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Conforme o prometido nos comentários a este post, aqui fica na íntegra, com a devida vénia e a indispensável autorização do próprio, um artigo que David Lopes Ramos escreveu no Público em 1995. Morde-te de inveja, Rui Falcão!

 

"Património nacional que se bebe

 

Moscatéis de Setúbal, vinhos eternos

 

Vinte e quatro colheitas de Moscatel de Setúbal provadas ao terminar a manhã do dia 2 de Novembro de 1995. Exactamente: vinte e quatro garrafas de outros tantos anos de Moscatel de Setúbal que, com o Porto e o Madeira, constitui o trio dos grandes generosos portugueses. Excelentes vinhos de sobremesa e que acrescentam alegria e distinção aos momentos mais especiais das nossas vidas. Alguns dos vinhos — exemplifico com as colheitas de 1880, 1900, 1902, 1906, 1918, 1920 — foram provadas com a consciência de que se tratava de património nacional: as quantidades que existem são pequenas e a qualidade é, para vinhos de tanta idade, excepcional. São vinhos únicos. Tratou-se, sem sombra de presunção, de uma prova histórica.

Não há entre nós, ao contrário do que se passa em França, que pos os seus melhores vinhos e produtos gastronómicos no panteão nacional, grande consideração por estas coisas. A generalidade da "inteligência nacional" despreza-as, apesar de, uma vez por outra, as abordar em discursos retóricos. Mas, no fundo, para tão preclaras mentes comer e beber não passam de banalidades do "baixo ventre". No entanto, o vinho fundou civilizações. E foi pela canela e pela pimenta que as caravelas foram lançadas ao mar.

A prova dos 24 vinhos Moscatel de Setúbal decorreu num lugar especial. A mitologia dos rituais de iniciação está pejada de descrições de sítios assim: sombrios, frios, com teias de aranha nos cantos dos tectos altos, chão de terra que abafa o som dos passos, mas com uma grandiosidade que encanta mais do que esmaga. Uma adega pode ter muito a ver com o que fica descrito. Uma adega? Sim. Mas tem que ser uma adega de uma casa antiga. Centenária. Nas casas de vinho do Porto há algumas. Na Madeira também. E entre os produtores do Moscatel de Setúbal, haverá? Há. É mesmo das mais antigas. Fica na luminosa Vila Nogueira de Azeitão e pertence à vetusta casa José Maria da Fonseca, Succs., Vinhos, S.A..

Infelizmente para a projecção do Moscatel de Setúbal, na região só a José Maria da Fonseca tem tradição que chegue para se abalançar a um acto como o que juntou, no dia 2 de Novembro, uma manhã ensolarada, alguns apreciadores de vinho portugueses e estrangeiros numa das adegas da casa, onde repousam milhares de pipas, muitas delas cheias com o generoso.

O pretexto para a prova encontraram-no os irmãos António e Domingos Soares Franco, respectivamente administrador e enólogo da prestigiada casa de Vila Nogueira de Azeitão, no facto de, há 140 anos, na Exposição Universal de Paris de 1855, a José Maria da Fonseca ter sido distinguida com uma medalha de ouro pelo seu Moscatel de Setúbal.

Reinava então em terras de França Napoleão III ("Napoleón le Petit") que, regista a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, "tinha perícia, mas mais a do policastro do que a do verdadeiro estadista". Mas, como em determinada fase do seu reinado teve o poder absoluto, "impulsionou com grande energia as obras públicas, como fazem sempre os governos da índole do dele". Deu guita ao "desenvolvimento industrial" e aos "grandes negócios, entrando-se numa era de grande prosperidade material para a burguesia, a qual degenerou num período de especulação e de vida luxuosa, onde se notavam indícios de decadência".

Paris, Campos Elísios, local onde, entre 15 de Maio e 31 de Outubro, decorreu o certame mundial de 1855 — no qual participaram 25.600 expositores de 34 países e que recebeu a visita de 5,2 milhões de visitantes — foi transformada, sob a direcção do "maire" Haussmann, numa "nova cidade". O medalhado a ouro Moscatel de Setúbal ombreou com novidades mais prosaicas, mas igualmente notáveis: o cimento, as placas de alumínio e os impermeáveis, estes feitos por uma empresa de um tal senhor Goodyear, que, mais tarde, alcançou fama mundial como produtor de pneus.

O nosso D. Pedro V visitou a capital francesa por alturas da Exposição Universal de 1855, entre Maio e Julho. Escreve Joaquim Veríssimo Serrão, na sua "História de Portugal", Editorial Verbo, que D. Pedro V, que terá querido "governar Portugal com os olhos postos na Europa", aproveitou a viagem para se "esclarecer sobre o valor da história, não apenas como disciplina do conhecimento, mas também como mostruário da vida passada". Terá bebido do Moscatel de Setúbal premiado? Não se sabe. Mas, como homem de bom gosto e culto que era, se tivesse provado, havia de ter gostado.

