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Barca Velha 2004. Eu Pecador me confesso

por Miguel Pires, em 18.05.12

 

Eu pecador vínico me confesso. Até anteontem só tinha pecado, barcavelhamente falando, por duas vezes. A primeira foi num jantar caseiro com o 1995, apelidado por muitos como o mais fraquito dos Barca Velha.Influenciado ou não por essas criticas o certo é que não me impressionou como esperava.

 

É preciso não esquecer que rezava o ano de 2004 (creio) e a bitola cá em casa (e em muitas casas) andava muito pelos pujantes vinhos do Douro e do Alentejo. Não é que não apreciasse a a elegância e as nuances que só certos vinhos com personalidade têm, mas é que uma loira espampanante ainda causava um certo efeito.

 

Depois de outro longo jejum tudo mudaria no final do ano passado quando provei o 1999, sorrateiramente numa banca da concorrência, na última Essencia do Vinho. Que vinho! fino, elegante e cheio de personalidade.

 

Como devem imaginar estava então em pulgas para ter a nova colheita à frente, a razão pela qual passei 5 horas metido num autocarro para chegar ao Douro. O curioso é que quando pano subiu discutia-se à mesa - no jantar que a Sogrape organizou no belíssimo hotel Casas do Coro, em Marialva - dois brancos muito curiosos produzidos casa para o Clube 1500: o Casa Ferreirinha Vinha da Capela 2008 e o mesmo vinho com estágio prolongado em barrica. Entre notas de oxidação, originalidade e ai eu prefiro o primeiro, já eu gosto mais do segundo, fez-se um certo silêncio para que o mito pudesse cair no copo e do gargalo se ouvisse o 'glu glu glu'.

 

Directo ao assunto sem mais descrições etilo-poéticas: um mito não é um mito só pelo nome que tem. Impressionante na cor (nem parece que tem 8 anos), a complexidade, finesse e frescura fazem deste colheita de 2004 algo de extraordinário. Não cheguei às "nuances florais de alfazema e violeta" da nota de prova oficial mas presenciei os frutos vermelhos maduros (não confundir com madurões), as notas especiadas e o final longo e complexo. Habemus papam, portanto.

 

 

Também, algo que venha de uma paisagem com esta, na Quinta da Leda, no Douro Superiror, só poderia ser bem nascido

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publicado às 18:47

No início da longa vida do Barca Velha 2004

por Duarte Calvão, em 18.05.12

Quando chegou o grande momento da noite, com o Barca Velha 2004 a ser servido para acompanhar o prato principal do jantar do bonito restaurante das Casas do Coro, na misteriosa Marialva, levei o copo ao nariz e, tal como já estava à espera, gostei logo daqueles aromas limpos e elegantes, daquele equilíbrio que depois de confirmou ao beber. Nada de excessos de fruta, álcool, doçura, apenas aquela suave complexidade, aquela força tranquila de um vinho que para mim só teve um “defeito”, parece-me ainda novo de mais para ser bebido.
O Barca Velha é o meu sonho para os grandes vinhos portugueses. Produzido só quando a qualidade o permite, numa quantidade que o afasta do “vinhos de garagem”, deixado a envelhecer pelos produtores, com potencial para melhorar ainda mais depois de chegar à mão dos clientes, com uma bela história para contar, não me preocupa nada saber se é ou não “o melhor” vinho português, mas sim que é único e que proporciona uma experiência extraordinária quando é bebido.
Vale o dinheiro que se pede por ele (já agora, parece que este 2004 ficará em 100 euros no Clube 1500 da Sogrape, vamos ver por quanto chegará às lojas), perguntam os obcecados pelas relações preço/qualidade. Para mim, que sou um admirador confesso, é claro que vale. Prefiro uma garrafa destas a cinco “novidades” de vinhos com dois ou três anos de colheita, todos a saber a Novo Mundo, infantis e óbvios. E a verdade é que nunca faltam compradores, sobretudo em Portugal e no Brasil (onde é, a par do Pêra-Manca, uma das únicas marcas de topo de tintos portugueses com reconhecimento generalizado), para as suas 26 mil garrafas.
Deixo para os críticos de vinho a tarefa de explicar o Barca Velha 2004, de o comparar com algumas das 17 colheitas anteriores, mas aqui ficam algumas informações fornecidas pela Casa Ferreirinha – Sogrape. Tem 40% de Touriga Nacional, 30% de Touriga Franca, 20% de Tinta Roriz e 10% de Tinto Cão. De álcool, 13,5º. Nota de prova dos produtores: “intensa cor ruby e um aroma de grande harmonia e complexidade, com forte presença de frutos vermelhos bem maduros, nuances florais de alfazema e violeta, e uma excelente componente de especiarias. Na boca é volumoso, tem uma acidez viva e bem integrada, com taninos bem presentes e de excelente qualidade. À fruta vermelha, que ainda se revela fresca, juntam-se notas de especiarias e balsâmicas. O final é extremamente longo e complexo, com uma delicadeza e simultânea estrutura assinaláveis.” Aconselham-no com carne, caça e mesmo alguns queijos com “sabores requintados”.
Na apresentação nas Casas do Coro, o enólogo Luís Sottomayor sublinhou a facilidade com que a equipa que lidera identificou 2004 como um ano Barca Velha e, a julgar pela reacção dos peritos que estavam na minha mesa e, posteriormente, pelas dos outros convivas que o ficaram a beber noite fora, ninguém pôs e causa o acerto da decisão.
No dia seguinte, depois de uma agradável viagem de barco a partir do Pocinho, fomos visitar a Quinta da Leda (na foto) e fiquei esmagado pela beleza e grandiosidade do panorama que se avista do terraço da moderna adega, inaugurada em 2001, tendo no fundo o Monte Callabriga, no cimo do qual existiu em tempos um importante povoado, do qual hoje só se avistam vestígios das muralhas. É evidente que dali só pode sair um grande vinho.

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publicado às 18:18


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