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Santos pop

por Miguel Pires, em 18.02.10

Restaurante Manifesto

 

 

 “Se gosta de comida Caseira, coma em casa!". É desta forma provocadora que Luís Baena enuncia os princípios do Manifesto, o seu novo restaurante, em Santos (Lisboa). Quem sentencia desta forma não está à espera de ser consensual e Luis Baena, pelo menos na sua fase mais “pop”, nunca o foi. Embora seja um dos Chefes portugueses mais experientes - com passagem por vários países, do Oriente ao Brasil - foi pouco mais de 5 anos, no restaurante da Quinta de Catralvos, em Azeitão, que ganhou notoriedade por cá. A prática de uma cozinha de influências diversas - representativa do seu périplo profissional - com ligação à chamada gastronomia molecular; as suas propostas arrojadas e desconcertantes mas de base sólida; e a sua erudição e sentido de humor trouxeram-lhe adeptos incondicionais. É natural, também, que quando se tem ideias disruptivas é fácil de ganhar uma mão cheia de detractores, como se viu pelas reacções de alguns clientes mais tradicionais em relação à introdução de alguns dos seus pratos na carta do Terraço do Hotel Tivoli em Lisboa (cadeia de que continua a ser Chefe Executivo). Luís Baena resolveu então abrir um novo espaço onde pudesse dar azo à sua imaginação. O Manifesto não é ainda aquele lugar de que se falou em tempos, onde iria levar o seu conceito ao extremo. A conjuntura económica e eventualmente a falta de mercado para tanto arrojo levaram-no a ser prudente. Restava saber se as características que lhe trouxeram fama se mantinham, se havia evolução ou se, por outro lado, estaria a jogar demasiado à defesa.

Tal como a sua comida o palco onde tudo se passa não causa indiferença a ninguém. O preto marca o tom e remete-nos para a noite, mas nada tem de soturno. As referências são claramente pop com declinação para a música e para o universo gráfico de um Warhol. Ou seja: um ambiente cénico em coerência com o que tem sido e continua a ser a cozinha de Baena. 

Se no almoço (2ªF a 6F) a ementa é simplificada e apropriada para quem não tem muito tempo e não quer gastar muito, é ao jantar que o dna do Chefe se revela. A carta à noite está dividida de uma forma clássica mas a nomenclatura remete para o que referimos: as entradas chamam-se ‘primeiros’; os pratos de peixe (apenas 2), ‘abaixo de água’; os de carne (6) ‘acima de água’ e as sobremesas (7), ‘cholesterol corner’. Mas este é o tipo de restaurante em que é essencial optar-se pelo menu de degustação para que experiência seja mais abrangente. Para isso há 4 menus disponíveis. O de 6 pratos custa 33€; o de 7 pratos, 44€ ; o de 11, 52€; e o 4º, com um número indeterminado de pratos, 70€. Escolhemos o de 11, mas nada de sustos porque ninguém sai empanturrado (a menos que se abuse da excelente manteiga de algas do couvert). As doses são mini e podem vir aos pares, em trio ou a solo. Dos ‘clássicos’, apenas a bola com creme (de santola) que, por já conhecermos, foi substituída por um fricassé de cogumelos que nos encheu as medidas. O mesmo não aconteceu com a sanduíche de linguado em jeito de tosta, onde o ‘entalanço’ do peixe entre as duas fatias de pão de forma aparado anula, em parte, o sabor do linguado. Já o Éclair de línguas de bacalhau é uma proposta engraçada que vai muito bem com as cebolas glaceadas que o acompanha, tal como as migas de bacalhau com os ovos moles e folha de ostra. A pizza de carabineiro com dourada e queijo de S. Jorge traz este prato popular para terras lusas dando-lhe uma outra nobreza. E as molejas, que achava não apreciar, souberam muito bem graças ao bom tratamento na chapa (presumo) e ao acompanhamento dos cogumelos caramelizados. Antes da sobremesa veio um dos 'best sellers' de Santos: o ‘Culombo’ de novilho, um mano a mano de rabo de boi e de bife do lombo. Achei a ligação desajustada, dado que o sabor do primeiro anula o segundo. N entanto a conclusão que se tira é elucidativa: o suposto parente pobre (o rabo de boi) é muito mais interessante do que o novo-rico do lombo.

De sobremesa tivemos direito a uma marquise de chocolate, talvez demasiado simples, ainda que saborosa.

A refeição foi acompanhada pelo branco Casa de Santar Reserva 08 (15€) que apresentou estofo suficiente para aguentar a profusão de ingredientes. O serviço este esteve bem mesmo com um ou outro desacerto.

Resta-nos acabar como começámos, com um dos pontos do Manifesto, precisamente o ultimo: “já não me apetece escrever mais nada e a si, muito provavelmente, ler mais nada. Como o(a) compreendo. Bom apetite”.

 

Contactos: Largo de Santos, 9C, Lisboa ; tel:213963419/911715880 ; www.restaurantemanifesto.com

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 13 Fevereiro 2010. 

(As foto do inicio  é de  Adriana Freire e foi 'emprestada' para esta versão electrónica daqui)

 

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publicado às 01:05



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Comentários recentes

  • Miguel Pires

    Oops, já corrigido. Agradeço o reparo.

  • Martinho Cruz

    Tudo bem. Vega “Cecília” é que me ultrapassa.....

  • Anónimo

    Esta é uma boa notícia para esta altura do Natal.....

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    Acho, João Faria, que coloca a questão nos termos ...

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