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Agitando a crítica (II) - Anonimato e convites

por Duarte Calvão, em 12.06.10

Continuando a desenvolver os aspectos abordados por este polémico artigo do Público, sobre o qual já fiz este post, mais uma vez vou apenas focar as minhas declarações, já que não tenho a certeza de que as citações dos outros intervenientes estão devidamente enquadradas.  Vamos ao anonimato. A certa altura, o jornalista Paulo Moura, depois de me citar, diz que, tal como eu, Luís Antunes "também" desvaloriza o anonimato. Ou seja, depreende-se que eu não dou valor ao anonimato, o que não é correcto. Acho é que ele é impossível em Portugal e creio que em quase todos os países onde a crítica existe. Sobre este assunto o que eu disse foi que, com excepção de Lourenço Viegas, da Time Out (embora já muita gente saiba quem ele verdadeiramente é, parece-me que a sua cara ainda não é muito conhecida), todos, repito, todos os críticos gastronómicos portugueses são reconhecidos nos principais restaurantes e mesmo noutros menos falados. Eu sei que José Quitério procura resguardar a sua imagem, mas é evidente que indo ele a lançamentos de livros, debates, homenagens, um ou outro jantar de vinhos, tendo a sua fotografia publicada ocasionalmente numa ou outra entrevista, etc, é evidentemente conhecido. David Lopes Ramos faz o mesmo esforço (nem gosta que se publique a sua fotografia quando dá entrevistas, como eu sei por experiência própria), mas como também é jornalista, não há nada a fazer.

Como eu expliquei a Paulo Moura, tendo eu sido jornalista na área de gastronomia durante vários anos (aliás, foi sempre essa a actividade de que mais gostei), só tendo escrito um primeiro artigo de opinião (nem era crítica nenhuma, era uma defesa da Nouvelle Cuisine) cinco anos depois de ter entrado para o DN e só começando a fazer "crítica" nos tempos em que andei pelo suplemento do DNA, muito por força do estilo desse saudoso suplemento, era impossível resguardar a minha identidade junto de chefes, empregados de sala e donos de restaurantes. A não ser que andasse disfarçado, como disse em tom de brincadeira, referindo o exemplo de Ruth Reichl que Paulo Moura cita (mesmo assim, como sabe quem leu o "A Ferver", de Bill Buford, a então influente crítica do New York Times também era reconhecida...).

Já agora, aproveito para confessar que o que disse acima é apenas parcialmente correcto. Isto porque uns três ou quatro anos depois de ter entrado para o DN, a página diária que eu coordenava, "Boa Vida", passou a publicar semanalmente as críticas de um tal de Guardanapus. Com a devida autorização da própria, revelo agora o segredo: o misterioso Guardanapus era Maria de Lourdes Modesto e este humilde escriba. Quando digo "escriba" é "escriba mesmo, já que como podem calcular muitas vezes os textos eram quase só constituídos pelas suas brilhantes análises, baseadas no conhecimento enciclopédico que ela tem sobre cozinha (portuguesa e outras) e na sua extraordinária sensibilidade e bom gosto. Trocávamos impressões à mesa e depois das refeições, eu escrevia e ela corrigia e aprovava. Entendemo-nos lindamente e foi uma época muita divertida e proveitosa, especialmente para mim, que recordarei sempre com muita saudade. Nunca poderei agradecer suficientemente a Maria de Lourdes Modesto o muito que com ela aprendi, nessas e em muitas outras ocasiões.

Voltando ao artigo do Público, devo dizer que nunca marquei mesa em meu nome, como vem correctamente referido. E mesmo quando não pretendo escrever sobre determinado restaurante, procedo da mesma forma. Serviu-me de lição uma vez que, estava eu há dois ou três anos no DN, caí na asneira de dar o meu nome para reservar mesa num restaurante a uns bons quilómetros de Lisboa, onde nunca julguei ser conhecido e onde pretendia apenas  almoçar descontraidamente com uns amigos. Só que o chefe desse restaurante é obcecado pela "mediatização" e não me largou durante toda a refeição...A partir daí, nunca mais, sempre nomes falsos em qualquer reserva que faça em Portugal.

Sobre os convites, devo dizer que jamais os aceitei quando era para fazer crítica. É evidente que, quando era jornalista, eu e quase todos os que trabalham nesta área (a começar por pessoas como David Lopes Ramos e Manuel Gonçalves da Silva, com longos anos de provas dadas), eramos muitas vezes convidados para ir em conjunto conhecer a nova carta de um restaurante, ou o novo espaço de um chefe que já conhecia, ou ia a jantares de vinhos e por aí fora. Nessas ocasiões, fiz sempre questão de explicitar aos leitores em que condição tinha estado no restaurante, para que não houvesse confusões com situações de minha iniciativa em que, como crítico, tinha visitado o restaurante e escrito sobre ele.

Sobre contas no fim da refeição, sempre paguei quando fui por minha iniciativa aos restaurantes, seja para escrever críticas seja noutras situações. Numa meia-dúzia de vezes, no final da refeição, os donos ou chefes recusaram-se a aceitar que eu pagasse e de nada adiantaram os meus protestos. Como eu conhecia bem essas pessoas e sabia que o faziam por amizade e gosto, e não para me "subornarem", acabei por aceitar. Mas avisei sempre que era só daquela vez, uma vez sem exemplo, e de facto nunca se repetiram. Fica aqui o pedido aos chefes e donos de restaurantes que eventualmente leiam este post: mesmo que sejam meus amigos, por favor, deixem-me pagar a conta.

Num próximo post escreverei mais sobre este assunto.

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publicado às 15:40


3 comentários

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De Artur Hermenegildo a 14.06.2010 às 15:24

Um paralelismo que me parece pertinente: já nos anos 50 François Truffaut se queixava que nos jornais generalistas "qualquer pessoa" que tivesse visto uns filmes podia ser convidada para ser crítico de cinema, sem qualquer preparação específica - algo que, constatava ele com razão, sera impossível de acontecer no caso dos críticos literários, ou de arte.

Há actividades que pela sua natureza ("toda a gente come", "toda a gente vai ao cinema") convidam a algum facilitismo no momento dos orgãos de comunicação social escolherem os "críticos".

É preciso, como em tudo, separar o trigo do joio.
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De LA a 17.06.2010 às 10:15

Duarte, como bem percebeste -- e aliás, está lá escrito -- não desvalorizo coisa nenhuma. Apenas acho que é impossível. Admito que é muito mais fácil fazer o trabalho quando ninguém sabe quem eu sou. E também que assim presto um melhor serviço ao meu leitor... O leitor, aquele que às vezes parece esquecido. Nós trabalhamos para um leitor.

Grande revelação sobre o Guardanapus, admira-me que não haja mais tumulto e instabilidade social... mas tem andado tudo muito calmo, deve ser o "olho da tempestade",.,,
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De Duarte Calvão a 17.06.2010 às 12:25

Viva, Luís. Eu sei que não desvalorizas, mas abstive-me de comentar as declarações imputadas aos outros intervenientes no artigo porque não sei se elas estão devidamente enquadradas. Quanto ao Guardanapus, de facto é estranho...Havia na altura tanta curiosidade. Será do futebol? De qualquer maneira, depois de passar o Mundial, espero que nenhum dos donos de restaurante em que zurzimos se lembre de me mandar abater...

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