas de 1.º ciclo, estes alunos não têm, como acontece numa escola secundária e de 2.º e 3.º ciclos, acesso facilitado ao exterior. Para os mais velhos (ou mais novos com autorização dos pais), o negócio de cafés nas redondezas das escolas está facilitado.

 

Nas proximidades da EB 2,3 Marquesa de Alorna, vizinha à Mesquita de Lisboa, existem vários cafés. Pelos cartazes afixados nas montras e no interior destes estabelecimentos dá para perceber o público alvo. Num oferece-se “sopa + panado + Coca-Cola” por “2,50€”; noutro publicita-se: “3€ de gomas, oferta de uma pulseira” e uma “Happy-Hour – Bolos e Salgados, só 0,60€”. Perguntamos num dos cafés o que sai mais: “Depende para onde estão virados, mas, sobretudo, pizzas e folhados”, responde a empregada. Mudam-se as idades, mas nem por isso as preferências. Mesmo numa hamburgueria da moda, uns metros mais abaixo, há um menu estudante por 5,5 euros, menos de metade do preço de um menu gourmet normal. Mas pela frequência exclusivamente adulta o alvo são mais os estudantes universitários.

 

 

 

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publicado às 17:04

É em Junho começa normalmente a loucura dos aficionados por sardinhas. Juntam-se a fome e a vontade de comer, que é como quem diz: os meses de espera com os dias quentes ao ar livre, impulsionados por arraiais e festas populares, um pouco por todo o país. 

 

Ao contrário do que por vezes se diz há sardinhas todo o ano. Contudo, é no Verão quando estão gordas que são mais saborosas. E este ano tivemos boa sardinha cedo, pelos santos populares, o que cada vez menos acontece dado que as alterações climáticas estão a empurrar a sua época mais para a frente. Porém, apesar de ter começado a consumi-las cedo, desde que as vi com bom aspecto nas vitrines dos restaurantes ou na banca da Açucena Veloso (no Mercado 31 de Janeiro ao Saldanha, Lisboa) foi por estes primeiros dias de Setembro que comprei, preparei e comi as melhores sardinhas do ano. 

 

Muitas apreciadores deste peixe, de sabor único e nutricionalmente rico, lamentam o facto de não as cozinharem por lhes empestarem a casa. Porém, isso não tem de acontecer. Por exemplo, eu asso-as no forno e o aroma que fica é baixo. Quando estou em dia de menor esforço limito-me a colocá-las inteiras (com vísceras e tudo) num recipiente, com sal e um fio de azeite e levo-as ao forno por 15 minutos. 

 

 

Porém, com estas bem formosas de Setembro filetei-as antes de as assar no forno, com o mesmo tempero, em cima de uma grelha e com um tabuleiro por baixo para aparar a gordura que largam. Optei por fazer este corte, em vez de assá-las inteiras porque, além de terem um bom porte, ao descartar o excesso de gordura (e as vísceras) evito ainda mais a pulverização do aroma no exterior. Gosto ainda de lhe dar uma queimadela por cima, com o maçarico, para obter um sabor mais característico, o que não aconteceu desta vez por não estar operacional.

 

O acompanhamento foi o tradicional: batata cozida e salada de tomate. Só faltou o pimento assado.

 

Agora ide, que elas ainda andam por aí. Frescas e boas. 

 

 

