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Taberna Ideal

por Miguel Pires, em 04.02.10

Descontracção eficaz  

 

“Desculpem lá, a água acabou ontem. Só se for da torneira”. A justificação/solução é insólita, mas verdadeira. E o mais fantástico é que o insólito acaba por assentar bem no lugar. E não se julgue que estamos perante de um bando de irresponsáveis que resolveu abrir um restaurante só porque lhes apeteceu. É que por detrás da aparente negligência há um conceito e um “modus operandi”eficaz. Começa logo pela marcação de mesa. Telefonamos fora de horas de serviço e atende-nos uma voz simpática e despachada que nos avisa que marcações só a partir das 17h e que nos pede para não deixarmos mensagens no gravador porque não têm possibilidade de responder - alem de aproveitar para nos alertar para o facto de não terem pagamento com multibanco. Marcamos para um almoço de Domingo, às 14h. Cinco minutos antes da hora a mesma voz que ouvíramos antes no gravador pergunta-nos com a mesma simpatia se confirmamos a presença e relembra-nos novamente de que não dispõem de multibanco. Pode soar a “pressão” mas há um negócio para gerir e em Portugal usa-se e abusa-se do atraso. Está um inicio de tarde gelada e chove copiosamente. Apesar do nome da rua (Esperança), não há um lugar vago para estacionar. Sem problema: avisámos que estávamos por ali e isso foi quanto baste.

A porta de entrada dá para a sala. Há um balcão a meio revestido a mármore, como o das tabernas (se não é original, dá ares disso). Numa dos lados existe uma estante com uma dezena de livros e por cima uma ardósia enorme ocupa grande parte da parede. Mesas, cadeiras e pratos remetem para um sortido da feira da ladra e apenas o soalho em madeira nova destoa um pouco, mas não o suficiente para afectar a atmosfera descontraída que por ali se sente. Somos recebidos com uma saudação cordial e despachada, sem salamaqueques (a casa está cheia e segundo consta é fundamental marcação com antecedência, sobretudo ao jantar): “olá eu sou a Tânia, ali está a Susana e quando quiserem... estão à vontade”. Parte, pega nuns pratos, avia mais umas mesas e volta: “já cá vieram antes? Não? Então é assim. As nossas propostas estão naquela ardósia e dividem-se em tibornas, entradas e pratos. Vocês são dois e o que costumamos aconselhar é que peçam um de cada e partilhem entre ambos”. Segue-se o conselho. Olha-se para a ardósia e escolhe-se uma tiborna de queijo de cabra, mel e alecrim; uma entrada de cogumelos selvagens com castanhas e, de prato, o cachaço de porco preto com migas de batata. Mas poderia ter sido uma tiborna simples (só com alho e tomate), uma farinheira de Monchique com puré de maçã ou uma das duas saladas. Tal como nos pratos principais, uma açorda de camarão, uma costoleta de vitela com batata gratinada, um lombo de atum braseado, com cebolinho; um hamburquer com queijo ou um bife tártaro. A ordem é mais ou menos esta e a misturada entre tradicional/popular e moderno/urbano sem grandes complicações,acaba por funcionar bem: os clientes revêem-se na ementa, as doses são simpáticas, a comida é saborosa e as conjugações ajustadas (pelo menos no que escolhemos). Isto aliado à boa atmosfera que referimos acima explica, por certo, o sucesso desta taberna cool. A procura de um léxico mais popular permite certamente um posicionamento mais adequado ao conceito da casa No entanto um pouco mais de rigor não lhes ficava mal. Por exemplo: a tiborna é mais uma tartine do que uma tiborna, as migas de batata mais se assemelham a uma esmagada e parte dos cogumelos têm um ar mais 'meigo' (de cultura) do que selvagem.  

A refeição foi acompanhada por um tinto da Niepoort, o Diálogo, escolhido de uma carta (na verdade, um género de caderno) simples e manuscrita composta essencialmente por vinhos de pequenos e médios produtores, com opções de escolha a copo, o que é de sublinhar.

Por este almoço domingueiro em que aos 3 pratos e que descrevemos (mais o vinho) se acrescentaram duas aprazíveis sobremesas (tarte de requeijão e bolo de cacau), duas Águas das Pedras e dois cafés pagou-se 25€/pessoa o que não sendo propriamente um preço de taberna é um preço justo para o que se recebeu em troca.

 

Contactos: Taberna Ideal, Rua da Esperança, 112 (Santos), Lisboa. Tel:21 396 2744

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 16 Janeiro  2010. 

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publicado às 00:56


7 comentários

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De Ana Soares a 04.02.2010 às 11:28

E onde fica a Taberna Ideal? Ou a Rua da Esperança? (Perdoe-se-me a ignorância...)
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De Miguel Pires a 04.02.2010 às 14:26

Gostamos muito de leitores atentos. Agradecemos que nos tenha alertado para o lapso, Sra. Editora :). Os contactos da Taberna Ideal já constam no final do post .


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De Ana Soares a 04.02.2010 às 15:44

Obrigada, Miguel!
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De Artur Hermenegildo a 05.02.2010 às 15:17

Miguel, ainda bem que gostaste. A minha opinião é semelhante à tua.

PS - ao que vi, o Júlio Pereira já não está no Veredicto, de que te tinha falado. De facto as duas últimas refeições lá não me tinham parecido ao mesmo nível.
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De Vicente Themudo de Castro a 06.02.2010 às 20:36

Pois é Miguel eu sou da mesma opinião, desde que o conheci sensivelmente há um ano que fiquei fã deste pequeno restaurante.
Aconselho-te vivamente a experimentar mais alguns pratos, pois ficas fascinado com a quantidade de coisas boas que elas são capazes de apresentar.
1AB
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De Jorge Nunes a 09.02.2010 às 00:07

Já tive boas refeições nesta Taberna, mas infelizmente das últimas três vezes que lá tentei ir, encontrei-a sempre fechada. Uma quinta à noite, um sábado ao almoço e outro dia à noite, já não me lembro qual. Cheguei até a pensar que tinha fechado de vez. Afinal, parece que ainda vou a tempo das tibornas, dos ovos com alheira e do que aparecer pela ardósia naquele dia.
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De Isabel a 23.02.2010 às 13:13

A Taberna Ideal, é de facto um restaurante diferente!
Fazia falta em Lisboa. A comida é de uma execução fantástica, do mais puro e genuíno que há. Comida que se come em casa da mãe, quando a mãe cozinha bem. A Tânia e a Susana são uma dupla imparável e são umas anfitriãs de mão cheia. É mesmo de ir lá. Mas marquem!!!!

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