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Mesa marcada na Taberna 2780

por Duarte Calvão, em 23.02.10

 

Na semana passada, fui finalmente jantar à Taberna 2780, em Oeiras, da qual já tinha recebido boas indicações, mas que igualmente já me tinha provocado irritações-divertimentos, com artigos a afirmar que era o "El Bulli português", só porque apresentava também um único menu, ainda por cima "criativo"...Enfim, creio que os "taberneiros", que me parecem pessoas bem informadas, não serão os responsáveis por estes disparates. Seja como for, tentei manter neutras as minhas expectativas, mas admito que me preparava vagamente para constatar uma fraude, mais uma, com roupagens modernas.

Nada disso. Gostei imenso. Muito boa onda e bom gosto na pequena sala, coerente com o ambiente descontraído da casa, com a lista, incluindo de vinhos, em grandes ardósias na parede, mobiliário em madeira. Serviço atento e simpático, pratos a chegarem à mesa a bom ritmo. Bons preços também, com o menu a 24,5 euros. Nessa noite, com bom pão e (razoável) focaccia caseira na mesa, uma saborosa salada de ovas desfeitas e uma não menos saborosa manteiga de chouriço, o menu começou com um delicioso caldo de cogumelos com avelã, com uma espuma a saber de facto a avelã, que também vinha em  mínimos pedaços, a tornar interessante a textura, e nele imerso um pequeno pastel frito e recheado de cogumelos, num conjunto absolutamente vencedor . Não gostei especialmente do uso de bolo lêvedo no prato seguinte em que ele vinha encimado por uma mousse de queijo de cabra, com cebola em vinho do Porto, o menos interessante da noite  Depois, uma enganadora salada niçoise de atum. Perdoa-se a referência ao clássico, apesar da ausência de ingredientes como anchovas, já que vinha em jeito de desconstrução, com o atum em fatia tipo tataki, azeitona esferificada, ovo muito bem cozido e levemente panado, tomate-cereja confitado, rúcula bem temperada...No entanto, se cada um dos elementos funcionava bem isoladamente (a esferificação obrigatoriamente só), em conjunto, ou seja, em "salada", perdiam o interesse. De qualquer maneira, um prato muito positivo e a mostrar boa técnica. Só é pena o nome.

Nas carnes, sendo um prato de "conforto" e sem grande história, a língua e bochechas de vitela com polenta, soube-me bem, ainda que não seja grande apreciador da última, algo "elástica" de mais. No fim, pancinha de porco com favas. Óptima carne, num ponto de cozedura magnífica, óptimas favas  (embora ainda não seja época) e também algumas ervilhas, bem temperadas, mas depois um desconcertante puré de maçã e umas batatas assadas com casca. Mais uma vez, cada um dos elementos estava bem, mas a maçã e as batatas não jogavam com o resto.

Lembro-me pior da sobremesa, que tinha banana, de que só gosto crua, um defeito que eu tenho, com um bom gelado de coco e algo de chocolate. Bebendo dois copos de branco de Filipa Pato (8 euros) e uma garrafa do tinto Quinta do Valdoeiro Reserva (15 euros), a conta para duas pessoas cifrou-se em 76 euros, preço muito vantajoso para quem frequenta esta taberna. Como já disse, gostei muito de lá ir e de sentir um certo entusiasmo e gosto pelo risco por parte de quem cozinha, Fiquei com vontade de  voltar, tanto mais que eles mudam de menu a cada quinze dias, e saí de lá muito bem disposto. Tel. 21 0998700. Cuidado que é difícil dar com o local.

