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Notas soltas de Londres (2)

por Miguel Pires, em 05.05.12

 

Com a missão (texto enviado para o) Público cumprida na 4f fui ver a exposição do Damien Hirst na Tate. Mais chocante do que julgava, menos completa do que esperava.

 

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Ainda fiz uma tentativa para almoçar no Viajante mas não tive sorte. Atravessei a Ponte do Milénio e perdi-me pela zona da City - mais interessante do que achava, mas não tanto quanto o tempo que por lá perdi. Estava frio e chuviscava pelo que não segui as sugestões que a Paulina Mata me havia dado (todas mais a centro) e acabei a almoçar num chinês modernaço e descomprometido. Desconfiei do nome, Ping Pong, mas tinha wi-fi e uma boa sugestão de dim sum e afins. Não me excitou, mas também não me desiludiu. A ligação à net era razoavelmente rápida e cá fora continuava a chover.

 

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Comprei o Guia da Time Out - London Eating& Drinking. Bom guia: muito completo, bem estruturado e bem escrito. Dei uma olhada no capítulo, "Spain & Portugal" e detive-me no restaurante português, Fado: "(...) esperávamos uma noite desta música portuguesa (...) mas em vez disso a nossa refeição foi acompanhada por um organista que cantava músicas de Neil Diamond e dos Searchers. Infelizmente a desilusão não ficou por aí...". Desisti logo e mudei de página. Para deprimente já chegava a chuva.

 

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Valha-nos o Nuno Mendes - que merece uma medalha de mérito, duas estrelas michelin e uma comenda no 10 de Junho - e o facto da maior parte dos restaurantes espanhóis no guia não serem muito diferentes do nosso triste Fado.

 

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Londres é sempre uma oportunidade para comer o mundo. Na véspera, em Richmond, a dois passos de Kew Gardens, jantei num tailandês com muitas recomendações na porta mas de nome tão esquecível quanto o pad thai que comi. Hoje pretendia ir ao Koba, um coreano recomendado pelo guia Time Out, em Fitzrovia, acima do Soho, mas desisti. Novamente a chuva.

 

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Tinha alcançado Chinatown, onde a Time Out aconselhava o Manchurian Legend como uma boa alternativa às cozinhas chinesas dominantes, a cantonesa e de Sichuan. Ainda para mais dava-lhe o título: “2011 Winner Best New Cheap Eats”.  Para esquecer. Ou melhor talvez dê em algo quando explorado em grupo e experimentado vários pratos. Afinal, no Hong Kong – Grande Palácio, que considero um bom exemplo de chinês em Lisboa, a possibilidade de dar um tiro ao lado também é grande. Acontece que eu consegui dar dois tiros ao lado (ou três, contando com um que tentei acertar na incompetente empregada. As fatias de barriga de porco cozinhadas lentamente, soavam bem ao ouvido e agradavam à vista, mas na prova não se revelaram outra coisa do que fatias de vulgar entremeada tipo borracha. As espetadinhas de lulas com cominhos, uma entrada que veio como sobremesa, essas então, eram mesmo de borracha – nada que uns pints no pub da Kew Station não viesse ajudar a esquecer.

 

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Último dia em Londres (antes de saber que iria perder o avião). Dou uma olhada no email de sugestões gastronómicas da Paulina e apanho o metro para Notting Hill. Detenho-me numa cafetaria Eat. para consultar o email e, adivinhem... para me abrigar da chuva.

 

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Planeava fazer o trajecto a pé até à Oxford Street para em Marylebone dar uma saltada a 3 spots que a Paulina me dizia para não perder: o La Fromagerie, o Ginger Pig e o Tapa Room do Providores.

 

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O Tapa Room do Providores é a Tasca da Esquina do bem sucedido chef neozelandês  Peter Gordon. O espaço é compacto, demasiado compacto, quando cheio, como foi o caso. No entanto é um daqueles sítios informais com bom gosto a que apetece ir e ficar. A cozinha é de fusão e do género comfort com apresentação cuidada. Devia ter um menu de mini tapas, mas não, pelo que em grupo (ou pelo menos a dois) o proveito será maior.

Peço duas ‘tapas’ que julgo suficientes para sair aconchegado (porque ainda queria provar um folhado do Ginger Pig). A primeira, com um nome composto e comprido não passava de duas fatias de terrina de fígado de pato, com compota. Boa mas banal. Já a segunda foi do melhor que comi em todos estes dias (Ledbury incluído). Fixem o nome: Inari Dahl. Inari é uma espécie de bolsa feita com tofu que os japoneses recheiam com arroz. No Tapa Room do Providores recheiam-no com dahl, um guisado de lentilhas indiano tão fragrante quanto saboroso. O adocicado das lentilhas e do coco caramelizado tinha como contraponto vegetais (crus ou ligeiramente cozinhados) e papaia pickle,  o que em conjunto com a textura crispy (tipo tempura) do inari... god! não importava mesmo nada de comer isto (quase) todos os dias. No final paguei mais ou menos 25 libras. Razoável dado que as bebidas alcoólicas são caras (7 libras por uma cerveja artesanal) e a conta inclui sempre 12,5% de serviço.

 

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Não sei que curso é exigido  para servir à mesa no Tapa Room do Providores, mas  julgo que seja necessário ter aptidões de bailarino/a e equilibrista para rodopiar entre cotovelos e mesas apertadas. O serviço é um pouco a despachar mas há sempre tempo para uma palavra simpática ou uma explicação mais demorada. Já no final, ao pagar, uma das empregadas pergunta-me se de algum modo estou ligado ao negócio da comida. Digo-lhe que de algum modo sim, que escrevo. “E fala a minha língua?”, pergunta-me ela em inglês. “Não era suposto? Não é que toda a gente fala?”, respondo-lhe, perplexo, depois de um esforço para fazer um british accent um nadinha melhor do que o do Mourinho. “É que eu sou portuguesa e identifiquei-o pelo seu cartão de crédito”, responde com um sorriso. “Ah!”. Chama-se Ana França, tem um mestrado em comunicação social, está em Inglaterra há seis meses e quando não trabalha para Peter Gordon, também escreve. Good on you, Ana!

 

 

Se um talho incrível como o Ginger Pig estivesse em Portugal provavelmente já teria sido fechado pela ASAE. Como sabem Inglaterra é um país de terceiro mundo e por lá fazem maturações prolongadas de várias semanas à carne de vaca e ainda por cima expõem-na no balcão!.

P.S. O Ginger Room está a formaa talhantes e tem inscrições abertas. 

 

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Apetece comprar tudo mas fico-me por um folhado de porco e stilton, que será o meu jantar nessa noite.

 

 

O La Fromagerie, já será mais do agrado dos nossos fiscais sanitaristas (nem sei se a palavra existe), pois tem uma cave climatizada com dezenas e dezenas de queijos. Só que fora daquelas embalagens de vácuo de forma a podermos sentir o aroma, que horror, Srs da ASAE! Além da especialização nesta área a Fromagerie vende outros tipos de produtos, digamos, finos. É assim um género de mercearia com pinta que também serve almoços. 

 

 

 

Mesa Marcada em Londres com o apoio da  TAP

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publicado às 14:41


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