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Uma falsa percepção de modernidade

por Rui Falcão, em 28.06.10

 

Como país, como sociedade, sofremos de uma estranha e conturbada relação com o passado, amargando continuamente com a vergonha e o constrangimento de um atraso e pobreza que julgamos serem endémicos, obcecados em querer aparentar uma imagem de falsa modernidade, deslumbrados com o apelo da moda dos últimos gritos sociais ou tecnológicos. Aprovamos o constante renegar do passado, esquecendo e repudiando os seus princípios e ensinamentos, enjeitando e desperdiçando as percepções e experiências que construímos e acumulámos empiricamente ao longo de gerações. De uma só assentada, iludidos com falsas promessas de um futuro radiante, decidimos voltar costas a séculos de práticas e costumes, abraçando de peito aberto as novidades que nos chegam de países terceiros, desertando da identidade que forjámos ao longo da nossa rica e longa história.

Comportamo-nos como alunos exemplares e disciplinados da nova ordem burocrática e asséptica da União Europeia, abandonando, aparentemente sem peso na consciência, a individualidade e originalidade que poderiam, e deveriam, ser os nossos argumentos capitais de afirmação. Por isso aceitamos de bom grado, sem contestação visível e com a diligência típica dos novos cristãos, a proibição de tantos produtos artesanais pertença do nosso património colectivo, singularidades da originalidade lusitana. Aceitamos e adoptamos sem contestação os novos fundamentos herdados de outras paragens, sem argumentação prática, sem interrogações sobre a validade e valor dos preceitos que o passado nos legou. Em nenhum outro país da Europa ocidental um povo perdeu de forma tão deliberada e espontânea os seus valores históricos sem se interrogar sobre as razões para a mudança.

Se este espírito perverso acaba por ser transversal e potencialmente prejudicial a toda a sociedade, no vinho as suas consequências são ainda mais dolorosas, por inibirem a diferenciação, carácter e originalidade de que os vinhos nacionais tanto carecem para poder competir no mercado global. Os exemplos de abandono voluntário e complacente de todas as pequenas incongruências e especificidades regionais portuguesas abundam por todo o território vinhateiro, de Norte a Sul, sem se perceber qualquer sinal de hesitação ou arrependimento… mesmo quando os resultados do passado demonstram a validade da alternativa. Tome-se, por exemplo, o caso alentejano da fermentação e estágio do vinho em talhas de barro, em enormes e desusadas ânforas de barro, herança romana que perdurou no sul de Portugal durante quase dois mil anos… para logo ser abandonada e desclassificada num ápice, desbaratando séculos e séculos de experiência e conhecimento empírico em proveito de mais uma prova de normalização vínica.

No momento em que muitos dos produtores internacionais mais inconformistas e revolucionários assumem os seus primeiros ensaios com o barro, os produtores alentejanos desertam do material nobre que usaram durante incontáveis gerações. No momento em que as talhas de barro ganham expressão junto da comunidade crente nos conceitos da biodinâmica, os produtores alentejanos fogem do exotismo do barro convertendo-se, sem excepção, ao encanto do inox e das barricas de madeira francesa, como se esta fosse a solução única e irreversível.

Facto ainda mais peregrino quando temos ocasião de provar os verdadeiros vinhos de talha do século transacto, como recentemente tive ocasião de poder consumar numa prova vertical dos vinhos da casa José de Sousa, testemunhando a validade, virtude e rigor dos vinhos que aí foram produzidos durante as décadas de quarenta e sessenta do século passado. Vinhos alentejanos notáveis, provenientes das colheitas de 1940, 1945, 1961 e 1965, fermentados e estagiados em amplas e vetustas talhas de barro, de acordo com o espírito e as tradições do Alentejo, aproveitando a escassa matéria-prima disponível a sul do Tejo, o barro. Porque, há que dizê-lo de forma inequívoca, raramente existem coincidências na natureza e nos desígnios do homem. Não é seguramente produto do acaso que os vinhos produzidos a Norte do rio Tejo tenham sido tradicionalmente guardados e envelhecidos em tonéis de madeira, matéria-prima abundante e amplamente disponível nas florestas mediterrânicas do norte do país, ao contrário dos vinhos do Sul que, pela escassez congénita de matas naturais, foram sendo habitualmente fermentados e estagiados em barro, o material disponível nas paisagens mais áridas do sul.

Madeira velha e largos tonéis que em tempos marcaram o estágio emblemático da maioria dos Vinhos Verdes, prática entretanto abandonada e desprezada em favor da candura e neutralidade do inox, numa ditadura que, infelizmente, muitos entendem como sendo incontestável e definitiva. Porque será que, num raro assomo de unanimidade regional, todos os produtores minhotos enjeitaram de uma só vez os velhos tonéis de madeira avinhada, correndo alegres e esperançados para o abraço do inerte inox, à procura de uma esterilidade e uniformidade que tanto prejudica a diversidade? Terá sido por conhecimento profundo e necessidade, por inevitabilidade do destino, ou por simples cópia do vizinho, motivados pelo desejo de rejeição de um passado que lhes pareceu adverso? Mas porque será que os melhores produtores alemães e austríacos, capazes de vender os seus vinhos brancos a preços quase indecorosos, persistem em usar os seus velhos tonéis avinhados, alguns já centenários, reforçando mesmo o seu uso nos vinhos mais delicados e aromáticos, escandalizados perante a simples ideia de se desfazer de um património que consideram indispensável?

Que “estranha” razão levará então tantos produtores alemães e austríacos de sucesso a preservar os seus ideais, sem abdicar dos ensinamentos do passado, integrando-os na perfeição com os conceitos modernos de enologia? Talvez a compreensão de que o mundo, apesar da inevitabilidade das evoluções e revoluções, necessita também de continuidade e história para poder oferecer diversidade e autenticidade.

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 24 de Abril de 2010

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publicado às 09:37



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