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Green Caterpillar (Supper Club)

por Miguel Pires, em 24.05.11

Lar, doce supper

 

 

Sábado, 21.00h. Graças ao google maps chego a horas à morada indicada no email. Afinal a Rua do Pólo Sul não é um código ou uma piada, existe mesmo. Certifico-me do número da porta e do andar. É um prédio baixo, não mais de três andares, num condomínio aberto, com bom gosto, mesmo no coração do Parque das Nações. Toco e uma voz simpática diz-me para subir. Felizmente a voz não é uma gravação, tem um rosto, bonito por sinal. Chama-se Íris está de vestido preto, casual chic, e uns muito cool Nike verdes nos pés. Na cozinha sou apresentado a alguns participantes no jantar dessa noite. Cumprimento também o cozinheiro que já conheço de outros carnavais. Prepara uns blinis que mais tarde iremos saborear com umas lascas de bacalhau. Sinto-me como em casa de amigos que gostam de receber bem.

 

Quem já esteve em Cuba na era pós-soviética sabe por certo o que é um paladar. Há vinte anos, de viagem pela ilha de Fidel, estive em vários. Uns eram mais caseiros, outros quase verdadeiros restaurantes. Fora dos grandes hotéis era uma das poucas possibilidades de comer lagosta por um preço razoável, mas o mais interessante era o contacto com as pessoas e com a comida local. Este fenómeno teve em anos mais recentes diversas derivações. Em Itália, por exemplo, com a passagem da Lira para o Euro, muitos restaurantes arredondaram os preços de forma considerada abusiva e espontaneamente surgiram restaurantes caseiros um pouco por todo o lado. Mas é nos Estados Unidos e em Inglaterra que o fenómeno está mais enraizado. Uns fazem-no por rebeldia, outros porque querem sentir a adrenalina de ser cozinheiro por um dia. Em comum, o facto de gostarem de receber em casa e poderem ganhar umas notas extra. Não se pense que este fenómeno é só para amadores. Em Inglaterra alguns Chefes conhecidos também aderiram ao formato. O mais famoso de todos, com grande repercussão na imprensa inglesa, foi o Loft Project, do português radicado em Londres, Nuno Mendes. O Loft permitiu-lhe manter-se activo e em contacto directo com os clientes entre o fecho do Bacchus e a abertura do Viajante, o seu actual restaurante. Nuno Mendes aproveitou ainda esse espaço (em que cada cliente contribuía com mais de 100£ para jantar) para rodar alguns membros da equipa do Viajante e também dar a conhecer outros Chefes.

 

Um dos convidados que se apresentou nesse espaço foi Vítor Claro, cozinheiro português de grande vocação, cujo percurso algo errático não lhe tem permitido o reconhecimento que o seu trabalho merece. Após esta experiência em Londres, Vítor regressou fascinado e com a ideia de criar um supper-club. Quis o acaso (ou o destino) que encontrasse em Lisboa Íris Lourenço, antiga colega de curso da Escola de Hotelaria do Estoril. Íris passou por vários países onde trabalhou em hotelaria e aproveitara um período sabático para mudar de ramo e abraçar uma paixão antiga na área decoração de interiores. Vítor falou-lhe do conceito e foi suficientemente convincente. Pouco tempo depois nascia em casa de Íris, um apartamento ‘upper-class’, no Parque das Nações, o Green Caterpiller (lagarta verde). Até agora já fizeram 5 jantares – aproveitando as folgas de Vítor Claro, no Hotel Albatroz, onde é Chefe de cozinha. O último realizou-se no passado sábado.

 

A experiência, como esperava, aproxima-se da de um jantar informal em casa de amigos em que tudo começa na cozinha: bebe-se um copo entre dois dedos de conversa e vai-se picando aqui e ali. Na hora de se passar à mesa a organização e o requinte são mais evidentes mas a informalidade mantém-se. Vítor Claro pratica uma cozinha de raiz portuguesa, actual, e não enjeita influências de outros mundos. Os seus pratos são simples, têm a dose certa de criatividade e são pensados para acompanhar vinhos, outra das suas paixões e parte integrante destes jantares (todos de gama média e média alta). Mesmo numa cozinha comum e sem ajudantes, concebe um menu atractivo, com poucas falhas e servido a bom ritmo, dadas as características. A Íris cabe a definição do espaço, a hospitalidade e o serviço e há sempre uma mão extra a auxiliar. Não há pressas nem grandes agitações. As travessas vão passando de mão em mão e cada um serve-se à vez. Primeiro um conjunto de entradas: um interessante naan de sardinha de conserva picante, espetadinhas de frango satay, salada de carapau fresco e cous cous (excelente) e um aromático caril de abóbora e gengibre. Depois, blinis com crème fraiche e bacalhau seco e uma espécie de gaspacho com queijo cabra. Off-menu, um foie gras de pato (trazido por uma participante), salteado e servido apenas em cima de pão e, como prato de combate, lulas recheadas com batatas, ervas e toucinho, algo bem caseiro para não esquecermos que estamos em casa. A sobremesa foi uma esponja de laranja com cacau, mas antes ainda uma salada de agrião, pêra e queijo, inversão muito prezada pelo Chef (salada perto do final e não no inicio), tal como a melancia com eucalipto no final.. Ainda... mais bolinhos, boa música (num ipod de shuffle muito eclético) e, como nas festas de crianças, um presente no final, para levar: um frasquinho de molho pesto e um cookie de chocolate, ambos com o branding da casa, Green Caterpillar. Definitivamente gosto de lagartas verdes.

 

 

 naan de sardinha de conserva picante 

 

 espetadinhas de frango satay

  

salada de carapau fresco e cous cous 

 

 caril de abóbora e gengibre 

 blinis com crème fraiche e bacalhau seco 


 tomate ralado frio com queijo de cabra, azeite e cebolinho

 

 esponja de laranja e cacau 

 

 os vinhos da noite (alguns foram trazidos pelos participantes)


fotos: Cláudio Cardoso Marques

 

(contribuição: 35€. Os jantares comportam no máximo 10 pessoas)

 

(reservas e mais informações em: greencaterpillarsupperclub.blogspot.com/)

 

texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 20 de Maio de 2011

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publicado às 03:06


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