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Notas soltas de Londres

por Miguel Pires, em 03.05.12

 

Fazia tempo que não vinha a Londres. Cinco anos ou mais. Londres não está mais cara desde a minha última vez. Nós é que estamos mais pobres.

 

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Há espanhóis em barda a trabalhar nas principais cadeias de fast-healthy-light-porrige-açaí-fresh rostead coffe-food. Num desses locais, o Pret-a-Manger, ( mas poderia ser o Caffè Nero, o Costa, o Eat, ou o Starbucks ) faço conversa de circunstância com o empregado da caixa. Chama-se Eloi, como se pode ler na placa que traz ao peito. "Brasileiro?", pergunto. "No, español", responde. "Vêm-se muitos espanhóis a trabalhar em cafés", comento.. " Hombre és lá economia", diz-me, enquanto emite um som em estilo de banda sonora melodramática, reforçando com um gesto no sentido descendente. A economia espanhola está a afundar, quer dizer o Eloi. Pago e despeço-me sem lhe dizer que sou português - não fosse ele ter visto um reality show chamado "1 de Maio no Pingo Doce".

 

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Estou em Kew Gardens, em casa de um amigo. No pub junto à estação, onde escrevo estas notas, come-se uma boa sandwich club (e as chips walker's com sal e vinagre são um junk vício) . Não se deve viver mal, neste bairro da zona Oeste, a ver pelos Jaguares, Mercedes e Aston-Martins que encontro por aqui. Vêm-se boas casas misturadas-se com pequenos blocos de apartamentos de classe média (como o em que me encontro) e os carros ficam à porta ou no interior (com os portões abertos) de casas de perfil típico londrino, com janelas grandes, relvado em frente, muros baixos ou nem isso. Nao vi uma única em condominio fechado,, nem com vedação ou grades de segurança. Custa a crer que ainda há poucos meses varias zonas da cidade foram devastadas por tumultos que resultaram numa escala de vandalismo sem precedentes.

 

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Na Terça-feira almocei no Ledbury, para a critica da Wine do próximo mês. Fiz a reserva duas semanas antes e tive pontaria. No dia anterior este restaurante do Chef australiano Brett Graham registara a maior subida na lista dos 50 Melhores do Mundo, entre os restaurantes que faziam parte da mesma no ano anterior: passara de 34° para 14° lugar. Foi uma óptima refeição, digna de um duas estrelas michelin. Quanto ao lugar na lista...é discutível.

 

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Também almoçava por lá, nesse dia, a jornalista e blogger Alexandra Forbes. Por estes dias Londres é uma cidade pequena.

 

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No Ledbury descobriram o que fazia. Ainda antes de começar a fotografar os pratos ou a fazer perguntas. Pelo vistos googlam a lista de reservas. É mais comum do que julgava. Já tinha presenciado isso numa reunião de briefing que o Rene Redzepi me deixou assistir no Noma. Ora se o Redzepi pedia um "double eye on them", referindo-se a dois jornalistas belgas que lá jantariam nessa noite, porque é que no Ledbury não dariam importância a um jornalista português. Parece surreal, mas é verdade. Sim, paguei a conta, mas tive direito a mais dois ou três pratos. Ah e a uma mesa em que a luz era perfeita para tirar fotografias. Coincidência? Talvez.


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Deve ter sido o melhor pairing de vinhos que já me fizeram num restaurantes (calma, paguei e foram os mesmos vinhos a que tiveram direito todos os que o pediram com o menu do dia ou com o de degustação). Vinhos da Nova Zelândia, da África do Sul, de Espanha e um incrível Barbera d'Alba, a acompanhar um fantástico e potentíssimo lombo de veado fumado com pedaços de tutano em cima.

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O almoço do Ledbury foi uma espécie de recompensa pelo stress desse dia. Nessa manhã ligaram-me do Público a dizerem-me que era muito mais interessante ter o texto dos 50 Melhores Restaurantes do mundo publicado no dia seguinte, em vez de esperar pelo Fugas de Sábado. E, já agora, em vez de 3000 caracteres (2 colunas) sugeriam que escrevesse 7000 (2 páginas). What?! Sem internet em casa?! Olha...afinal consegui.

