Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Reviver o passado em Lisboa

por Rui Falcão, em 03.06.10

 

Poderão os vinhos velhos portugueses envelhecer com distinção, certificando a nobreza de um país, de um estilo, de uma região? A resposta, no prolongamento de uma prova patrocinada pelo IVV, é um entusiástico e enfático, sim, confirmando, e também baralhando, algumas das muitas ideias feitas.

 

Se completássemos um inquérito de opinião realmente alargado, enfrentando um painel dilatado e convenientemente representativo do universo de consumidores, agregando no estudo os distintos graus de interesse sobre o vinho, desde os consumidores ocasionais até aos os enófilos aprendizes, desde os consumidores frequentes mas pouco atentos até aos enófilos mais habilitados, obteríamos, muito provavelmente,

um conjunto de certezas e convicções quase universais... que pouco ou nada se acomodam à realidade. Presumivelmente, a larga maioria dos inquiridos afirmaria que os vinhos alentejanos não sabem, nem conseguem, envelhecer, que os vinhos do Douro possuem um largo historial documentado e que nenhum vinho branco, nacional ou estrangeiro, poderia sobreviver durante mais de dez anos de cativeiro na garrafa. Se o universo fosse cerceado ao núcleo mais restrito dos grandes aficionados do vinho, provavelmente, para além de defender que não existem vinhos estremes de Touriga Nacional dos anos sessenta, a maioria continuaria a afiançar que os vinhos do Alentejo não conseguem envelhecer... e que nenhum vinho branco nacional poderia sobreviver em garrafa durante mais de quarenta anos!

Foi precisamente para combater estes e outros dogmas que enxameiam e prejudicam a imagem do vinho nacional que o IVV (Instituto do Vinho e da Vinha) organizou, ainda recentemente, uma extraordinária prova de vinhos portugueses clássicos, dando oportunidade e ferramentas aos jornalistas nacionais e internacionais presentes para refutar estas alegações teóricas tão arreigadas no senso comum. Porque os 45 vinhos que se apresentaram à prova, incluindo um grupo invulgar de vinhos brancos, tintos, Porto, Moscatel e Madeira, oferecendo colheitas que variaram entre 1890 e 1990, ajudaram a construir um mapa mental da verdadeira realidade do vinho lusitano, tão distante dos preconceitos que o tempo foi moldando em redor das diversas regiões nacionais.

Muito mais que discutir os vinhos individualmente, embora muitos mereçam nota de prova detalhada, exaustiva e entusiástica, interessa-me sobretudo discutir algumas das principais evidências que pude constatar ao longo da prova. Divididos em séries de seis vinhos, os 45 vinhos presentes foram sendo apresentados por ordem cronológica, do mais velho para o mais jovem. Em jeito quase telegráfico, os vinhos presentes em prova foram, na primeira série de brancos, o CEN (Centro de Estudos de Nelas) 1964, CEN 1971, CEN 1980, Cartuxa branco 1987 (fermentado em barrica), Quinta das Bágeiras 1989 e CEN 1992. A segunda série, já só de tintos, incluiu os Tinto Velho José Rosado Fernandes de 1945 (Alentejo), Quinta da Falorca 1963 (Dão), CEN 1963 (Dão), CEN Touriga Nacional1963 (Dão), Frei João 1966 (Bairrada) e CEN 1970 (Dão). A terceira série abraçou o CEN 1971 (Dão), Adega Cooperativa de Borba Reserva Rótulo de Cortiça 1971 (Alentejo), Mouchão 1974 (Alentejo), Dão Pipas 1975 (Dão), Frei João 1980 (Bairrada) e Adega Cooperativa de Borba Reserva Rótulo de Cortiça 1982. A quarta série compreendeu o Quinta do Côtto Grande Escolha 1982 (Douro), Mouchão 1984 (Alentejo), Tinto da Ânfora 1985 (Alentejo), Quinta do Côtto Grande Escolha 1985 (Douro), Ferreirinha Reserva Especial 1986 (Douro) e Quinta das Bágeiras 1987 (Bairrada). A quinta e última série de vinhos tintos, acumulou somente dois vinhos, o Quinta do Carmo 1988 (Alentejo) e o Niepoort Robustus de 1990 (Douro). Seguiram-se os Portos, com uma primeira série de Porto Vintage que justapôs os Taylor's 1970, Niepoort 1970, Ferreira 1978, Ramos Pinto 1983 e o Fonseca 1985, logo seguida por uma nova série dominada pelos Porto Colheita Barros 1941, Niepoort 1957, Wiese & Krohn 1968, Poças 1976 e Dalva 1985. Seguiu-se de imediato uma série de vinhos Moscatel composta pelos Alambre 20 Anos, HMS Moscatel de Setúbal Superior 1993 e Tiago's Moscatel de Setúbal Superior 1993. Por último, compareceram em grande forma os Madeira, instituídos pelos d'Oliveiras Verdelho 1890, Blandy's Bual 1920, Justino's Verdelho 1954, Henriques & Henriques Terrantez 1976 e Borges Boal 1977. Finalmente, e para terminar em apoteose, compareceu o Real Companhia Velha Grandjó 1925, um vinho branco doce de tremenda e infinita complexidade.