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publicado às 11:47

Cinco belas recordações do Verão

por Duarte Calvão, em 03.09.14

Aproveitei a calma do Verão, em que as solicitações profissionais diminuem substancialmente, para ir conhecer alguns dos restaurantes novos que vão surgindo em Lisboa, e ainda para revisitar alguns onde não ia há algum tempo, e fiquei surpreendido com o que encontrei. Nem tudo é perfeito, longe disso, mas fiquei impressionado com a criatividade e a atitude de restaurantes como o Leopold e o Boi-Cavalo, a consistência de projectos novos como o do Minibar ou de outros mais “antigos” como o De Castro (Praça das Flores) ou O Talho. Também houve desilusões noutros casos, mas sobre esses não vou por agora falar. Talvez nunca fale.
O Leopold foi o que mais me empolgou. Fica numa zona encantadora em Alfama (São Cristóvão), é uma antiga padaria de tamanho mínimo, onde caberão no máximo umas 12 pessoas sentadas, e apenas duas pessoas a trabalhar, o chefe de si mesmo Tiago Feio (na foto) e a sua mulher a atender às mesas. Decorado com bom gosto, usando magníficas loiças das Caldas, mantiveram o belo balcão e como equipamento há apenas um forno, uma Roner e umas placas eléctricas, nada de fogões e fumos, porque o espaço não dá para isso.
Conheci o espaço no interessante circuito gastronómico (Taste of Lisboa) que Filipa Valente organiza na zona e foi precisamente no Leopold que ele terminou, com uma original e deliciosa sobremesa de cerejas (era época) que me deu imediata vontade de lá voltar. Tive então uma pequena conversa com Tiago Feio e fiquei a saber que era do Porto, tinha 31 anos e que chegara tarde à profissão, trabalhando primeiro no extinto Buhle (Porto) e depois em Lisboa, no Largo, com Miguel Castro e Silva. Mais tarde, tendo-me encontrado com este chefe portuense, perguntei-lhe sobre o ex-membro da sua equipa e ele só teve palavras de elogio, o que reforçou a vontade de voltar ao Leopold para uma refeição completa.
O Leopold engana pelo nome, que nos faz julgar que ali se pratica alguma cozinha belga ou austríaca, mas pelo que percebi trata-se apenas de uma referência ao museu vienense assim denominado e que tem direito a um poster nas paredes do restaurante de que o casal proprietário muito gosta…Mistérios à parte, o que interessa é que o que falta no Leopold de espaço, equipa e equipamentos sobra de criatividade e até de um certo saudável atrevimento, hoje difícil de encontrar em cozinheiros portugueses da mesma geração, que parecem obcecados por projectos gastronomicamente desinteressantes, cujo principal objectivo é “fazer dinheiro” a curto prazo.
Não vou entrar em detalhes sobre o que comi, nem no Leopold nem nos outros restaurantes, porque não fui com o intuito de fazer uma “crítica”, não levei bloco de notas e já se passou algum tempo e muitos outros jantares…Ficam impressões gerais, como a harmonia dos ingredientes, a exactidão de temperos e pontos de cozedura, a forte aposta no mundo vegetal, quase tudo oriundo de um produtor biológico da zona da Arrábida (por uma vez, não vinham da Quinta do Poial). Tiago Feio, aliás, diria depois que, nesse sentido, se sente influenciado pela actual cozinha nórdica, o que ficou bem patente num dos pratos que mais gostei, com pequenos legumes “enterrados” num solo comestível (na foto), à boa maneira do Noma (e já agora do célebre “bosque animado” de Quique Dacosta) ou no contraste da beterraba com o bacalhau a baixa temperatura (na foto), este com influência do nosso “mestre” Miguel Castro e Silva, em  apontamentos vegetais sempre consequentes como a excelente carne com que termina o menu (na foto).
Foi um jantar esplêndido, em que só me lembro de não ter gostado de um prato, ainda mais interessante pelas condições em que é preparado, com uma utilização inteligentíssima das novas técnicas, a mostrar que com imaginação e gosto pelo risco se consegue ir muito longe. Nessa noite, o pequeno restaurante estava cheio, o que não é difícil, situação que creio ser comum, tanto mais que a zona é procurada por turistas que apreciam este tipo de propostas alternativas. Será isso suficiente para viabilizar economicamente o restaurante? Estará Tiago Feio a preparar-se para outros voos em casas de maior dimensão? Não sei, se calhar nem ele saberá, mas ficou-me a alegria daquela refeição, de encontrar em Portugal gente que foge ao choradinho da crise e da falta de massa crítica e escolhe fazer a cozinha em que acredita. Saí do restaurante com a imediata vontade de lá voltar, ainda mais porque fica em 30 euros ou menos por pessoa. (Rua de São Cristóvão, 27, tel. 21 8861697, só jantares durante a semana, o dia todo aos fins de semana, fecha à segunda-feira).

A mesma sensação tive-a também não longe dali, no Boi-Cavalo, outro novo restaurante de Alfama, desta vez instalado num antigo talho, também de pequeno tamanho, embora com mais mesas e espaço do que o Leopold. À frente da casa estão dois cozinheiros, Pedro Duarte e Hugo Brito, que já trabalharam com Ljubomir Stanisic. A Paulina Mata já fez aqui no Mesa Marcada uma boa descrição, por isso não me vou alongar. 
Foi outro jantar que me proporcionou muita alegria, embora um pouco confuso por culpa nossa, os cinco comensais, que decidimos partilhar todos os pratos entre nós, quando eles, quando muito, dariam para duas pessoas. Mesmo assim, de novo imaginação à solta, boa técnica, atitude, boas vibrações. Até as bochechas de porco, algo para o qual já não há pachorra nas banais petiscarias que pululam pela cidade, estavam cozinhadas de forma diferente, com uma textura mais firme. De novo bons preços e vontade de voltar. Da próxima, de caneta em riste para escrever depois com detalhe. (Rua do Vigário, 70 B, tel. 21 8871653, só jantares, fecha à segunda-feira).