 



Mesa Marcada em Londres com o apoio da TAP

 

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publicado às 23:36

A Reportagem integral dos 50 Best Awards

por Miguel Pires, em 03.05.12

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Deixo-vos a reportagem que escrevi para o Público e que saiu na edição de ontem

 

"Agora temos liberdade total para cozinharmos o que quisermos", referia na passada Segunda-Feira, Rene Redzepi, chef do Noma (Copenhaga), ao subir ao palco do Guildhall, em Londres, para receber pelo terceiro ano consecutivo o prémio de melhor restaurante do mundo, numa cerimónia que trouxe bons ventos a Portugal: o Vila Joya (Praia da Galé, Albufeira) de Dieter Koschina entra pela primeira vez na lista principal (que engloba os 50 melhores), alcançando a 45ª posição, enquanto que o português Nuno Mendes consta na segunda parte da mesma (que reune do 51º ao 100º), no 80º lugar, com o seu restaurante Viajante, em Londres.

 

Este é o acontecimento em que "os chefs querem estar", referiu à revista Restaurant (que organiza o evento) o chef norte-americano, Thomas Keller, que nessa noite viria receber o Prémio Especial de Carreira. Keller não poderia estar mais certo. Em Londres, por estes dias encontrou-se metade do "quem é quem" da nata mundial dos cozinheiros.

 

As movimentações começaram dias antes, com eco prolongado nas redes sociais. No Instagram o brasileiro Alex Atala, do DOM (São Paulo), deixava uma foto da porta de embarque no avião onde se lia o destino: "Londres". No Twitter o espanhol Quique Dacosta (que ficou em 40º) aparecia abraçado ao português Nuno Mendes e deixava a mensagem: "excelente jantar ontem à noite no Viajante". Na foto, outro dos suspeitos do costume: O italiano Massimo Bottura, cujo a sua Osteria Francescana viria a ficar em 5º lugar. Chefes de outros países cozinhavam em diversos restaurantes locais, como foi o caso de Juan Roca, o nº2, ou de uma brigada hype vinda da Suécia (onde não se brinca em serviço quando o assunto é promover o país). De Copenhaga ainda não partira Rene Redzepi, chef do Noma, mas no Twitter marcava a sua posição: "1204 pessoas em espera para jantar esta noite. Em 2008, no mesmo dia, eram apenas 14" - mensagem reveladora da importância que um acontecimento como este pode ter na vida de um restaurante.

 

Num mundo mediático em que vivemos, em que o estatuto dos principais chefs de cozinha se assemelha ao das estrelas do espectáculo, este evento assenta que nem uma luva no perfil. Mesmo que contestado por muitos. Há quem o desvalorisse e há quem relativize a importância referindo que "vale o que vale". O que é certo é que levou menos de uma década a impor-se, chegando, em certos aspectos, a ultrapassar em relevância a hegemonia do centenário Guia Michelin.

 

A lista em questão é criada através dos votos da Academia dos 50 Melhores Restaurantes do Mundo, um grupo influente de mais de 800 líderes internacionais ligados à industria de restauração e à imprensa (chefes, restaurateurs, críticos e gastrónomos). A Academia é dividida em 27 regiões no mundo inteiro e cada uma tem o seu painel de 31 membros incluindo um presidente. Por região, cada uma destas pessoas vota em 7 locais por ordem de preferência, sendo a votação baseada nas experiências gastronómicas dos melhores restaurantes dos últimos 18 meses (três restaurantes da shortlist de cada membro deverão ser fora da sua região).

 

Na apresentacao dos prémios, William Drew, o organizador, defendia que a lista era "democrática e justa e que não apenas uma desculpa para fazer uma festa". Ou melhor, também era. E o que não faltou foi patrocinadores dispostos a lubrificar as gargantas ou a espicaçar o palato dos presentes.

