Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Duplo jackpot

por Miguel Pires, em 22.07.10

Restaurante Panorama

 

Se há um lugar em Lisboa que merece uma visita pela vista esplendorosa que oferece, esse lugar é o ultimo andar do Hotel Sheraton. Mas se fosse só pela vista então um dry martini ou um porto tonic no bar seriam mais do que suficientes para a saciar. Acontece que na sala ao lado se encontra um dos melhores restaurantes do país fruto do trabalho e talento do Chefe Leonel Pereira e da sua equipa.

Recentemente fui convidado para um almoço e para um jantar, o último na companhia de outras pessoas do meio. No primeiro, o propósito era mostrar um menu executivo que embora um pouco mais caro do que o habitual, tinha uma qualidade à altura dos pratos da carta – este tipo de menu é um expediente a que recorrem muitos restaurantes de topo para oferecerem uma refeição mais rápida e menos dispendiosa. Para isso são normalmente utilizados produtos menos nobres e confecções menos elaboradas.

É verdade que alguém com a experiência de Leonel Pereira não arriscaria tal propósito se não estivesse certo das suas convicções. O inesperado era que um dos pratos deste almoço fosse um dos melhores do conjunto das refeições. O tártaro de robalo com molho de cerejas, numa sublime combinação entre a acidez e a doçura das cerejas, com a delicadeza do robalo cru, marinado, foi um bálsamo refrescante naquele início de tarde de Verão. Houve ainda umas sardinhas, próprias da época, apresentadas em filete e bem acompanhadas por um xerém (papas de milho) e algas; e a finalizar uma sobremesa à base de chocolate. Pela amostra, o menu executivo foi aprovado com mérito e distinção.

Ao jantar seria normal que perante a quantidade de pratos a degustar, nove, houvesse altos e baixos. Na verdade nem tudo me levou ao sétimo céu mas de fracos, não reza esta história. No primeiro prato, "Branco&Preto", o risco é assumido com uns pedaços de choco confeccionados de forma a manterem uma textura firme (excelente a combinação com um puré de batata negra – a cor é dada pela tinta do choco). Em "a horta" (salada de brotos, folhas e flores sobre um creme de beterraba, tofu e mini-vegetais) tivemos um prato vegetariano fresco, crocante e colorido. De seguida, a ‘maresia’ foi um dos momentos altos da noite: um carabineiro do Algarve, algas, ovas de tobiko e ouriço do mar sobre uma ‘capa’ de xerém de milho branco. Prato mais fresco, marítimo e algarvio do que este só se for uma cataplana comida num escafandro em plena Ria Formosa. O terceiro prato, "mineralogia", é um ‘foie gras’ cozinhado em vinho tinto e especiarias, farófias em folha de bronze e ‘coulis’ de manga. Prato de grande efeito visual numa excelente conjugação a provar que, ao arrepio da tendência minimalista actual (de poucos elementos no prato), Leonel Pereira sabe usar a quantidade sem atropelos de sabores. O peito de pombo não merece grande referência apenas por o seu sabor assertivo não ser bem a minha praia, mas a inabitual e interessante ligação entre o lagostim salteado e o risoto de pezinhos de coentrada, não fora o excesso de sal, teria sido um dos pratos mais conseguidos da noite. E o festim prosseguiu sempre a um nível superior. Houve ainda um salmonete com mousse de favas e hortelã e umas lascas de bacalhau com mousseline de grão. Antes de fechar em beleza com a sobremesa, capuccino de chocolate sobre menta e crumble de laranja.

O serviço esteve a preceito e os vinhos de várias regiões do país (com um intermezzo para um tokaji húngaro) foram, em geral, bem conjugados com a comida (acertada a opção em acompanhar a "maresia" com cerveja)

Com esta carta de Verão, e também com a aposta, ao almoço, num menu executivo de primeira, Leonel Pereira mostra-se em excelente forma, com a sua cozinha de base portuguesa - com raiz algarvia, do mar e da horta – segura, criativa e de grande personalidade. Estará certamente no seu auge o que, num lugar com uma vista privilegiada como este, é uma espécie de duplo jackpot de cerejas no topo do bolo. Era mais um tártaro de robalo com molho das ditas, se faz favor.

 

"Branco&Preto"

 

"A Horta"

 

"maresia"

 

peito de pombo

 

Menu executivo, ‘destaque do chefe’: 35€ (s/ vinhos de 2ªF a 6ªF ao almoço); menu de degustação: 56€ ou 76€, caso se opte pela harmonização com vinhos)

 

Contactos: Hotel Sheraton Lisboa, Rua Latino Coelho 1 - Lisboa ; Telefone: 213120000

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 17 Julho 2010

 

 

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:50



Pub


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

PUB


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mesa Marcada - Os 12 Pratos do Trimestre


Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Julho 2010

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Comentários recentes

  • Alexandre Silva

    O que está a dar, é o que não está a dar! Fico esp...

  • Jorge Guitian

    Uno más para la agenda de la próxima visita a Lisb...

  • Joao Fernandes

    Eu trabalho com mangalitza na Hungria, neste caso ...

  • João Faria

    Há uns tempos deparei-me com uma imagem do marmore...

  • Bruno

    Interessante - moro em Londres e não conhecia o Ta...