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Em Sagres, com 'um toque'

por Miguel Pires, em 12.05.10

Restaurante Terraço (Hotel Martinhal)

 

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É sabido que os principais restaurantes de ‘fine dining’ do Algarve se encontram no eixo Almancil/Vale de Lobo/Vilamoura e entre eles os que possuem as cobiçadas estrelas Michelin (com excepção para o Vila Joya, na Galé e para o The Ocean, do Vila Vita Parc, em Porches). No entanto nesta zona, ou noutras do ‘centrão’ algarvio, não abundam os exemplos onde se possa desfrutar de uma refeição simples, com bons produtos e a preços mais acessíveis. Na verdade, com uma ou outra excepção temos que ir para os extremos, mais para barlavento do que para sotavento, para que o caso mude de figura. Só que aqui passa-se o oposto. São várias as casas de comida simples que oferecem o que (de bom) o mar nos dá. Mas se o apreciador comum agradece por ter aqui o que não se encontra no Algarve central, é para lá que tinha de se deslocar quem queria um restaurante gastronómico mais requintado. E é esta lacuna que os dois restaurantes do Hotel Martinhal vêm agora preencher. No Dunas, mais próximo da praia privilegia-se uma cozinha mais directa e próxima do que se espera encontrar num restaurante de praia, mas com um toque cosmopolita. Já o Terraço, onde por ora nos iremos focar, pretende ser um restaurante gastronómico de cozinha de autor, com uma certa sofisticação. Sendo o Chefe estrangeiro – tal como os proprietários - poderia esperar-se que à imagem de outros restaurantes conceituados do Algarve se privilegiasse uma cozinha internacional com boa matéria prima local, essencialmente do mar. Acontece que Emmanuel Soares, o Chefe que comanda as tropas, é de descendência alentejana e apesar de ter feito grande parte da carreira na sua França natal - onde trabalhou, entre outros, com Alain Ducasse ou os irmãos Pourcel – trouxe para cá apenas o que considera essencial: a técnica, o rigor e uma ou outra influência. Isto porque, em consonância com o conceito do hotel, Emmanuel pretende que a sua cozinha neste espaço seja depurada, rigorosa, criativa qb e de apresentação cuidada. Neste momento a carta é reduzida, o que é sensato num restaurante ainda em rodagem (abriu há menos de 2 meses). No entanto há opções mais do que suficientes e quase tudo o que provámos nas 3 refeições que fizemos (a convite) esteve a muito bom nível e confirma os objectivos propostos. A entrada de ovas de ouriço do mar com ovos mexidos - uma influência dos Pourcel - é um dos pratos mais solicitados  e afigura-se já como um futuro clássico. Nos raviolis de camarão tigre em caldo de tomate não há supérfluos: os pedaços de camarão vêm embrulhados na massa fina, sem qualquer outro recheio, e o caldo com um toque de gengibre e coentros liga muito bem o conjunto. Ainda nas entradas destaca-se o creme de batata doce (de Aljezur, as melhores do país) com pastel de bacalhau e também a canja de conquilhas, um prato da região. Dos principais salienta-se o robalo cozido a vapor com arroz (em risoto), algas e espuma de gengibre (sabem quando o mar se sente no olfacto e não o ‘cheiro a peixe’?). O salmonete (mesmo sem pele, um pecado!) com favas já da época e espuma de alho é mais um prato bem conseguido onde Emmanuel Soares mostra novamente mestria na conjugação de apenas 3 ou 4 elementos. O prato de carne foi o único dos principais que desiludiu: o generoso lombo de vaca apontava para um ponto de cocção correcto mas a textura, ao mastigar, revelou uma qualidade que não me pareceu a melhor (do mesmo modo que os cubos de batata fritas, algo crus, precisam também de maior atenção). Nas sobremesas nota-se a falta de um Chefe Pasteleiro (que entrará em breve, segundo me referiram depois). O creme brulée apesar de bem feito é demasiado trivial para o tipo de restaurante; e a mousse de chocolate branco e de leite é banal na apresentação, e desequilibrada - de tanta doçura - no sabor (seria preferível que adoptassem a trilogia de arroz doce do restaurante da praia). O serviço foi atencioso e correcto e no que diz respeito aos vinhos nota-se o esforço na construção de uma carta com boas referências e a bons preços, bem como um cuidado nas temperaturas de serviço dos vinhos (só pena que os copos Schott Zwiesel não sejam os mais adequados, nomeadamente os de vinho branco). O tempo e a persistência ajudarão certamente a afinar este Terraço de forma a torna-lo numa boa referencia de ‘fine dining’, neste belo pedaço algarvio. A vontade, o talento e o investimento em fazer bem existe. Haja paciência para esperar pelos resultados.

 

'ovas de ouriço do mar com ovos mexidos e pão de Vila do Bispo tostado'

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'raviolis de camarão tigre em caldo de tomate e coentros frescos'

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'creme de batata doce vermelha com pastel de bacalhau'
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'canja de conquilhas com azeite, cebola, arroz e coentros'

'robalo pescado à linha cozido a vapor, com arroz, algas e espuma de gengibre'


'filete de salmonete salteado em manteiga salgada durante dois segundos, favas e espuma de alho'

 

'lombo salteado em tomilho, cubos de batata frita com pátalas de tomate confitado e molho de rabo de boi'

 

'mousse de chocolate branco e leite de São Tomé'

 

'creme com muitos ovos com pimenta 'Waynard' ligeiramente queimada'

 

 

Preço médio para uma refeição completa (entrada, prato e sobremesa): 55€ pax/com vinhos;  Menu de degustação de 4/5 pratos: 49€, sem vinho.

 

Contactos: Hotel Martinhal, Sagres ; Tel:282 620 026 ; www.martinhal.com

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 8 Maio 2010

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publicado às 10:33



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    Oops, já corrigido. Agradeço o reparo.

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    Tudo bem. Vega “Cecília” é que me ultrapassa.....

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