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Crónica de um lisboeta agradecido

por Duarte Calvão, em 28.08.09

Parece que Miguel Castro e Silva andava um bocado ranzinza nos últimos tempos, contrariado porque o restaurante nunca mais abria e ele estava com saudades de cozinhar desde que se desligou do Bull & Bear e do BB Gourmet. Pois bem, esta semana fui almoçar duas vezes ao De Castro Elias (na foto), nas Avenidas Novas lisboetas, e só posso dizer que a cidade ganhou mais um óptimo restaurante. Os admiradores alfacinhas, como eu, deste tripeiro de gema acabaram por ficar a ganhar com os infelizes percalços que atingiram um dos melhores e mais influentes cozinheiros portugueses dos últimos anos, trazendo a sua excelente cozinha mais para perto.
O De Castro Elias é pequeno (pouco mais de 30 lugares), com uma sala em profundidade, mas está muito bonito, pintado de branco e decorado com sobriedade e bom gosto, com copos, talheres e serviço de loiça (um dos aspectos em que Miguel Castro e Silva sempre destacou) de boa qualidade. A lista de pratos é muito baseada nos petiscos e nas porções que se partilham, lembrando o tipo de oferta da Tasca da Esquina, de Vítor Sobral. No entanto, ninguém pense que aqui há "cópias", apesar da amizade entre estes dois grandes chefes, porque me lembro, desde que houve a hipótese de Miguel Castro e Silva ir para o Tavares, que ele tinha a ambição de dar qualidade aos nossos petiscos (aos quais iria dedicar o primeiro andar do histórico restaurante lisboeta), que concretizou em parte no BB Gourmet.
Fui convidado para o primeiro almoço por um dos sócios da casa (que é meu amigo e a quem liguei uma hora antes para ir almoçar a qualquer sítio...) e por isso não só não paguei como deixei nas mãos do chefe o que íamos comer. Codornizes com um escabeche muito equilibrado, com a carne no ponto certo, fáceis de comer, umas originais "iscas" de bacalhau soberbamente fritas, moelas em molho picante (não muito) também com um ponto de cozedura perfeito e a célebre morcela da Beira Alta, de um fornecedor que há muito abastece a cozinha de Miguel Castro e Silva foram momentos altíssimos. Toda esta petiscaria é servida a preços que vão dos 2,70 aos 4,90 euros.
É sabido que os cozinheiros são uns chatos e basta dizermos não gostamos de uma certa coisa para eles dizerem logo "tens que provar os que eu faço". Foi isso que fez Miguel Castro e Silva quando lhe disse que podia servir o que quisesse menos pezinhos de coentrada....Mas realmente estes vêm desossados e sem cartilagens, muito saborosos. Não pediria de novo, mas realmente achei muito aceitáveis. Custam 6.80 euros e estão na parte dos "quentes" da casa, a preços que rondam os 10 euros. Ainda comi à sobremesa arroz doce, outro prato que não é da minha predilecção, mas aqui rendo-me: estava perfeito.
O chefe mostrou-me a cozinha que é pequena mas tem alguns bons equipamentos, permitindo-lhe cozinhar a baixas temperaturas, um dos pontos fortes da sua cozinha. No dia seguinte, apareci lá sem aviso, acompanhado por uma amiga jornalista, e Miguel Castro e Silva, que, naturalmente, está um pouco tenso e acha que o restaurante não está ainda "preparado", maldizeu-me e por sua vontade acho que me teria até expulsado...É claro que não lhe liguei nenhuma e pedi uma refeição mais canónica, deixando que o couvert (queijo fresco em cubinhos com azeitonas descaroçadas, muito bem temperado) servisse de entrada e dividindo um bife à café e um arroz de vitela com cogumelos, que apesar de caldoso, tinha os bagos num ponto perfeito. Tudo excelente e a repetir. Bebendo dois copos de vinho, uma garrafa de água e dois cafés, dividindo uma sobremesa, a conta ficou em 35,5 euros.
Por enquanto, o De Castro Elias fica aberto só entre as 12 h e as 19 h, com cozinha sempre aberta, fechando ao domingo. Fica no final da Av. Elias Garcia, no 180 B (tel. 21 7979214), já junto à Gulbenkian. Será sem dúvida um restaurante obrigatório com uma qualidade absoluta que o coloca entre os melhores da cidade e uma relação qualidade/preço quase imbatível. Das duas vezes a casa estava cheia e acredito que esta cozinha cheia de sabor e de saber vai ter muito êxito. Lisboa só pode agradecer que Miguel Castro e Silva esteja a cozinhar entre nós.

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publicado às 10:01


28 comentários

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De Anónimo a 28.08.2009 às 23:53

não ah mais cozinheiros em Portugal? aqui só relatam Avillez, baena, sobral, castro e silva, pa semana e o sa pessoa, pa otra o ljubo e tá feito! São todos grandes chefes, mas penso que há outros também muito bons que merecem divulgação, tenho ouvido falar do bocca, do G-spot, entre outros e nunca vi imagens, seria bom uma reportagem ..

