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Restaurante Noélia e Jerónimo

por Miguel Pires, em 07.07.10

Uma mão para a cozinha em  serviço ‘sui generis’

 

É tão provável encontrar no Algarve central um bom restaurante de cozinha autêntica de expressão regional, como ver a selecção portuguesa marcar um golo a uma equipa decente. Felizmente se jogarmos mais pelos extremos essa probabilidade aumenta (só o Queiroz não viu isso). Quis o destino e a alergia ao som da vuvuzela que num destes dias procurasse refúgio num desses extremos, o esquerdo, em Cabanas. Ao revelar essa intenção perante próximos, veio a recomendação: “tens que ir à Noélia. Mas tens que ter paciência porque o serviço é assim para o... ‘sui generis’ ”. Certo. A primeira aproximação passou por uma tentativa de reserva para uma Quarta-Feira à noite, mas a bola veio devolvida de imediato: “ai não, quarta-feira é o nosso dia de descanso”. Certo.

Terça-Feira feira, 14.30h, percorremos a marginal retocada pelo projecto de reabilitação, Polis, em Cabanas. Dia ventoso, pouco convidativo à praia. Talvez por isso a maior parte dos estabelecimentos encontram-se vazios. Excepto um, onde várias pessoas aguardam por mesa. Qual? O Noélia e Jerónimo.

Na verdade vêem-se lugares vazios mas não é necessário ter uma grande leitura de jogo para verificar que o número de mesas é muito superior à capacidade de atendimento (só o Queiroz, não viu isso). Mesmo assim arrisco e com algum esforço torno-me visível. Sentados há largos minutos conseguimos que nos atendessem. Em parte. Um quarto de hora depois, indagam: “vai querer... pão e manteiga?”. “Sim. E um copo. E se calhar algo para beber”, respondo, mantendo a calma. Quando me avisaram já desconfiava sobre o contexto do termo ‘sui generis’. Agora tinha a certeza do significado. “Isto não vai correr nada bem”, pensei. Felizmente o momento de introspecção foi mínimo porque logo chegaram os biqueirões fritos com migas de tomate. Podia até ser da fome que apertava mas uma garfada nas migas e parti para outro mundo. Um mundo onde alguém com mão para a cozinha nos faz esquecer os ‘sui generis’ desta vida. Pão, tomate, alho, cebola, azeite, sal, ovos, coentros e a magia de quem sabe conjugar os ingredientes simples, tornando-os num prato especial. Os biqueirões, embora menos saborosos que os carapaus, ou que as petingas, também estavam a preceito: envolvidos em polme e fritos como mandam as regras. De sobremesa uma castanha de amêndoa ressequida não afastou minimamente a vontade de voltar, até porque as os filetes de peixe galo com açorda de conquilhas, sorriam-nos à medida que iam passando.

Quinta feira, 19.45h, jantar com pessoas conhecidas da casa. O serviço melhorou, não por estar com conhecidos mas porque a ala da sala era outra. Primeiro veio uma canja de conquilhas: boa, mas sem nos levar ao céu. Depois umas pataniscas de polvo com uma açorda de amêijoas muito próxima da qualidade da das migas de tomate. Já as pataniscas, variação comum nesta zona algarvia, embora bem trabalhadas, não me convenceram: é que a textura do polvo não é propriamente a do bacalhau. De seguida, polvo trapalhão com batata doce naquele que foi mais um momento lá em cima. Poderiam vir duas dúzias de vuvuzuelanos tocar aquele objecto irritante que não iriam perturbar o momento. Polvo macio, bem guisado com uma batata doce - de Aljezur, certamente - de bradar aos céus. Segundo Bertílio Gomes, um dos grandes adeptos desta conjugação, este tubérculo atinge o pleno de sabor nesta época, quando a água da batata se reduz revelando o sabor adocicado, tal como numa uva em passa.

Ainda era suposto virem os filetes de peixe-galo, mas ficaram esquecidos. Ou então fizeram de propósito para lá voltarmos(o que será tão certo como o Queiroz continuar a dar-nos cabo da paciência). Mais uma vez a sobremesa não rezou a história e quanto a vinhos, bom, quanto a vinhos diria que o nível é semelhante ao do serviço. Tolera-se. Pelo talento de Noélia.

 

 

biqueirões fritos com migas de tomate

 

 

Contactos: Edifício Cabanas-Mar, Cabanas,  Tavira

Tel. 281 370 649 / 968 534 971

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 3 Julho 2010

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publicado às 01:29


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