Curiosamente, como se pode facilmente comprovar pelas duas primeiras séries de vinhos tintos, não esteve presente qualquer vinho do Douro... por na época a região estar exclusivamente vocacionada para o Vinho do Porto, apartada da realidade dos vinhos de mesa. Pelo contrário, o Alentejo esteve presente em força, incluindo no rol o vinho mais velho em prova, de 1945, fermentado em talhas de barro, revelando uma vitalidade e energia invejáveis sob qualquer prisma. Afinal, são 65 anos de vida que passaram ao lado deste grandioso vinho! Até mesmo os dois improváveis Borba, das décadas de setenta e oitenta, da adega cooperativa local, com quase 40 anos de vida em garrafa, portaram-se de forma soberba, proclamando que o Alentejo tem muito mais para oferecer ao mundo para além de fruta e taninos macios. O segundo testemunho relevante proveio do CEN Touriga Nacional 1963, facilmente comparável com o CEN de lote do mesmo ano... e muitíssimo mais tenso e interessante, comprovando que a Touriga Nacional é capaz de envelhecer com garbo, afirmando-se, definitivamente, como a casta tinta de excelência em Portugal.

Terceiro episódio merecedor de reflexão, a magnificência do Grandjó 1925, um "simples" vinho branco doce, aquilo a que apelidaríamos hoje como um colheita tardia, um vinho branco não fortificado que, ao fim de 85 anos de vida em garrafa, ainda se apresenta leve, etéreo, complexo, límpido, com um equilíbrio notável entre acidez e doçura. Um branco assombroso em qualquer parte do mundo, de êxtase pura, que, ao contrário do que tantos afirmam à boca cheia, confirma que os vinhos brancos portugueses também podem cintilar e perdurar, alcançando o cúmulo máximo da nobreza.

Como é bom, por uma vez na vida, não serem os vinhos fortificados a abrilhantar uma prova de vinhos velhos portugueses!

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do Público em 10 Abril 2010

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:12


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Marcello a 21.10.2013 às 23:33

Tenho uma garrafa de Grandjó 1942 branco de mesa doce. Sera que vale alguma coisa?

Comentar post



Pub


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

PUB


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mesa Marcada - Os 12 Pratos do Trimestre


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Junho 2010

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930

Comentários recentes

  • Alexandre Silva

    O que está a dar, é o que não está a dar! Fico esp...

  • Jorge Guitian

    Uno más para la agenda de la próxima visita a Lisb...

  • Joao Fernandes

    Eu trabalho com mangalitza na Hungria, neste caso ...

  • João Faria

    Há uns tempos deparei-me com uma imagem do marmore...

  • Bruno

    Interessante - moro em Londres e não conhecia o Ta...