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Ponha aqui o seu pezinho

por Miguel Pires, em 09.11.09

O convite era tentador: 4 dias de “dolce fare niente” no Choupana Hills, no topo de uma exuberante colina com vista sobre o Atlântico e a cidade do Funchal. O corpo pedia tréguas e o local reunia todas as condições para lhe satisfazer os caprichos. Mas era óbvio que não podia perder a oportunidade de conhecer um pouco mais a oferta gastronómica desta ilha madeirense. Cinco dias – acrescidos de outros três, em Julho –  não são suficientes para um aprofundado conhecimento de causa, mas dá para perceber que existe uma oferta variada que vai do quiosque de rua que vende bolo do caco nas mais diversas formas, até ao mais sofisticado dos restaurantes (na sua grande maioria em hotéis), passando por locais mais populares, ou mais tradicionais (uns mais para turistas, outros mais para consumo interno).
Esperava encontrar à mesa uma presença mais forte da gastronomia local. Mas tal como acontece em muitos outros sítios onde o turismo é preponderante, esta presença acaba por se diluir no meio de uma cozinha globalizada (para o bem e para o mal) e também na dificuldade em conseguir fornecimento regular produtos locais de qualidade (uma queixa que ouvi de chefes dos restaurantes de topo).


Xôpana (Choupana Hills) – Funchal

Uma das pessoas que vi mais empenhadas a este respeito foi Mommo Abbane, o Chef  canadiano de origem argelina que comanda a cozinha do Xôpana, o restaurante do Hotel Choupana Hills. Na sua cozinha de fusão de influência oriental encontramos, por exemplo, um tártaro de atum com chantilly de wasabi; peixe espada com chutney de pimpinela (chuchu) e molho de maracujá; filete de bodião e juliana de verdura Thai; ou um cheesecake de bolo de mel. Do que experimentámos, encontrei criatividade e um grande equilíbrio de contrastes e conjugações a nível de sabores, texturas e inclusive em termos nutricionais. Destaco o foie gras à la plancha com mil folhas de ananás, molho de chocolate e malvasia e o linguado com  ceviche de vieiras, caviar, inhame da ilha e creme de couve lombarda.
(preço médio com vinho: 60/70€, pax)



ceviche de vieiras, caviar, inhame da ilha e creme de couve lombarda

Ainda dentro do género de cozinha mais sofisticada, duas outras boas apostas são os restaurantes Quinta da Casa Branca, no hotel de charme com o mesmo nome, e o Uva, no novíssimo Hotel The Vine.


Quinta da Casa Branca – Funchal

Na Quinta da Casa Branca temos um jovem cozinheiro, Miguel Laffan,  a fazer uma cozinha internacional de matriz francesa, quer em termos de técnica quer em termos de produtos base. No almoço que degustámos esteve quase tudo muito correcto, com produtos de boa qualidade a serem bem trabalhados. Umas vieiras no ponto, com cogumelos selvagens constituíram uma entrada muito agradável (mesmo que um brioche com salmão fumado aparecesse no prato sem grande propósito), o mesmo acontecendo com um impecável magret de pato fatiado servido com favas e uma espécie de risotto de trigo. Na sobremesa um coulant de chocolate ladeado por banana e gelado de maracujá deu um toque insular à refeição que decorreu no exterior, num pátio rodeado de um jardim luxuriante. (preço médio com vinho: 50/60€, pax)



magret de pato fatiado, favas e risotto de trigo

Uva (Hotel The Vine) - Funchal

No Hotel The Vine, State of Art em termos de design moderno, tudo parece ter sido criado para esmagar. À saída do elevador, no último andar do edifício que se situa no centro da cidade, deparamo-nos com um amplo terraço de vista assombrosa, como se estivéssemos no palco de um anfiteatro pontuado de luzes em volta. O Uva fica num dos lados. No menu a inscrição “cozinha de autor, por Antoine Westermann com interpretação de Thomas Faudry e sua equipa”, revela a ambição – A Madeira teve pela primeira vez este ano um restaurante galardoado com uma estrela Michelin, o Il Gallo D’Oro, e Antoine Westermann tem em Estrasburgo, no Buerehiesel, um três estrelas, e, em Cascais, o Fortaleza do Guincho, com uma. Por isso não é de estranhar que o menu seja o mais francês de todos. Não experimentámos a asa de raia salteada, nem a galinha de Bresse, mas alinhámos por terras gaulesas num intenso consomé de cogumelos “cepes” com torrada dos mesmos e nas noisettes de veado assadas, com um “tatin” de marmelo. Antes um óptimo lavagante azul assado com massa fresca de forte sabor cítrico - uma conjugação simples e atractiva. (preço médio com vinho: 60/70€, pax)



noisettes de veado assadas, com um “tatin” de marmelo

Santo António – Câmara de Lobos

No dia seguinte foi vez de fazer uma romaria ao restaurante Santo António, em Câmara de Lobos, conhecido por fazer uma das melhores espetadas de carne, da ilha (pára-se naquela zona da cidade como quem pára na Bairrada para comer leitão). Outrora em pau de loureiro, hoje em dia esta especialidade chega-nos à mesa num espeto de metal ficando apoiada ao alto, na mesa. Os pedaços de carne do lombo estavam suculentos, o tempero acertado e, a acompanhar, o imprescindível milho frito. (preço médio com vinho: 20/25€, pax)



espetada de carne, milho frito, bolo do caco...

 Cantinho da Serra – Santana

Do desafio para uma caminhada nas levadas de Santana chegámos ao ultimo restaurante deste grupo. Ora marcar uma actividade física para as 13h pressupõe um reforço calórico para aguentar tão árduo esforço. Cantinho da Serra é o nome deste restaurante de comida caseira. Pela mesa espalhavam-se diversas entradas: boas a bola de atum, a carne de porco em vinha d’alhos e a morcela de sangue; dispensáveis as pastas de atum e outra de um sucedâneo de ovas de salmão.  Da carta escolheu-se algo mais substancial. Nesse Sábado havia uma joelheira de porco, que juntámos ao cabrito à Senhor da Serra, ao galo do campo e a um bacalhau assado. Tudo comida de forno cozinhada por alguém que trata por “tu” os alimentos e com boa mão para o tempero. Acompanhamentos comum para as carnes: papas de milho (muito boas) e batata primor. As sobremesas foram ponto fraco desta refeição. Entre o doce da casa (aquela coisa também conhecida por “doce da avó” e que é uma adaptação, “tipo” tiramisu), o doce de natas e a mousse de maracujá, entre outras propostas colocadas na mesa, reinou a  mediania. (preço médio com vinho: 25/30€, pax) 


joelheira de porco, batata primor e batata doce


E assim se passaram cinco dias na Madeira  cujo o objectivo era o de dar tréguas ao corpo. Mente sã em corpo bem nutrido. Não é assim o provérbio?


Contactos:

Xôpana : Choupana hills Resort&Spa, Funchal. Tel: 291206020
Quinta da Casa Branca: Rua Da Casa Branca 7, Funchal. Tel: 291 700 770
Uva: Hotel The Vine, Rua dos Aranhas, No 27 – Funchal. Tel: 291 009 000
Santo António: Rua João Gonçalves Zarco - Estreito Câmara de Lobos. Tel: 291910360
Cantinho da Serra, Pico António Fernandes, Santana. Tel: 291573727

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 7 Novembro 2009

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publicado às 23:36



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    Oops, já corrigido. Agradeço o reparo.

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    Tudo bem. Vega “Cecília” é que me ultrapassa.....

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    Esta é uma boa notícia para esta altura do Natal.....

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