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Restaurante Góshò

por Miguel Pires, em 14.08.13
A Oriente na Invicta
“Tens de ir ao Góshò. É o melhor japonês do Porto”, disseram-me varias vezes. Estando na cidade, no ultimo dia antes de regressar a Lisboa, achei que um almoço japonês vinha a calhar, depois de dois dias de comidas fortes e bem regadas no âmbito da Essência do Vinho.
Principio de tarde soalheiro, no Porto, o que faz toda a diferença para quem tem alguma dificuldade em lidar com o granito, o frio e a chuva de Inverno na cidade invicta. A Avenida da Boavista encontra-se em ritmo de cruzeiro, lembrando mais a calmaria de domingo, do que um sábado de comércio aberto. Dirigo-me ao Hotel Porto Palácio. A porta do Góshò fica ao lado, logo à entrada, no mesmo módulo da cervejaria Porto Beer. Ou seja: não é necessário entrar no hotel (nota adicional para quem não frequenta restaurantes de hotel por uma qualquer fobia inexplicável).  
Entra-se, desce-se as escadas e lá se vai o Porto soalheiro. Contudo não se pense num ambiente soturno de cave porque o espaço foi bem concebido e decorado ao estilo contemporâneo oriental (despojado e sofisticado qb), com uma boa iluminação a contribuir para criar uma sensação de bem estar. Uma área lounge antecede a sala ampla com dois longos bares, o de sushi e o de bebidas, acolhendo ainda uma zona (tatami) para jantares privados.
A carta de comidas alberga oito dezenas de propostas entre o clássico e o contemporâneo, com espaço para algumas de fusão, ou mesmo um ou outro prato de outras proveniências (ceviche, kimchi coreano, etc). A ementa foi definida por Paulo Morais e é bem visível a sua marca, dado que vários pratos correspondem ao que o chef vem fazendo em Lisboa. De entrada, há sopas, massas e saladas e, nos principais, tempuras, sushi, sashimi, teppan yaki (grelhados na chapa), sukiyaki, shabu-shabu (de fondues japoneses) e alguns pratos cozinhados, como o bacalhau negro assado com miso ou o caril japonês de robalo, por exemplo. Registe-se ainda duas mãos cheias de sobremesas, a particularidade de haver uma francesinha nipónica e mais pratos de carne do que costuma ser habitual num restaurante japonês. Com uma oferta tão variada só há duas formas de poder ficar com uma impressão bem fundamentada sobre o restaurante. Ou convoca-se os amigos (e é preciso ter muitos), ou tem que se ir muitas vezes. A descrição que deixo de seguida, corresponde a uma impressão geral a partir de uma escolha à carta entre pratos mais invulgares e outros mais comuns (e mais requisitados), como é o caso do sushi to sashimi.

O almoço começou com uma lulinha com legumes, como oferta do chefe – uma forma agradável (e picante) de deixar as papilas gustativas a pedir por mais. Depois veio o ‘shot’ de ostra, sake e lima. O vinho de arroz domesticou a intensidade da ostra mas não lhe retirou o gosto, até porque o molusco tem personalidade e um final prolongado. Bom toque da lima a dar uma nota citrina ao conjunto. Apetecia pedir meia dúzia mas, entretanto, chegou a sopa de miso com amêijoa aberta em sake, gengibre e coentros. O caldo de miso (pasta de soja fermentada) era muito aromático, ainda que a presença do sake fosse demasiado subtil. Tal como a lima na proposta anterior, neste caso foi o gengibre que espevitou o conjunto.

O sushi to sashimi desiludiu um pouco. É menos farto do que aparentava ser ao ler a descrição na ementa (12 fatias de peixe, 3 nigiris, 2 hosomaki e 2 uramaki - 18 euros). Mas mais do que quantidade esperava uma maior variedade de peixes, em vez do predomínio do salmão em quase todas as peças. Ainda assim a  frescura do peixe e a execução correcta, quer no corte do peixe, quer no arroz, atenuaram o desalento.
Sendo um adepto incondicional de ramen - um tipo de massa chinesa de que os japoneses fizeram um desporto nacional - não resisti em convocar a sua presença para finalizar a secção dos salgados em beleza. Estava de estalo. Caldo apurado (sem ser gorduroso), massa no ponto e uns saborosos e macios pedaços de kakuni - barriga de porco que na sua receita base é marinada em dashi, molho de soja, açúcar, sake e mirim, antes de ser cozinhada a baixa temperatura por várias horas. Esse tratamento faz com que os sabores se concentrem e a textura da carne fique macia.
No campo das sobremesas  houve algum vacilar na escolha. Estava com a ideia de experimentar o ‘ménage a trois de chocolate’ (mousse de chocolate negro, financier de chocolate de leite, e gelado de chocolate branco com wasabi) mas no último instante decidi por outra que me pareceu menos pecaminosa, o “Porto Coffee Zen”, uma agradável mousse de café e Porto, com biscoito esfarelado e sorbet de chocolate amargo - sabores suaves e um agradável contraste de temperaturas, com o toque ligeiramente amargo do sorbet a quebrar um pouco o doce. Esta é uma sobremesa em que a aproximação ao Japão faz-se mais pelas notas suaves de doce do que pela técnica, tradição ou ingredientes.

 No capitulo dos vinhos, a carta não é muito extensa mas pareceu bem adequada ao restaurante, com meia dúzia de propostas a copo e cerca de 80 referencias em garrafa, agrupadas por características e não pela divisão habitual por regiões. Apesar da proximidade do Douro, com a excepção de alguns tintos de topo da região, a carta não é bairrista. Pelo contrário, mostra inclusive um perfil cosmopolita ao albergar uma dezena e meia de vinhos estrangeiros, já contando com champanhes. Neste campo (dos espumantes) há que acrescentar ainda 7 rótulos nacionais, o que permite ter uma opção de escolha mais do que razoável, num tipo de vinhos que é, talvez, o mais adequado e versátil para este tipo de comida, como pude comprovar ao acompanhar a refeição com o espumante da casa, elaborado por Celso Pereira, das Caves Transmontanas, a empresa que produz o Vértice.
 
Uma última referência para o serviço que não esteve à altura. Não que o atendimento tenha sido rude. O empregado que atendeu até era simpático, mas não conseguia disfarçar a inexperiência, uma falha que atribuo mais ao responsável de sala (ou à gerência), que deveria acompanhar mais de perto o seu trabalho.
 
O Góshò é de facto uma boa opção na cidade para os amantes da cozinha japonesa. Oferece variedade, boa execução e criatividade qb a quem quer ir mais além na experiência. No entanto tem de rever alguns detalhes, nomeadamente na questão do serviço, para que seja um bom restaurante no Porto ou em qualquer outro lugar.
 
Cozinha: 17 ; Sala: 15; vinhos: 17
 
 
Preço médio: 35€ ao jantar e 16€ (menu) ao almoço. Por esta refeição pagou-se 60€ por pessoa
 
 
Contactos: Av. da Boavista 1277  4100-130 Porto; Tel: 226 086 708; Horários:2F a Sab:12:30h/15:00h e 19.30/23.00h (24.30h Sex e Sab). Encera ao Domingos

Texto publicado originalmente na revista Wine - A Essência do Vinho, nº 79, de Abril/Maio 2013

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publicado às 12:05


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