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Restaurante Cinco Jotas Gourmet

por Miguel Pires, em 11.05.11

Presuntos implicados

  

 

Se há algo em que nuestros hermanos estão cada vez melhor é na exportação de conceitos e de produtos gastronómicos de qualidade (e também de muitos sem qualidade, mas isso é outra história). Primeiro tiveram (e têm) as atenções do mundo graças à sua alta cozinha de vanguarda personificada em figuras e em restaurantes como Ferran Adriá/El Bulli, os Roca/El Celler de Can Roca, Andoni Aduriz/Mugaritz, Martín Berasategui, Arzak, etc. Depois, a atenção mediática fez crescer o turismo gastronómico, o que valorizou, também, as cozinhas regionais e, sobretudo, o conceito popular das tapas – um conceito que hoje se espalha um pouco por todo o mundo  com os devidos dividendos para os produtores agro-alimentares espanhóis.

 

O grupo Osborne, detentor da empresa Sánchez Romero Carvajal, que produz o tão afamado presunto de porco ibérico 5J, começou por criar em Espanha uma cadeia de restaurantes numa linha tradicional (a Méson Cinco Jotas). No entanto quando decidiram exportar o conceito, fizeram-no recorrendo a uma imagem mais moderna e cuidada, provavelmente por terem iniciado a expansão pelos armazéns Harrods, em Londres.

É neste contexto que chega agora a Lisboa o restaurante Cinco Jotas Gourmet, situado na zona de restauração do sétimo piso dos armazéns El Corte Inglês, em espaço individualizado. Não é muito grande: 15 mesas mais uma alta para 6/8 pessoas e uma barra (balcão) com sete lugares. A carta é composta, em grande parte, e como seria de esperar, por tapas e pratos tendo como base o porco ibérico. Mas também há outras iguarias que se encontram em restaurantes e bares de tapas e, até mesmo, uma adaptação ao nosso país, com a introdução de um ou outro prato de bacalhau (produto que também existe em regiões de Espanha, como o País Basco, por exemplo).

 

Muitas das propostas podem ser pedidas em meia dose ou em tapas, o que em duas refeições me permitiu degustar uma boa parte da oferta da casa. A tapa de cana de porco ibérico (um enchido) trás apenas três fatias mas o sabor é tão incrível e que vale por dez. O salmorejo é um creme frio (uma espécie de gaspacho espesso devido à adição de pão na confecção) muito agradável e equilibrado no paladar. O torresmo de porco é do bem entremeado, enxuto e crocante no topo (com mais um dois pimentos de pádron de acompanhamento, seria perfeito). As anchovas de Santoña, de tamanho médio, carnudas, complexas de sabor e de sal no ponto, levantam-nos um problema: como voltar às banais que se encontram por aí e nos deixam cheios de sede o dia inteiro? Já a tortilha de batata não tem a cremosidade interior, nem a batata bem ligada como nos melhores sítios de Espanha mas ganha o prémio de consolação por ser uns pontos acima (ou menos abaixo) em relação às do Mesón de Tapas, no rés-do- chão do El Corte Inglês. O que não gostei mesmo foi dos croquetes de presunto 5J, nem dos lombinhos de porco ibérico com (molho de Jerez) Pedro Ximénez. Nos primeiros, no recheio, sente-se sobretudo a gordura, o que a quente (ao contrario do que acontece a frio, no presunto) confere um gosto desagradável e torna conjunto pesado devido à fritura e ao acompanhamento de batata frita em palitos. Os lombinhos pareciam ser de qualidade (pelo menos eram tenros) mas o sabor original foi completamente tapado pelo molho espesso e caramelizado de Pedro Ximénez. Como vinham também com uma redução de vinho (tinto e Porto, presumo) e cebola, ao lado, dou beneficio da dúvida de ter sido uma sobremesa que alguém inadvertidamente derramou em cima. E por falar em sobremesa, a tarte fina de maçã com gelado de baunilha cumpre bem o desígnio antes do café.

 

Em termos de bebidas a cerveja é talvez a mais versátil, embora a carta de vinhos, apesar de curta, tenha opções suficientes (com alguns a copo) de branco, tinto e Jerez - o vinho generoso bandeira da Osborne e cujo o  estilo ‘fino’, mais seco, harmoniza bem com o presunto ibérico. Todos os vinhos de mesa são espanhóis +1 brasileiro, da Miolo, uma aposta insólita a fazer lembrar o plantel de Paulo Futre, de 19 jogadores +1 chinês.

Quanto ao serviço, em geral é esforçado e correcto, no entanto necessita ainda de afinação de reforço nas horas de ponta e mesmo de alguma formação (por exemplo, um empregado por mais simpático que seja não pode dirigir-se a duas pessoas, que não se conhecem, mas que pediram a mesma sobremesa, e lhes peça para decidirem qual dos dois fica com a mesma, visto só haver uma). Estes tipos de desacertos de cozinha e de serviço são de fácil correcção e só irão contribuir para melhorar a experiência, até porque é uma mais valia para Lisboa - onde os restaurantes/bares de tapas decentes não abundam - poder ter um espaço com valor gastronómico acrescentado, como este.

 

 tapa de cana de porco ibérico

  

creme de salmorejo com ovo cozido e paleta de 5J picada

 

anchovas de Santoña

 

croquetes de presunto 5J

 

lombinhos de porco ibérico com Pedro Ximénez

 

(preço médio por refeição, 20/25€)

 

Contactos: Av. António Augusto de Aguiar, 31 - El Corte Inglês, 7º Piso: Tel: 21 371 17 00

 

texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 6 de Maio de 2011

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publicado às 09:48


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