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Não deixem cair esta estrela

por Miguel Pires, em 07.07.09
Restaurante S. Gabriel

Não sou dado a místicas mas tenho que reconhecer que por vezes deparamo-nos com situações que tendemos a atribuir a fenómenos, digamos, paranormais. Ir a um restaurante mesmo que de topo e ter um atendimento impecável, sem uma falha, não é comum, pelo menos em Portugal. A estranheza começa pelo entusiasmo de viva voz de quem nos atende quando ligamos a reservar mesa. Depois, achamos que vamos ouvir um raspanete pela chegada com meia hora de atraso. Mas não, quando nos preparamos para pôr as culpas no GPS somos recebidos com um sorriso aberto por uma figura franzina que, pela voz, reconhecemos como sendo a mesma pessoa que horas antes nos atendeu o telefone. Susy Luginbühl é suíça e é ela a responsável pelo contágio no trato irrepreensível que toda a equipa dedica aos clientes deste espaço entre Vale do Lobo e a Quinta do Lago, onde se concentra, em férias, o equivalente a uma parte do PIB português. É provável que a hospitalidade não seja alheia aos clientes, nem tão pouco aos inspectores do Guia Michelin. Os primeiros enchem o pátio onde são servidas as refeições no período estival e voltam com frequência. Os segundos atribuem-lhe uma estrela de classificação há anos consecutivos. Na equação falta acrescentar o mais importante, a comida. Jens Rittmeyer foi durante anos parte do sucesso da casa. Acontece que este alemão regressou ao seu país e, em Março, para o seu lugar à frente da cozinha foi contratado Torsten Schulz, seu compatriota, vindo dos Estados Unidos, com passagem anterior pelo Nobu Armani de Milão. Aparentemente o tipo de cozinha praticada não sofreu alterações de maior. Continua a prevalecer a cozinha internacional de base francesa com toque mediterrânico onde se privilegia o uso de produtos de época e peixe da região.
No menu de degustação (75€) que experimentámos a sazonalidade era evidente na integração de vários tipos de fruta de época. No “Amuse bouche”, uma refrescante sopa de pepino e meloa. Com o primeiro prato, pêssegos marinados acompanhavam um camarão tigre e, no seguinte, nêsperas ligeiramente cozinhadas fariam um casamento perfeito de sabores com um peixe-galo trabalhado no ponto certo (acompanhado de espinafres de caule vermelho). Num intermezzo para limpar o palato foi a vez de um sorvete de maracujá de textura aveludada e acidez marcante, para depois nos apresentarem um peito de pato no forno, cerejas e gnocchi de batatas e trufas. Apesar de hoje em dia o magret de pato ser um produto banalizado, permite uma versatilidade de conjugações capaz de causar surpresa, como foi o caso do que nos foi servido. Os gnocchi fizeram a vez da batata gratinada e a redução com cerejas (em vez de uvas ou laranja) trouxeram ao conjunto doçura com toque acídulo.
O que não se esperava é que um dos frutos mais emblemáticos da região, o figo, fosse o elo mais fraco da noite. Não pela execução de três formas distintas a que foi sujeito na sobremesa – fatiado com calda por cima; em gelado; e em parfait -, mas pela falta de sabor (estávamos em Junho, muito no início da época do fruto). Em termos de vinhos a refeição foi acompanhada com um Covela branco, 2007 (26€) servido em bons copos e à temperatura adequada.
A continuidade dotrabalho de cozinha que projectou esta casa e a boa atmosfera que se sente - boa parte devido a um dos melhores serviços de que tenho memória - são razões mais suficientes para que este S. Gabriel continue a marcar pontos no panorama gastronómico nacional. Assim esperemos que os inspectores da Michelin, avessos a mudanças de maestros, pensem o mesmo e continuem a atribuir-lhe a tão cobiçada estrela que o espaço ostenta há alguns anos.

Contactos: Estrada Vale do Lobo - Quinta do Lago, Almancil; Tel: 289 39 45 21 http://www.sao-gabriel.com/

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Semanário Económico) em 04 Julho 2009

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publicado às 01:13


1 comentário

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De maloud a 07.07.2009 às 14:56

O serviço é tão bom e tão gentil que, de cada vez que lá vou, é incapaz de lançar um olhar desaprovador às mesas embriagadas, cujas gargalhadas alarves me estragam invariavelmente a sobremesa.

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