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Prazeres da (meia) cave

por Miguel Pires, em 08.06.10

Restaurante Gspot

 


 

Tem nome de casa de meninas (ou meninos, para sermos politicamente correctos), mas os prazeres aqui são outros. Há um trio de ataque e há carne, é verdade. Mas o peixe muitas vezes até fica por cima (i.e: é predominante no menu).

O Gspot tem algumas singularidades: o espaço é mínimo (25 lugares) e não sabemos muito bem se fica numa meia cave subida ou se num rés-do-chão descido; a decoração não merece grande destaque – talvez pela dificuldade em rivalizar com o cenário verdejante que se avista da janela); e para quem vem de fora jantar arrisca-se a passar um tempo extra no trânsito (apenas para os que fizerem questão de jantar muito cedo). Mas do outro lado da balança existem argumentos bem mais interessantes, como o que se come e o que se bebe. Não é esta a principal razão que leva um gastrónomo a um restaurante?

João Sá e André Simões formam a dupla de Chefes à frente da cozinha. São novos, muito novos e por isso, com um certo beneplácito, sorrimos quando num misto de irreverência e realidade os ouvimos dizer que praticam ‘uma cozinha de supermercado’. Quem não tem cão caça com gato e se o mercado local não lhes dá tudo o que precisam a solução está no outro, no dito ‘super’. É que para poderem praticar uma cozinha criativa, em Sintra, têm de o fazer por um preço atractivo. A completar o trio de ataque falta referir a ponta do vértice, o que trouxe de imediato uma certa notoriedade ao local: a presença, como proprietário e responsável pela sala, do escanção Manuel Moreira, grande mais-valia para quem gosta de vinho e da sua conjugação com a comida.

Quis o destino que o dia que elegemos para ir ao Gspot fosse precisamente um dos dois dias do mês escolhidos para jantares vínicos. Como sabíamos que neste restaurante de Sintra o menu é alterado semanalmente achámos que nada de substancialmente diferente se iria passar que nos impedisse de escrever sobre ele com base nesse pressuposto. Ao comparar esse menu especial com o de semanas anteriores reparamos que este talvez seja mais pesado do que o normal, o que se entende já que os vinhos do jantar (Barão de Nelas) eram todos tintos e do Dão.

De um modo geral, o desafio das conjugações foi superado ainda que com um ou outro reparo. A tortilha de farinheira, pinhões e maçã com mousse de pimento – o preliminar que abriu o jantar - teve problemas de ligação entre os elementos e também de textura (a da tortilha, demasiado farinhenta), ainda que sem grande prejuízo na conjugação dos sabores. O vol-au-vent de pato, não sendo propriamente um prato do meu agrado, estava bem equilibrado - por fora, uma massa folhada estaladiça e sem oleosidade; por dentro, o recheio com o pato bem envolvido num bechamel correcto. A contrastar e a impedir a monotonia, um molho de frutos silvestres e a frescura assertiva da rúcola. O prato seguinte, ‘risotto’ de tinta de choco com tamboril e salada fumada foi uma escolha inteligente, com a massa ‘pevidinha’ a substituir o habitual (e mais pesado) arroz arbóreo. E se a massa não sai favorecida em relação ao arroz, em termos de sabor, o conjunto acabou por ser bastante interessante e acima de tudo à altura do pujante Touriga Nacional/Aragonês 07 com quem tinha que casar. Antes da sobremesa veio ainda uma língua de vaca estufada com feijoca e coração de alface. Carne tenra, feijoca em bom ponto e o coração de alface a contrastar em termos de sabor e textura (acompanhou um Touriga Nacional 07 e um Reserva 04). Questionável apenas o tamanho (excessivo) da porção, tendo em conta que se tratava do último prato. Por fim, o melhor da noite, um bolo de alfarroba, húmido, bem ladeado por uma bola de gelado de doce de leite (deveria aqui vir alguém do Algarve - onde doces à base desta vagem são servidos porta sim, porta sim - aprender esta receita).

Apresentar todas as semanas um menu diferente ao jantar, e ter ainda que o pensar para conjugar com certos vinhos, não é para todos. A sorte protege os audazes e, como na música, o improviso requer muito trabalho e conhecimento. E não é por uma ou outra nota sair do tom que o todo deixa de ser meritório.

 

O vol-au-vent de pato
pato
‘risotto’ de tinta de choco com tamboril e salada fumada

 

Custo médio: 35€/pessoa (com vinhos). Ao almoço existe um menu simples por 10/12€

 

Contactos: Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, 12, A/B Sintra; Tel: 927508027

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 5 Junho 2010

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publicado às 19:47


6 comentários

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De Joel Carvalho a 09.06.2010 às 10:36

Gostei muito de ler. Quero deixar um grande abraço ao Manuel Moreira, grande amigo.

Abraço
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De Vanessa Teixeira A. a 09.06.2010 às 17:06

Texto interessante. Continuem a desenvolver o vosso trabalho. Tneho o vosso blogue juntamente com outro o www.blogkrups.com que também considero essencial para quem gosta de seguir a àrea da comida.

Vanessa T. A.
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De Miguel Pires a 11.06.2010 às 19:02

Obrigado, Vanessa. Pelo que percebi está ligada a esse blogue da Krups . Se assim for , nada contra (até é uma marca com que simpatizo). No entanto seria mais correcto se se apresentasse como tal.

De qualquer forma felicidades para o vosso blogue.

cumprimentos
mp
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De Vanessa Teixeira a 04.10.2010 às 18:29

Olá miguel,
por acaso não faço parte do blogue da Krups, sou simplesmente uma simpatizante com conteúdos que me impressionem. Sou arquitecta e como tal não tenho qualquer ligação à marca. por isso achei um pouco "atrevido" da sua parte insinuar a mh ligação à marca.
Vanessa
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De Miguel Pires a 05.10.2010 às 12:16

Certo. Resta-me pedir desculpas pelo "atrevimento" :)

mp
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De Henrique mouro a 09.06.2010 às 22:52

Merecem este destaque e outros mais sem a menor sombra de dúvida. Sempre boa cozinha, bons vinhos e boa companhia.

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