Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Mesa marcada no Largo

por Duarte Calvão, em 27.01.10

Fui ontem jantar ao restaurante Largo, que abriu há pouco mais de uma semana junto ao largo do Teatro de São Carlos com cozinha assinada por Miguel Castro e Silva e decoração de Miguel Câncio Martins. Apesar da fama deste último, não vou entrar em pormenores sobre a decoração do espaço, que aproveita um antigo claustro da Igreja dos Mártires, mas devo dizer que estava um pouco alarmado quando me disseram que o restaurante iria ter 120 lugares.Já imaginava um daqueles espaços enormes, que mesmo que estejam com meia sala parecem desolados, mas fiquei satisfeito em verificar que houve a inteligência de o dividir em três sectores. Logo à entrada, há um balcão e várias mesas junto às janelas, depois, um andar superior, onde se pode fumar e mais vocacionado para grupos. Finalmente, um terceiro mais ao comprido, com mesas para dois e quatro comensais, em que uma das paredes tem incrustados três grandes aquários (um estava apagado) com medusas, vulgo alforrecas, que vão mudando de cor consoante a luz que as ilumina. Foi aqui que jantei, juntamente com a minha mulher.

A lista inclui pratos a que Miguel Castro e Silva nos habituou dos tempos do Bull & Bear, com uma ou outra variação. Nas entradas, optámos pelo trio de peixes (vieiras grelhadas, atum à japonesa - tataki com vinagreta de soja e balsâmico - e o seu famoso tártaro de carapau, uma das utilizações mais nobres que já vi dar a este peixe tão desprezado) e por um risotto de morilles. Alguém poderá estranhar que o demorado risotto surja nas entradas, que se querem rápidas, mas é sabido que Castro e Silva tem um método próprio de deixar o risotto meio pronto, finalizando-o rapidamente quando é pedido na sala. Estava óptimo, como sempre. Sobre os peixes, a única observação é que eu facilmente substituiria as vieiras por outro produto do mar mais original. Mas é um conjunto absolutamente vencedor.

Nos pratos principais, um bacalhau confitado no vácuo a 80ºC com migas de poejo e hortelão da ribeira. Esplêndido, a lascar, com ponto de sal exacto, com a frescura das ervas a darem leveza ao conjunto. Já não gostei da vitela maronesa com óregãos e limão, que, além de me parecer um erro de casting devido à excessiva simplicidade, com puré de batata e bróculos, não mostrava o sabor característico nem da erva nem do citrino. A carne, em  pedaços, era boa e estava macia, mas não era suficiente para trazer o prato para o mundo dos adultos. À sobremesa, pudim de mel com requeijão e doce de abóbora, tudo muito bom.

Nas bebidas, o tinto Guarda-Rios (27,5 euros), uma das poucas opções válidas abaixo dos 30 euros. Os vinhos estão aqui demasiado caros e também não se justifica que sirvam uma cara água mineral holandesa (marca Sourcy, 4.90 euros) quando temos em Portugal tão boas opções nesse domínio. O serviço é jovem, simpático e atencioso, com uma ou outra pequena falha que não vale a pena mencionar. No total, pagámos quase 110 euros, preço que se justifica plenamente, tirando uns 10 ou 15 euros das bebidas.

A casa estava cheia a 3/4, com gente com bom aspecto, que, e isso para mim é fundamental, emitia aquele suave ruído de satisfação que se encontra nos bons restaurantes. Marquei mesa em nome falso e não pedi para ver o chefe, nem ele veio às mesas.

A julgar por esta visita, que espero seja a primeira de muitas, Lisboa ganhou um belo restaurante e Portugal tem de novo um dos seus principais chefes a poder mostrar a sua cozinha, já que no Castro Elias o conceito, ainda que muito válido, é assumidamente menos ambicioso. Para mim, é sempre uma enorme satisfação reencontrar a cozinha de Miguel Castro e Silva. Ainda por cima, agora fica perto de minha casa...

Nota: já nesta semana, o restaurante passa a estar encerrado aos domingos, funcionando para almoço e jantar nos outros dias.

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:40


13 comentários

Sem imagem de perfil

De Paulina Mata a 27.01.2010 às 15:33

Duarte

Da próxima não falhe o cachaço de porco com grão e cogumelos. Muito, muito bom!
Imagem de perfil

De Duarte Calvão a 27.01.2010 às 16:19

Esse eu já conheço de outros carnavais. É excelente.
Sem imagem de perfil

De Lopes a 28.01.2010 às 04:11

kakakaka...método próprio de deixar o rizzoto meio pronto?que génio!!! Quem não abre o rizzoto antes? Em praticamente todos os restaurantes do género se abre previamente o arroz e se arrefece rapidamente a fim de na hora do pedido apenas se junte um pouco de caldo, manteiga...parmesão e voilá!
... ainda ficava eu espantado quando o lia elogiar certos "flops".. Tá visto..

