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Passa por mim atrás do Rossio

por Miguel Pires, em 03.03.10

 No Martim Moniz, em Lisboa, existe um restaurante goês cujo anfitrião gosta que os amigos passem a palavra a outros mas não gosta de aparecer em guias (“é uma chatice, depois é só para aqui estrangeiros e fico sem lugar para os clientes habituais”). Existe também uma marisqueira chinesa no 5º andar de um sui generis centro comercial a que só se chega sabendo-se ao que se vai - uma vez que não existe qualquer referência sobre a sua existência.

 

bojés de grão (uma das pouca fotos decentes do jantar no Tentações de Goa)

 

Estamos no bairro mais multicultural de Lisboa, uma espécie de ‘Chinatown meets Little Índia & África lusófona’. Habituado a passar-lhe ao largo vindo das delícias do mar (e do prego) da cervejaria Ramiro, até há pouco tempo, as minhas incursões resumiam-se a frequentar esporadicamente alguns dos supermercados étnicos da zona. Mas desta vez havia um isco que há muito queria morder, o Tentações de Goa, o tal cujo anfitrião, Jesus Lee, não gosta de muita publicidade. E percebe-se porquê. A sala é pequena e a família por afinidade não cabe toda no local. Portanto os presentes – excepto um ou outro pára-quedista, como nós - são clientes assíduos que há muito foram passando a palavra trazendo outros para o clube. No entanto fazendo algum ‘googling’ percebe-se que há clientes habituais que possuem um estatuto que lhes permite, por encomenda e/ou em datas específicas, o acesso a determinadas iguarias mais difíceis de apanhar (como o caril de cabeça de peixe). No entanto, no menu, existem argumentos que bastem para voltar várias vezes sem ter que invejar os ‘mimo’ exclusivos. Se não vejamos: as chamuças - tanto as de carne como as de camarão – são de comer e chorar por mais (picantes na proporção certa). Os bojés de grão, de boa fritura (tal como as chamuças), vêm acompanhados de ‘chetni’, um refrescante molho de iogurte batido com malagueta e folhas de coentros e de menta. Nesta altura é bom que já se tenha escolhido o que se vai beber. A cerveja acompanha bem, mas o vinho branco, como o Alvarinho que escolhemos (Roland, 12.50€) torna a refeição mais leve. Nos pratos principais seguiu-se a sugestão e começámos por um caril de caranguejo que era de facto muito bom, mas em que o sabor do bicho não era tão evidente quanto esperava. Equilibrado e apaladado, o xacuti de cabrito, especialidade goesa onde entra coco e uma miríade de especiarias (açafrão, cominhos, cravinho…). Depois, as sobremesas, foram do melhor que alguma vez comi desta proveniência. A bebinca, ‘pudim’ de finas camadas (cozidas uma a uma), apresentou-se mais escura do que o habitual a evidenciar um torrado que lhe conferia um sabor próprio sem que se sobrepusesse ao característico travo a cardamomo. Igualmente equilibrados e deliciosos, os pequenos losangos de doce de grão de consistência enqueijada, que segundo consta derivam das azevias alentejanas.
O serviço é Jesus Lee e este é a alma da sala que, com Maria dos Anjos, na cozinha, forma a dupla de sucesso desta ‘casa de família’ (nota: a marcação é fundamental, nomeadamente às 6F e Sábados onde, ao jantar, só aceitam marcações para as 20h ou para as 22h).

dim sum

 

sapateira  com  cebolinha e gengibre

 

pato lacado

 

No dia seguinte foi a vez de seguir uma pista encontrada no fórum online, NovaCritica. O título (“há por aí corajosos?”) deixara-me intrigado e as fotos de iguarias, curioso: burriés salteados, ovos de mil anos, línguas de pato, pernas de rã com sabor exótico, ou alforrecas. Nesse post fazia-se referência ao 5º andar do Centro Comercial do Martim Moniz. Acontece que chegando a esse piso mais parecia que estávamos uma zona residencial. De repente alguém com ar de cozinheiro surgiu à frente mas viria a responder negativamente quando lhe perguntámos da existência de um restaurante. Não desistimos e resolvemos investigar. Quando pensávamos que iríamos encontrar um espaço clandestino refundido eis que se nos afigurou um típico e bem iluminado restaurante chinês. Cadeiras e mesas iguais à de todos os outros, colunas de som enormes para sessões de karaoke e empregados sorridentes. A marcar a diferença um aquário repleto de crustáceos. Da carta do Hua Ta Li (assim se chama restaurante) não fomos para o seu lado mais exótico, mas queríamos algo que fugisse ao habitual. Mas também algo de reconfortante (uma espécie de plano B, não fosse a experiencia correr mal). E assim começámos por escolher uma sapateira que veio em pedaços, frita e servida com um molho de cebolinha e gengibre. Apesar da consistência do recheio da carapaça (cozinhado) não ser fantástica, a mistura com o referido molho tornou o conjunto muito saboroso. Antes disso tínhamos recebido um prato de dim sum, que eram para a mesa do lado. Tinham tão bom aspecto que nos atirámos a eles. O sabor condizia com o aspecto. Bom recheio (carne de porco e cebolinho) e cozedura correcta. O plano B foi um pato lacado de que também agradou: carne firme, tenra e de pele estaladiça qb. Acompanhámos com Tsing Tao, cerveja chinesa e dispensámos a sobremesa (quase todas à base de fritos).
Quanto ao serviço foi assim para o desastrado mas sempre de sorriso na cara: houve um pedido trocado; uns talheres que voaram e caíram à nossa frente enquanto nos mudavam os pratos e um interesse maior no talk show chinês televisivo do que em nós. Mas nada que não nos faça querer voltar e recomendar. Este Hua Ta Li, o Tentações de Goa, as mercearias e pequenas lojas de especiarias e outros locais que desconhecemos mas que nos estimulam os sentidos (nomeadamente o palato). É também na sua vertente multicultural que uma cidade cosmopolita se define. E este mundo fica mesmo aqui, em pleno centro de Lisboa.