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publicado às 10:56


5 comentários

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De nataliacarvalho a 24.02.2010 às 00:30

A Taberna assume-se como experimental. Já lá fui e achei o mesmo...menu desequilibrado. Os pratos, isoladamente, até podem ter o seu mérito, em conjunto, não passam no exame... nem no meu, nem do nutricionista. Não percebo porquê tanta publicidade!!!
Ao mesmo preço, numa cozinha com menos meios mas mais profissional, um menu de cinco pratos a 25 euros que muda todas as semanas (!!), recomendo o GSpot, em Sintra. Boa cozinha e bons vinhos. Vale a pena seguir as sugestões do Manuel Moreira. Só ouvir a descrição de cada um dos vinhos que escolhe para harmonizar com cada um dos pratos...é uma mais valia. Um restaurante que já está em tempo de merecer a atenção dos críticos gastronómicos.
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De Mário Negreiros a 24.02.2010 às 09:13

Cara Natália: não percebi o salto de "assume-se esperimental" para "menu desiquilibrado". O experimentalismo é muitas vezes disfarce de incompetência e de desinspiração mas o facto de experimentar, e de assumir o experimentalismo, não conduz necessariamente ao desiquilíbrio (nem à arrogância - e nisso, ressalte-se a "boa onda" bem notada pelo Duarte Galvão no Taberna). E, do que o Duarte Galvão escreveu, não se conclui que o menu do Taberna seja desiquilibrado. Acaba o texto dizendo ter ficado com vontade de voltar, embora, como crítico competente, não tenha deixado de apontar o que julgou menos bom (a maior parte, aliás, por assumido gosto pessoal).
Declaração de interesses: o Taberna compra o meu vinho - o Negreiros. Escrevo esta defesa apesar, e não por serem eles meus clientes.
Saúde!
Mário Negreiros
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De Natália Carvalho a 25.02.2010 às 23:23

Meu caro Mário: Não tenho nada contra a cozinha experimental. Tenho tudo contra o desequilibrio. Vexa não contesta a minha crítica ( e garanto que é construtiva). Cada um dos pratos apresentados na Taberna até pode ser mais ou menos conseguido, o menu, no seu, todo, é, de uma forma geral, desequilibrado. Lembro-me que uma vez que lá fui..todos os pratos...tinham enchidos (!!!). E isso transparece bem na crítica do Duarte Galvão. Quando chega a hora de reservar uma mesa para jantar, só me lembro disso!!! Sem declaração de interesses (não tenho quota, nem descontos, muito menos borlas) apresentei uma outra alternativa com os mesmo nível de preços, com menos publicidades, mas, na minha fraca e modesta opinião, numa cozinha mais profissional, mais equilibrada, que me surpreende semana após semana e bem casada com o deus Baco!..É apenas uma alternativa...que, nestes confrontos, só ganhamos nós, os clientes.
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De Artur Hermenegildo a 24.02.2010 às 15:02

Gosto muito deste restaurante, que aliás coloquei na minha lista de "10+"
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De Conventodaalma a 10.03.2010 às 10:40

Devo dizer que gosto muito da Taberna, e se calhar porque não me fica assim tão longe... Já lá fui várias vezes e qual delas a mais surpreendente...
Não vejo a necessidade de tanta mordacidade; até com um mero substantivo comum (nome de prato)! Há que chamar as coisas pelas nomes, sim, mas estando perante alguém entendido... Migas não é o mesmo por Portugal inteiro, pois não?
A Taberna até é muito fácil de encontrar, frente aos Correios de Oeiras, não tem o que enganar, até porque, defeito humano, temos tendência a olhar para os lados!
Acho o conceito muito bem conseguido, os menus podem ser consultados no site e no blog (basta pesquisar google pot Taberna 2780), e escolher os que mais agradam aos paladares de cada um de nós.
A comida é muito boa mesmo... Resultam excelentes combinações...
Que foi feito do espírito aberto desta malta que escreve críticas?
E que tal fornecerem-nos, para variar... UMA PERSPECTIVA! Isso sim, é que era... Os degustados servem a comida, os degustadores, a perspectiva...
Como dá para constatar, os taberneiros contam com acérrimos defensores que não sendo mais que clientes, acham que este local acolhedor e francamente descontraído q.b. merece um aplauso. É um projecto a continuar ;) Digo mais... Os taberneiros que convidem o Ferran a passar pela Taberna, agora que está de "sabática"... Ele iria adorar!

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