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Grécia

por Rui Falcão, em 06.07.10

 

Continuamos a assentar atenções na já estafada dicotomia entre o velho e o novo mundo, entre os vinhos europeus e os vinhos dos restantes continentes, assustados com a concorrência de outras latitudes já consolidadas, países e regiões tão diversas como a Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Chile, Argentina e Califórnia. Porfiamos tão absorvidos por esta visão que nos esquecemos recorrentemente de países como a China, o sexto maior produtor mundial, com crescimentos anuais quase exponenciais, bem como dos restantes países europeus, os que se desviam do tradicional bastião do quarteto mediterrânico dos vinhos portugueses, espanhóis, franceses e italianos. De tão angustiados que andamos com os países do novo mundo acabamos por esquecer que, por exemplo, a Alemanha produz mais vinho que Portugal, e, sobretudo, que existe um grupo de países europeus emergentes, os nossos futuros competidores, oriundos maioritariamente do leste europeu, que, paulatinamente, se reconciliam com a comunidade internacional. De entre o grupo que integra países como a Roménia, Bulgária, Hungria, Moldávia, Croácia e Eslovénia, existe um país que se destaca de forma expressiva junto da crítica internacional, um dos países mais excitantes do momento, aquilo a que os anglo-saxónicos gostam de referir como the next big thing, a Grécia!

Se ainda recentemente os vinhos gregos asseguravam uma presença relativamente discreta fora de fronteiras, retraídos no contexto internacional, assentando baterias no sempre decisivo mercado local e nos países limítrofes, bem como em Inglaterra, Alemanha, Canadá e América, principais comunidades de destino da imensa diáspora grega, hoje, e pela primeira vez, os vinhos gregos começam a descolar do cliché da restauração étnica, ganhando espaço elogioso nas revistas da especialidade e nos favores da crítica internacional.

Certamente não por acaso, a mudança de percepção internacional coincidiu com a importante, e ainda incipiente, reestruturação das vinhas, com a aposta determinada nas variedades gregas em detrimento das castas internacionais que se sobrepuseram numa primeira etapa. Se os sempre assíduos Sauvignon Blanc, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah se estabeleceram no início dos anos oitenta, acompanhados por preferências mais exóticas e de difícil justificação como as variedades Ugni Blanc, Riesling, Sémillon, Viognier, Cabernet Franc e Refosco, hoje são as castas helénicas a recolher a preferência de produtores e viticultores. Uma decisão sábia, sobretudo quando a Grécia foi tão simpaticamente abençoada por um grupo notável de castas espantosas, diferentes de tudo a que o mundo está habituado.

É fácil perceber os encantos dos vinhos gregos, vinhos de personalidade forte e carácter vincado, diferentes no estilo de tudo o que possa considerar. Curiosamente, e inesperadamente para um país mediterrânico, os vinhos brancos são muito mais apetecíveis e motivadores que os vinhos tintos. Na verdade, a Grécia será mesmo o único país da bacia mediterrânica onde as castas brancas são claramente superiores às castas tintas, com uma colecção notável de castas brancas autóctones. Apesar do clima quente, seco e soalheiro que caracteriza a maioria do território, ilhas incluídas, com picos de desidratação e canícula quase infernais, os vinhos brancos conseguem, por regra, apresentar uma frescura inacreditável, com uma mineralidade constante, corpo avantajado e estrutura colossal.

Entre todos, destacam-se os deslumbrantes brancos de Santorini, maioritariamente da casta Assyrtiko, uma das mais interessantes do mundo, vinhos que em prova cega e com os olhos vendados facilmente poderiam passar por tintos, tal o volume, densidade e corpulência da boca, refrescados por uma acidez espantosa e espaventosa. Igualmente estupendos são os Assyrtiko das regiões de Drama e Epanomi, no Norte, provando que a variedade consegue viajar com sucesso para fora do seu elemento natural. Mais delicados, mas não menos impressionantes, apresentam-se os profundamente terpénicos, florais e especiados Moschofilero de Mantinia, os citrinos, frescos e cremosos Roditis de Patras, os delicados, frutados e cavalheirescos Malagousia da Macedónia, bem como os cristalinos, graves e estruturados Robola de Cephalonia que, apesar da semelhança fonética, não apresentam qualquer ligação à Ribolla Gialla italiana. Nos tintos, o realce é ainda mais intuitivo, limitando-se, por ora, aos aromáticos, frutados e suaves Aghiorghitiko de Nemea e aos sólidos, taninosos, austeros e acídulos Xinomavro de Naoussa. Por ainda se encontrar no início da longa viagem de descoberta das suas variedades autóctones, e sabendo que ainda existem dezenas de castas por descobrir, dezenas de variedades por explorar e revelar, o futuro apresenta-se brilhante, permitindo uma diversidade ímpar de ensaios e experiências, num exercício frenético que começa agora a dar os primeiros passos e os primeiros frutos.

Entre os produtores mais interessantes, aqueles que não vai querer perder sob qualquer pretexto, encontram-se Gaia, Kir-Yanni, Gerovassiliou, Biblia Chóra, Alpha Estate, Antonopoulos, Tselepos, Kosta Lazaridis e Sigalas. Recorde-se destes nomes porque, estou seguro, em breve irá encontrá-los nas principais publicações internacionais dedicadas ao vinho! As melhores relações qualidade/preço, essas procedem dos produtores Boutari, Mitravelas, Tsantalis e das cooperativas de Cephalonia, Santorini e, para os vinhos doces, da cooperativa de Samos.

Em Portugal não será fácil dar de caras com a maioria destas propostas, mas poderá ter uma primeira introdução às virtudes dos vinhos gregos no restaurante Ilhas Gregas, no Estoril, junto à Avenida Marginal, local de eleição para quem se apaixonou pela gastronomia e pelos vinhos da Grécia.

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 27 de Março de 2010

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