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Restaurante Dona Bia
Sempre que encontro nos jornais um daqueles questionários que esta época de ‘silly season’ é pródiga fico à espera que alguém faça a pergunta: “Quantos quilómetros é capaz de fazer para ir a um restaurante?”. Na verdade o que gostaria mesmo era que alguém fizesse a pergunta de forma ligeiramente mais complexa, do género: “Quantos quilómetros é capaz de fazer para ir a um restaurante em que terá que esperar, mesmo que tenha reserva; em que o sr. Doutor, cliente habitual, passa à sua frente, mesmo sem reserva; em que a carta e o serviço de vinhos são entre o fraco e o não existente mas em que a/o dotada/o que está à frente dos tachos nasceu com uma mão especial para a cozinha só comparável ao pé do Chalana no Europeu de 84?”
Nos últimos anos quanto mais saudades tenho da ‘comida de mãe’ maior é a distancia que estou disposto a fazer para apreciar a comida de outras mães. Felizmente que nem sempre é necessário encher um depósito de combustível para isso. Por estes dias, a banhos numa praia próxima da costa alentejana, quis o destino (e uma recomendação amiga) que fizesse por tropeçar na placa do restaurante Dona Bia, na beira da estrada entre a Comporta e o Carvalhal.
Muito antes de se ter tornado uma zona de veraneio ‘in’, a Comporta já era uma região conhecida pela produção de arroz, pelo que não é de estranhar que vários restaurantes lhe concedam destaque no nome (‘Museu do Arroz’, ‘ Ilha do Arroz’, etc). No Dona Bia - um espaço simples que embora reformulado não esconde as origens humildes - não é necessário um cognome, nem a assinatura “a cozinhar arroz desde...”. Estar em frente a um imenso arrozal e saber preparar o arroz de forma eximia parecem ser argumentos mais do que suficientes para atrair uma clientela que faz fila à porta.
Petinga frita ou pataniscas com arroz de feijão; linguadinhos fritos com arroz de berbigão; filetes de peixe galo com arroz de cabeça; canja de cherne com espinafres e amêijoas e massinha de cherne são alguns dos exemplos da carta que nos fazem salivar.
Para que a tortura não seja grande, assim que nos conseguem sentar, colocam-nos logo na mesa algo para petiscar. Por estes dias variava entre salada de polvo (que dispensámos), coelho ou entremeada, ambos de coentrada, um petisco frio comum nesta zona. O preparo, que pode ser também feito com a febra do porco, é simples: grelha-se ou assa-se a carne, corta-se em tiras ou em pedaços, junta-se alho, coentros, azeite e vinagre. Se o tempero for utilizado com parcimónia e o contacto entre as partes durar o tempo certo obtém-se uma óptima entrada, como foi o caso da que nos serviram. Da atractiva ementa, alguma desilusão por não existirem vários pratos; outros não serem exactamente como está escrito e também por serem praticamente todos para duas pessoas (embora não deixe de haver uma solução para solitários). Por exemplo em três refeições que fizemos nunca conseguimos comer nem pataniscas, nem o arroz de cabeça que supostamente acompanha os filetes de peixe galo. No entanto a irritação foi breve porque o arroz de tomate que veio com os filetes (suculentos, fritos em polme fina), estava de antologia: um carolino local de grande qualidade - daquele que mesmo um pouco para lá do ponto, absorve mas não empapa -; refogado leve, muito saboroso; e a textura, o aroma e a cor de um tomate de época que faz toda a diferença. Tudo muito bem entrosado de tal forma que repetimos a dose, dois dias depois.
Comeu-se ainda uma massinha de cherne igualmente muito boa no preparo, a provar que também se trabalha bem o trigo – mesmo que o peixe e o camarão ficassem a ganhar se entrassem mais tarde no conjunto, ou seja: com menos tempo de cozedura.
Em termos de vinhos a carta é melhor nos tintos do que nos brancos, como é (infelizmente) habitual e os preços são correctos. Bebeu-se um Ervideira Antão Vaz 09, frutado, algo tropical, que foi bem com esta cozinha de tacho.
O serviço embora desajustado em dias de casa cheia é aprazível e acaba por conseguir ser relativamente eficiente.
Em qualquer outro sitio, à porta de casa, um conjunto de pequenas falhas poderia resultar numa grande irritação. No entanto quando há algo que nos leva ao sétimo céu e por um preço muito razoável (nada de segundas leituras, sff) perdoa-se tudo, ou quase tudo, e percorrem-se os quilómetros necessários para lá chegar
Preço médio refeição: 25/30€, pax (com vinho)
Contacto: Estrada Nacional 261 Torre, Comporta; Tel: 265 497 557
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 31 Julho 2010
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