 

Por falar em boas vibrações, conheço poucos projectos tão bem traçados quanto o do Talho. Passado um ano e meio da abertura, em plena crise, está sempre cheio de gente visivelmente satisfeita. Não vou escrever sobre o jantar que lá tive, porque o restaurante tem sido bastante falado, mas tenho que realçar um dos melhores pratos que comi nos últimos tempos, o borrego tandoori (na foto) com uma perfeita mistura de temperos exóticos, reunidos numa crosta em torno da carne, também ela num ponto perfeito, onde tudo se sente e nada está desequilibrado. Lentilhas soberbas, difíceis de encontrar por cá, molho de iogurte, um pequeno nan, chutney de maçã completavam este prato inesquecível. Kiko Martins poderia perfeitamente ter escolhido o caminho da facilidade da bifalhada e hamburgaria, mas mostra o seu gosto pela cozinha ao apresentar pratos como este. É dos chefes de quem mais espero em Portugal e creio que em breve ouviremos falar muito nele (não, não me estou a referir a mais uma edição da Chef’s Academy, que a RTP deve estrear agora em Setembro e em que ele é de novo um dos “professores”…). (Rua Carlos Testa, 1 B, tel. 21 3154105, fecha ao domingo).
Outro jantar decorreu no Minibar, outro caso recente de êxito estrondoso em Lisboa. Gostei muito da proposta e do excelente ritmo a que os pequenos pratos iam chegando à mesa, com coisas que já conhecia outras que eram novidades, como o "frango assado" da foto em baixo. Tudo muito bom, com aquela consistência que José Avillez tem procurado para os seus vários projectos. Pareceu-me uma certa “padronização” do estilo que o tornou célebre no Tavares e no Belcanto, o que está muito bem desde que se continue a evoluir, como julgo que está a acontecer, embora mais lentamente do que admiradores como eu gostariam. (Rua António Maria Cardoso, 58, tel, 21 1305393, só jantares, fecha ao domingo).

 

Uma palavra final para o De Castro, na Praça das Flores, de Miguel Castro e Silva, onde estive muito bem, a jantar numa noite de Verão, neste magnífico recanto da cidade. É quase impossível eu não gostar de algo que tenha o dedo deste chefe portuense que em boa hora decidiu vir para perto de nós, lisboetas. Apesar de ser mais conhecido actualmente pelo seu trabalho no Largo, pareceu-me que este é o “seu” restaurante (aliás, quem chefia a cozinha é o seu genro, e a mulher e a filha costumam estar na sala), onde encontramos o seu estilo despojado mas sempre impecável na escolha de produtos portugueses e na maneira como os trata. Um lugar onde se vai com a segurança de encontrar sempre uma boa refeição, o que não é dizer pouco. (Rua Marcos Portugal, 1, tel. 21 5903077, fecha domingo ao jantar e à segunda-feira).
São lugares como estes, com os seus diversos estilos, que me fazem crer que Lisboa, ao contrário do que por vezes parece, está a mexer em termos gastronómicos e que há chefes que gostam realmente mais de cozinha do que de dinheiro e de espuma mediática. Alguns talvez durem pouco, talvez evoluam para outros formatos, mas deixam marca enquanto existirem e a nós, felizes comensais, belas recordações de Verão à mesa.

 

Fotografias: Cristina Gomes

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publicado às 19:14

Duas pérolas destas num só dia é demais!

por Paulina Mata, em 28.08.14
Foto Daqui
"Nous demandons l'interdiction de juger, de mettre des commentaires diffamatoires, des jugements subjectifs sur les personnes ou tout membre des équipes de nos restaurants."

(Exigimos a proibição de julgar, da colocação de comentários difamatórios, de julgamentos subjetivos sobre pessoas ou qualquer membro das equipas de nossos restaurantes).

Da petição "Non aux avis insultants envers les restaurateurs", lançada em França e assinada no momento em que escrevo por 1762 pessoas.

 

"I said that food blogs are to gastronomy what pedophiles are to love." - Fulvio Pierangelini no MAD4

(Achei tão inacreditável que fui confirmar... e parece que disse mesmo isto).

 

Que há muitos chefes que não gostam de blogs de comida toda a gente sabe. Mas chegar a este ponto é demais...e muito triste.

 

Há blogs muito bons e há blogs muito maus. Não fugindo da escrita sobre comida, há artigos sobre gastronomia muito bons na imprensa e há artigos muito maus. Qual é a diferença?

 

Ética... existe (ou não) em todo o lado. Cada caso é um caso...

 

Poder de encaixe para aceitar críticas, é um atributo muito útil na vida. Liberdade de expressão, um direito pelo qual é importante lutar.

 

Porque é que os chefes devem ser protegidos de críticas? Porque é que os "food bloggers" são uma ameaça tão detestável?

 

Inacreditável!

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publicado às 01:29


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)
Paulina Mata (convidada especial) Alexandra Forbes (convidada especial)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").


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