Tentações de Goa
Rua S. Pedro Mártir, 23 r/c – Lisboa; Tel: 21 8875824 (preço da refeição c/ vinho: 44€, 2 pax)


Hua Ta Li
Largo Martim Moniz, C.C. Martim Moniz, 5º andar, Lisboa Tel:218869293 (preço da refeição c/ cerveja: 35€, 2 pax)
 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 27 Fevereiro 2010.

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publicado às 01:03


11 comentários

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De Anónimo a 03.03.2010 às 21:27

Esse pato lacado parece vindo da Mealhada... Será bom em sandocha?
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De Miguel Pires a 03.03.2010 às 23:41

quem sabe... ainda vamos ter um dia ao lado do Pedro, o Hua Ta dos Leitões.
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De Tia Maria a 04.03.2010 às 11:39

Quanto aos supermercados étnicos, desde que vim para a Holanda mais o meu marido que somos clientes habituais.

Como não temos acesso ás nossas portuguesices ", começamos a experimentar outras latitudes.

Agora, comer um chamuça com molho extra picante ou por uma colher sobremesa cheia de pimenta cayenne em qualquer prato, tornou-se normal.

Até é engraçado quando os holandeses me dizem que isto ou aquilo é muito picante e eu acho que está muito suave.

Cumprimentos da terra das tulipas.
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De Paulina Mata a 05.03.2010 às 00:04

Miguel

Também gosto do Tentações de Goa. Quanto ao Dim Sum, já experimentou o Grande Palácio ao pé da Portugália? Não é o melhor que comi, mas é do melhor que comi cá (a seguir ao Casino do Estoril). O problema é ter muita gente. Experimente as vierias, as patas de galinha, o arroz embrulhado em folha de lotus, ... a variedade é muita. Nos pratos também tem coisas fora do habitual.
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De Miguel Pires a 07.03.2010 às 23:33

Paulina,

é a segunda pessoa que me fala esta semana do Grande Palácio. Tenho ideia de lá ter ido mas há muito tempo. Lá irei em breve. Agora que o fenómeno dos restaurantes japoneses se assemelha ao dos chineses dos ano 80, apetece voltar aos que ficaram e que são acima da média.
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De Nuno Oliveira Garcia a 08.03.2010 às 17:48

Paulina,

Tudo isso e não esquecer as lulas picantes... maravilha!

«O problema é ter muita gente.» (cit.) - é verdade, e são sobretudo chineses, o que é bom sinal.
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Paulina, <BR><BR>Tudo isso e não esquecer as lulas picantes... maravilha! <BR><BR>«O problema é ter muita gente.» (cit.) - é verdade, e são sobretudo chineses, o que é bom sinal. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>NOG</A>
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De Joao Pedro a 12.03.2010 às 09:39

Eu também recomendo o Grande Palácio, que embora tenha um serviço desatento e pouco simpático, tem comida óptima.
Infelizmente aí não tenho tratamento especial como no Tentações
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De Joao Pedro a 12.03.2010 às 11:03

só mais uma coisa sobre o "Grande Palácio". Está em obras até ao fim do mês, e por isso as visitas batem com o nariz na porta como me sucedeu na terça-feira
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De Miguel Pires a 13.03.2010 às 09:43

Espero que não sejam obras de reconversão em japonês...
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De Artur Hermenegildo a 16.03.2010 às 17:03

O Grande Palácio é um "must", pelo dim sum e não só. Vou lá com frequência. Já agora, obrigado João Pedro pelo aviso.

Miguel, o teu receio é fundado, mas aqui não me parece. A clientela é quse exclusivamente de chineses, ao entrar sinto sempre que entrei num filme do John Woo ou do Johnie To.

Há dias, a conselho de um amigo cuja mulher é chinesa de Goa, descobri o "Asian Food Fuji", na Av. Berlim, junto à Expo. Não é tão bom como o Grande Palácio, mas tem algumas coisas diferentes, até porque também tem pratos tailandeses, nomeadamente algumas excelentes sopas (também tem japoneses, mas aí não arrisquei). Merece as visita, além do mais é barato.
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De Artur Hermenegildo a 16.03.2010 às 17:06

COORECÇÃO: no meu comentário, obviamente a mulher do meu amigo é chinesa de Macau, e não de Goa, como é natural.

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