Antunes (Aprendiz de escansão no Plaza Athenée)
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De Duarte Calvão a 29.08.2009 às 00:30

Caro aprendiz de escanção, há muitos mais, felizmente. Muitos mais do que os dois que enumera. Falaremos deles quando nos apetecer ou se justificar.
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De Miguel Pires a 29.08.2009 às 01:08

É curioso que estes comentários surjam precisamente na semana em que destaco um Chefe praticamente desconhecido (Pedro Pereira) na critica que fiz sobre o Tivoli Victoria de Vilamoura.
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De Anónimo a 29.08.2009 às 08:07

CAROS

é estranho fazer uma crónica quando um restaurante abre?

já aconteceu o mesmo no novo 100 maneiras (se calhar ainda não estava aberto). e nesse caso penso que foi ainda no DN.

Em relação aos mesmos chefes, são vocês que limitam o universo, dando pouco lugar a potenciais novos e demasiado lugar sempre aos mesmos (nalguns casos não justificados). mas não são só voces, todas as ações de promoção da gastronomia têm show cooking de chefes tirados de um conjunto de 20 mas sempre os mesmos. e depois a presença internacional é nula e a gastronomia portuguesa é como carangueijo só anda para trás.

por fim uma questão.

é com restaurantes como estes que têm aberto que a nossa gastronomia avança?
estão satisfeitos?
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De Miguel Pires a 29.08.2009 às 10:51

Acho que há aqui alguma confusão. Convido-o a ler a carta de intenções deste blog. Certamente que não encontrará lá qualquer protocolo que tenhamos feito com a associação de cozinheiros de portugual ou qualquer outra entidade do género.

Pode-se concordar ou não com o que escrevemos mas pelo menos damos a cara e não nos escondemos sob anonimato. É assim um acto tão corajoso assinar um comentário? Já não digo que se efectue um registo no blogger, mas pelo menos que quem comente, tenha uma identidade.
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De Duarte Calvão a 29.08.2009 às 10:54

Sabe o que é uma notícia? Como aquela sobre o 100 Maneiras que escrevi para o DN e que cita? É algo de "novo". Ou seja, não é uma "crónica". Aqui neste blogue, onde escrevo sobre o que bem entendo, sem ganhar um tostão com isso, decidi recorrer à crónica para falar das primeiras experiências que tive num restaurante que acaba de abrir, de um cozinheiro que conheço há muitos anos. Não percebo como é que alguém que gosta de cozinha não fica satisfeito por saber que abrem restaurantes como o 100 Maneiras ou o De Castro Elias.
Quanto a "espaço" para a outros, tenho até uma certa preguiça em responder. Quando comecei a escrever no DN, há mais de 10 anos, só encontrei com reputação mediática bem estabelecida os chefes Vítor Sobral, Miguel Castro e Silva e Joaquim Figueiredo (claro que me refiro apenas a portugueses). De lá para cá, dei espaço a Fausto Airoldi, Luís Baena, Leonel Pereira (todos experientes, mas então menos conhecidos), José Avillez, Ljubomir, Sá Pessoa, Bertílio Gomes, Pedro Nunes, Francisco de Meirelles, José Cordeiro, Paulo Morais, Luís Suspiro, Jerónimo Ferreira, Ricardo Costa, José Júlio Vintém, João Antunes, vários ex-integrantes das equipas de Aimé Barroyer e tantos outros menos conhecidos ou de que agora não me lembro. Vá ver o site do Peixe em Lisboa e verá a quantidade dos que passaram por lá. Mas perceba uma coisa, também na cozinha há primeira e segunda divisão, há quem esteja a começar e quem já é mais experiente. Não adianta achar que temos direito a ter "espaço" só porque somos novinhos. Temos que o conquistar com mérito.
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De Anónimo a 29.08.2009 às 11:51

HAHA, mérito..
Alguns, pelo que tenho lido aqui ah alguns que mérito não têm nenhum, concordo com o comentário anónimo acima, assim só andamos para traz, com casas de petiscos? Assim só mesmo para ganhar clientes e para serem mediatizados por vóz, não se esqueçam é que se um dia tentarem subir os preços serão rapidamente regeitados, estão nesta moda de baixo preço não por que gostam, mas porque faliram ou correu-lhes mal em outras andanças, aproveitam e lançam-se para a ribalta como falsos modestos..
Tristezas.. Ponham os olhos nos estrangeiros que por cá andam, como o Aimé, Korper, Kochina, Consegue-se bem ver a diferença comparando por exemplo com um Sobral, um Baena um suspiro.. Coitadinhos...
Vão sendo acomudados pela nossa triste critica, se fosse em espanha..frança.. mediocres como são..Eram rebaixados a torte e a direito... Aqui fazem-se criticas com base em borlas nos restaurante..ora se oferecem o jantar como irão dizer mal?

Ricardo C.
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De Paulina Mata a 29.08.2009 às 12:04

Boas notícias!

O Duarte e o Luís Antunes já me deixaram cheia de vontade de lá ir!

Para o Miguel Castro e Silva desejo muito, muito sucesso!
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De Duarte Calvão a 29.08.2009 às 12:09

O comentário do Ricardo C. fala por si. E este tipo de pessoas ainda acha que sabe como fazer "andar para a frente" a cozinha portuguesa...
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De Anónimo a 29.08.2009 às 17:55

desculpem a insistência

estão satisfeitos com os restaurantes com os restaurantes que têm aberto?

Eu também gosto de restaurantes em que se coma bem, e é melhor estes que nenhuns. mas a quetão é:

é com estes restaurantes que a gastronomia portuguesa/lisboeta evolui?

gostava a vossa opinião de especialistas

obrigado

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