 

A cerimónia estava marcada para as 18.30, no Guildhall London, a sede administrativa e sala de cerimónias da capital inglesa. Meia hora antes, cá fora, já se viam personagens do meio em convívio, entre entrevistas à imprensa. Sorridente, com menos uns bons quilos e elegantemente vestido, Dieter Koschina, do Vila Joya, era uma delas. "Estão aqui todos os chefes e seria muito importante para Portugal obtermos uma boa classificação", referia-nos este austríaco radicado em Portugal há 15 anos, que dizia não saber em que posição iria constar na lista - mas que certamente desconfiava que pelo menos entraria no top 50. Até então o ambiente estava calmo, mas tudo mudou com a chegada ao local de dois carros da organização. De dentro saiam Alex Atala, os bascos Juan Mari Arzak, a sua filha Elena (eleita melhor chefe feminina do mundo) e... Ferran Adriá. É claro que a partir desse momento todas as atenções se viraram para o chefe catalão, que apesar de não constar nas duas últimas listas (em virtude de ter encerrado o seu restaurante El Bulli, em 2011) continua a ser o mais famoso entre pares. Adriá não se fez rogado e desmultiplicou-se em entrevistas e curtos comentários. Em castelhano, em catalão e até em inglês, língua que nunca dominou. Pelo meio sorrisos, beijos e abraços. Quase tão concorrido esteve Alex Atala que soltou uma gargalhada quando comentámos ter sido necessário ele deixar de ser dj e tornar-se cozinheiro para atingir o estatuto 'rock star', de tal era o fernesim em sua volta. "E vai ser bom?", perguntava-lhe uma jornalista venezuelana. "Pois é, não sei. Há um burburinho por aí. Um bom sinal foi ter sido um dos poucos que foi escolhido para ser recebido pelo Primeiro Ministro...", referia o homem que foi pioneiro em trazer para a alta cozinha certos produtos indígenas do Brasil. De rosto aberto mas algo tenso, deixava adivinhar o que viria a acontecer cerca de duas horas depois. E o que veio a acontecer foi que o brasileiro viria mesmo a receber a segunda maior ovação da noite, quando foi anunciado como 4º lugar da lista, subindo três lugares em relação ao ano anterior. No entanto o maior aplauso seria naturalmente para Rene Redzepi, do Noma. Não só pelo seu "hat-trick" de anos sucessivos no topo da lista mas porque a sua atitude desconcertante tem tantos adeptos como a sua cozinha conceptual baseada exclusivamente em ingredientes nórdicos. Ainda por cima subiu ao palco acompanhado pelo africano Ali, o lavador de pratos do Noma (a função com o estatuto mais baixo que pode haver num restaurante), cuja entrada em Inglaterra tinha sido barrada no ano anterior, o que levou a que toda a equipa presente tivesse vestido uma t-shirt com a sua cara estampada. Mas este ano Ali pode entrar e Redzepi fez dele um rosto e o público reconheceu o gesto aplaudindo efusivamente

 

É verdade que tudo isto tem mais a ver com show business do que com comida, mas é interessante reter as palavras de William Drew no editorial deste mês da revista Restaurant: "Por entre toda a atenção dos media e a adoração do mundo gastronómico, não nos devemos esquecer que este meio macedónio, filho de um taxista, construiu o Noma do nada. Quando o restaurante abriu em 2004, num antigo armazém de peixe, Redzepi não tinha uma reputação por aí além, nem um pote cheio de dinheiro para esbanjar. Ao invés o que tinha era uma enorme fé, paixão, determinação, ideias originais, e técnica em abundância". Nuno Mendes certamente que assinaria por baixo porque embora ainda longe deste estatuto (mas próximo de Redzepi em vários aspectos) mostrava-se muito contente porque a simples entrada do Viajante nos 100 primeiros era um estímulo redobrado para a equipa e uma prova de que o seu caminho "fora da caixa" estava a dar frutos. E o mesmo considera em relação ao espantoso 45º lugar do Vila Joya. "É muito importante para Portugal", referiu utilizando a mesma frase que Dieter Koschina não se cansou de repetir nessa noite. Resta saber o que o impacto que estes resultados poderão ter por cá. Esperemos que este reconhecimento, aliado ao crescimento do número de restaurantes "estrelados" na última edição do Guia Michelin, sirvam de estímulo para que outros cheguem lá.

 

Mesa Marcada em Londres com o apoio da TAP

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publicado às 11:54


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