Não é temerária esta conclusão. É que, embora mais novo 25 anos do que o vinho premiado em Paris em 1855, o Moscatel de 1880, apreciado no dia 2 de Novembro de 1995 em Vila Nogueira de Azeitão, encantou o painel de provadores. De cor de caramelo torrado, mas com laivos de um verde lindíssimo e faiscante à superficie — uma das características marcantes dos bons Moscatéis velhos — este vinho de 1880, muito melado, xaroposo, deixou na boca sabores de chocolate e café.

É notável a evolução dos melhores Moscatéis de Setúbal nos tonéis e pipas de madeira. Em novos, são vinhos de cor ambarina cristalina, por vezes com tons alaranjados, que cheiram e sabem muito a flor de laranjeira, limão e lúcia-lima. A aguardente — que interrompeu a fermentação do mosto impedindo a transformação de todo o açúcar das uvas em álcool— nesta fase, como é natural, faz-se notar, bem como a madeira onde, durante cinco meses, o vinho faz a maceração pelicular, mas fica na boca uma sensação de fresca doçura, provocada pela acidez equilibrada.

Embora com graus de evolução diversos na cor inicialmente ambarina, que vai escurecendo e ganha tons que lembram os da tintura de iodo até ficar cor de caramelo torrado com reflexos de esmeralda no topo, e nos sabores, que vão passando de laranja/limão, para os de compotas, designadamente de cerejas escuras e ginjas, arrobe, chocolate amargo e café, todos os Moscatéis em prova provocaram comentários favoráveis, entusiásticos por vezes, excepção feita ao de 1966, que dividiu as opiniões, tendo-lhe alguns dos provadores apontado defeito provocado pela madeira, segundo uns, ou pela aguardente, segundo outros.

Mas, no final, o que fica é uma sensação de plenitude e grande felicidade, pela elevadíssima qualidade média dos 24 vinhos provados, pela sua "finesse" e doçura, pela sinfonia de cores, aromas e sabores que o tempo — o grande arquitecto — os fez adquirir. Aparentemente é tudo muito simples: castas de uvas seleccionadas, plantadas em solos apropriados, bem expostas ao sol, vindimadas na época certa de anos favoráveis, pisadas a preceito dão vinhos excepcionais. Isto, é claro, se os homens que os fazem, além de competentes, lhes são capazes de transmitir a dose de fantasia e sonho sem a qual qualquer obra humana não ultrapassa a mediania. Os vinhos, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, têm vida. São seres fortes e fracos, moldáveis. Aos Moscatéis de Setúbal, na José Maria da Fonseca, há século e meio que os homens que os fazem lhes conseguem transmitir um sopro de genialidade. Quem disse que apenas os diamantes são eternos?

 

David Lopes Ramos

 

As colheitas provadas

 

Foram dois os tipos de vinhos generosos que foram provados na jornada "140 anos de ouro de Moscatel de Setúbal", no dia 2 de Novembro de 1995: vinte colheitas de Moscatel "normal" e quatro de "Roxo". Este último é assim chamado devido à cor das uvas de que nasce e é mais raro. Os Moscatéis de Setúbal mais velhos e os Roxo, pela sua raridade, são vinhos para ocasiões especiais, sendo também pouco conhecidos pela generalidade dos apreciadores portugueses.

Colheitas em apreciação: Moscatel de Setúbal, as de 1995, 1990, 1986, 1980, 1976, 1966, 1965, 1955, 1947, 1941, 1938, 1934, 1930, 1922, 1920, 1918, 1906, 1902, 1900 e 1880; Moscatel de Setúbal Roxo: 1995, 1985, 1961 e 1951.

Encantaram-me particularmente o de 1980, 1965, 1955 (excelente), 1947, 1941, 1938 (excepcional, com um álcool dulcíssimo, de grande elegância, complexidade aromática e sápida, muito fresco e vivo), 1918 (excelente), 1906 e 1902, estes dois últimos com aromas bons que lembram os cheiros dos armários antigos, xaroposos, concentradíssimos, com sabores de arrobe, compota de cereja preta a que se não tirou o caroço, chocolate amargo e café. Nos Moscatéis Roxo, ouro para os de 1961 e de 1951. D.L.R."

 

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publicado às 12:24


1 comentário

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De Raul de Sousa Carvalho a 08.01.2010 às 13:19

Além do tempo, que é um grande aliado para a evolução tanto de moscatéis como de vinhos do Porto, ainda existe outro grande e importantíssimo factor... O OXIGÉNIO!
O oxigénio, já dizia um grande sábio do passado, pode ajudar como prejudicar o vinho. Sim, se o vinho sofrer uma grande dose de oxigénio em pouco tempo, o vinho não sobreviverá ao tempo... Mas se o oxigénio for muito bem doseado, o que acontece nas garrafas e nas barricas, devido aos micro poros existentes, o vinho sobreviverá longos largos anos e providenciará bons momentos de prazer e luxúria como este aqui apresentado.
Todos estes aspectos (oxigénio, ácool, acidez, estrutura) são indispensáveis para uma evolução com sucesso num vinho, seja ele qual for...

Raul de Sousa Carvalho
http://winesensations.blogspot.com/

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