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Na Loja do Mestre André

por Miguel Pires, em 31.03.10

Na loja deste mestre André não há campainhas, nem pifaritos, nem um rabecão, como na lengalenga infantil. Na verdade não existe sequer uma loja. Mas há em André Magalhães um homem dos sete instrumentos. Uma dúvida sobre ovas de ouriço do mar? O André tira. Uma dica de como fazer confit de pato? O André tem. Qual é a época da batata doce de Aljezur? O André sabe. Quem é o autor da actual lista telefónica da Nova Zelândia? Bom, aqui, o André não deve saber e é provável que também não lhe interesse. É que por estes dias as suas mãos são curtas para tocar todos os instrumentos do universo em que se move. Entre a gestão e a cozinha do seu restaurante do Clube de Jornalistas, em Lisboa, e as actividades que aí desenvolve; a pós-graduação em Ciências Gastronómicas; o apuro das cervejas artesanais que fez com a Unicer; artigos para publicações; a divulgação das acções do Convivium Lisboa-Tejo (associação ligada ao movimento slow food), resta-lhe pouco tempo nas curtas 24 horas que o dia lhe concede. Mas esta polivalência não será estranha se atestarmos o seu percurso nómada. Estudou Produção Audiovisual, Guionismo e Escrita Criativa em Paris e passou pela Universidade de Lund, na Suécia até se fartar do país. Foi guia turístico nas Caraíbas, padeiro numa padaria Israelita e fixou-se em França onde trabalhou em cinema.

Com a falência da sua produtora regressou a Portugal onde passou a escrever sobre viagens, gastronomia e vinhos, actividade que ainda mantém.

A cozinha sempre foi a sua paixão. Mesmo quando trabalhava noutras áreas, cozinhava quase todos os dias e sentia nisso um acto libertador. Os seus amigos sabiam que podiam passar ao jantar porque o fogão estava sempre a fumegar. Quando a produtora fechou tirou um ano sabático e pôde voltar a viajar com mais tempo e pensar no que ia fazer a seguir. Os amigos encorajavam-no para que abrisse um restaurante. Um dia, ao regressar de uma viajem, deparou-se com várias mensagens em lhe diziam que tinha aberto um concurso para a concessão do restaurante do Clube dos Jornalistas. Aquilo era “a sua cara”, diziam os amigos. E André concordou. Em pouco tempo estava a explorar e a promover actividades neste espaço da Rua das Trinas à Lapa. Desde que abriram em 2005 já fizeram mais de cinquenta jantares vínicos, o que representa mais de setenta produtores e quase trezentos vinhos. A criação de pratos específicos para harmonizar com a maioria desses vinhos daria para publicar dois ou três livros de receitas, o que não nos admirava nada que venha a acontecer.

É natural que nestes cinco anos tenha havido altos e baixos, uma inconstância infelizmente comum a muitos restaurantes. No entanto, nos últimos tempos, André Magalhães resolveu meter as mãos (ainda) mais na massa de forma a elevar os padrões de qualidade do restaurante e dinamiza-lo de forma mais  afirmativa. Neste momento tem marcha um programa interessante que passa por ter um convidado por mês que pode ser português ou estrangeiro, cozinheiro profissional ou apenas aficionado. Este convidado vai fazer uma residência no restaurante partilhando as suas criações culinárias com o público. É neste âmbito que nos próximos dias irá estar por lá José Vila, pintor, petisqueiro, cozinheiro e proprietário do VilaLisa, no Algarve. Em consonância com estas actividades existe um outro projecto, o Convivium Lisboa-Tejo, que se reúne neste mesmo local e que serve precisamente para promover uma série de produtos e de práticas que ocorrem o risco de desaparecer: "não nos reunimos para as petiscadas, mas para dar vida a um conjunto de hábitos e produtos que temos medo que morram", referiu em tempos ao DN. Por exemplo vão participar no “Peixe em Lisboa” (que decorre em Abril, no Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações) numa actividade relacionada com a promoção e preservação de ofícios e produtos únicos da região, como a faina dos pescadores de Cascais ou o vinho de Carcavelos.

Ao contrario do que possa parecer e apesar de haja que lhe chame o “Larrouse Gastronomique” à distancia de um telefonema, o André não acha que sabe tudo, antes pelo contrario. Para poder progredir na cozinha com mais e melhores bases cientificas frequenta neste momento a primeira pós graduação em Ciências Gastronómicas em Portugal, que decorre de uma parceria entre a Universidade Nova e o ISA.

É claro que existe sempre um risco quando se transmite conhecimento a uma mente inquieta como esta. É que de uma cadeira do curso sobre alimentos fermentados podem surgir 3 cervejas de autor com perfil mais gastronómico que as “lager” nacionais que toda a gente bebe, como as que desenvolveu em parceria com a Unicer e com o mestre cervejeiro António Augusto Ferreira.

Com todas estas actividades percebe-se que esta espécie de homem do Renascimento da era moderna não precise de um pifarito, de uma campainha ou de um rabecão para se entreter. Até porque no Clube de Jornalistas existe um piano.

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) de 27 Março 2010

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publicado às 09:34


1 comentário

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De Paulina Mata a 31.03.2010 às 16:28

Gostei muito do artigo Miguel. Parabéns!

É verdade, o André tem uma enorme cultura gastronómica. Como ninguém... Felizmente nos últimos meses tenho-o descoberto e aprendido muito com ele.

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