Abc
Imagem de perfil

De Duarte Calvão a 28.01.2010 às 19:55

Então e se eu lhe disser que Miguel Castro e Silva não "arrefece rapidamente" o arroz, mas sim lentamente? E que isso faz toda a diferença no ponto de cozedura do arroz, aspecto essencial neste prato? Sei até que ele aprendeu o processo com um chefe italiano que trabalha no Ritz de Hong Kong (que costuma cozinhar aquelas trufas gigantes que o Stanley Ho compra...) e que, ao contrário de muitos, não reclama nenhuma "invenção", mas sim ter aprendido com quem sabe. É a diferença entre quem faz risotto e quem faz "rizzoto"...
Sem imagem de perfil

De JPA a 29.01.2010 às 11:32

É assim mesmo!
Sem imagem de perfil

De José Serra a 31.01.2010 às 17:28

Subtil mostrar que quem escreve "rizzoto" não deve tecer comentários acerca de risotto! Mas se me permitem nada se compara a um "bel risotto" cuja cozedura não é interrompida....
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 31.01.2010 às 19:49

"Mas se me permitem nada se compara a um "bel risotto" cuja cozedura não é interrompida.... "

Nada se compara é aos grandes pratos de arroz que se cozinham do norte ao sul do nosso país. Chega a ser insultuoso ver cidadãos do país que mais come arroz na Europa e que têm, de longe, à sua disposição a maior variedade de pratos de arroz do mundo ocidental (quer na forma de confecção quer na utilização dos ingredientes), a se porem de joelhos perante um prato de arroz que, embora agradável, tem como maior trunfo ser o único prato de arroz que o europeu e o norte-americano comum comem (e gozar, por isso, de uma divulgação enorme). Agora, por melhor que seja o risotto, não atinge a excelência de dezenas de pratos de arroz nacionais. Há gente que não tem noção da sorte que tem. Francamente...
Sem imagem de perfil

De Paulina Mata a 01.02.2010 às 00:28

Eu assino por baixo!
Imagem de perfil

De Duarte Calvão a 01.02.2010 às 09:47

Embora concorde que haja um excessiva profusão de risotto por Portugal, muito devido à moda da cozinha italiana, também não acho que ninguém se "ponha de joelhos" perante ele. Pelo que sei, Miguel Castro e Silva foi dos primeiros cozinheiros em Portugal a fazer risotto e até hoje mantém uma ou duas opções numa lista onde há muitos pratos com produtos portugueses de qualidade. Quanto ao arroz nacional, o carolino, perfeitamente de acordo com a sua excelência e só tenho pena que tantos dos nossos restaurantes recorram ao agulha e às "malandrices", com a aprovação ou a indiferença dos clientes.
Sem imagem de perfil

De José Serra a 02.02.2010 às 15:23

Se eu tivesse escrito “nada se compara a um belo prato de Uncle Ben’s eu até aceitava que se considerasse insultado mas, quando o comentário era a propósito de técnicas usadas nos restaurantes na confecção de um risotto , que embora fácil de executar exige os ingredientes correctos, boa técnica e dedicação....
Tal não sendo, o seu comentário demonstra apenas desconhecimento sobre o arroz, suas variedades e modos de confecção próprios de cada variedade. Já agora o facto de Portugal ser o maior consumidor de arroz per /capita) não significa absolutamente nada em termos gastronómicos.
Imagem de perfil

De Em memoria de meu pai a 06.02.2010 às 16:34

Eu também assino por baixo. Sou de Coimbra e o arroz diz-nos muito. A essência está nas nossas raízes e não naquilo que nos dizem que é bom. Aproveitem para ver o documentário sobre a escassez de atum na sic noticias. Dá que pensar.

José Eduardo Van Zeller
http://emmemoriademeupai.blogs.sapo.pt
Imagem de perfil

De Duarte Calvão a 01.02.2010 às 09:41

Creio que tem razão, José Serra, mas normalmente nos restaurantes não há condições para isso, ainda por cima quando o risotto está inserido num menu mais extenso. Mas se ainda não provou o do Miguel Castro e Silva, aconselho-o vivamente. Depois, diga-nos como ficou na comparação.
Sem imagem de perfil

De Carlos Amaro a 29.01.2010 às 17:58

É com agrado que vejo o Miguel Castro e Silva a voltar a um estilo mais próximo do Bull & Bear, do qual tenho boas recordações.
Mas do que li do artigo, não posso deixar de fazer um reparo. É uma pena que alguns dos melhores restaurantes continuem a aposar numa política de preços elevados de vinho. Penso que não se justifica, mesmo em restaurantes deste nível ter preços 3 a 4 vezes superiores ao custo (olhando pelo menos ao exemplo dado do Guarda Rios). Penso que os restaurantes ganhariam bem mais clientes aplicando preços justos. Neste caso, ao encarecer bastante uma refeição, as pessoas não irão tão frequentemente ao restaurante.

Comentar post



PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

PUB


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Janeiro 2010

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Comentários recentes

  • João Gonçalves

    Muito interessante. Reconheço que me sinto ignoran...

  • Anónimo

    Só para esclarecer que este comentário é meu. Artu...

  • Marcus

    Esperimente passá-las em farinha de arroz. Elas fi...

  • Miguel Pires

    Pois, eu gosto de comparar e de tirar ilações, sob...

  • Miguel Pires

    Anónimo?