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Doce arroz

por Miguel Pires, em 05.08.10

Restaurante Dona Bia

 


Sempre que encontro nos jornais um daqueles questionários que esta época de ‘silly season’ é pródiga fico à espera que alguém faça a pergunta: “Quantos quilómetros é capaz de fazer para ir a um restaurante?”. Na verdade o que gostaria mesmo era que alguém fizesse a pergunta de forma ligeiramente mais complexa, do género: “Quantos quilómetros é capaz de fazer para ir a um restaurante em que terá que esperar, mesmo que tenha reserva; em que o sr. Doutor, cliente habitual, passa à sua frente, mesmo sem reserva; em que a carta e o serviço de vinhos são entre o fraco e o não existente mas em que a/o dotada/o que está à frente dos tachos nasceu com uma mão especial para a cozinha só comparável ao pé do Chalana no Europeu de 84?”

Nos últimos anos quanto mais saudades tenho da ‘comida de mãe’ maior é a distancia que estou disposto a fazer para apreciar a comida de outras mães. Felizmente que nem sempre é necessário encher um depósito de combustível para isso. Por estes dias, a banhos numa praia próxima da costa alentejana, quis o destino (e uma recomendação amiga) que fizesse por tropeçar na placa do restaurante Dona Bia, na beira da estrada entre a Comporta e o Carvalhal.

Muito antes de se ter tornado uma zona de veraneio ‘in’, a Comporta já era uma região conhecida pela produção de arroz, pelo que não é de estranhar que vários restaurantes lhe concedam destaque no nome (‘Museu do Arroz’, ‘ Ilha do Arroz’, etc). No Dona Bia - um espaço simples que embora reformulado não esconde as origens humildes - não é necessário um cognome, nem a assinatura “a cozinhar arroz desde...”. Estar em frente a um imenso arrozal e saber preparar o arroz de forma eximia parecem ser argumentos mais do que suficientes para atrair uma clientela que faz fila à porta.

Petinga frita ou pataniscas com arroz de feijão; linguadinhos fritos com arroz de berbigão; filetes de peixe galo com arroz de cabeça; canja de cherne com espinafres e amêijoas e massinha de cherne são alguns dos exemplos da carta que nos fazem salivar.

Para que a tortura não seja grande, assim que nos conseguem sentar, colocam-nos logo na mesa algo para petiscar. Por estes dias variava entre salada de polvo (que dispensámos), coelho ou entremeada, ambos de coentrada, um petisco frio comum nesta zona. O preparo, que pode ser também feito com a febra do porco, é simples: grelha-se ou assa-se a carne, corta-se em tiras ou em pedaços, junta-se alho, coentros, azeite e vinagre. Se o tempero for utilizado com parcimónia e o contacto entre as partes durar o tempo certo obtém-se uma óptima entrada, como foi o caso da que nos serviram. Da atractiva ementa, alguma desilusão por não existirem vários pratos; outros não serem exactamente como está escrito e também por serem praticamente todos para duas pessoas (embora não deixe de haver uma solução para solitários). Por exemplo em três refeições que fizemos nunca conseguimos comer nem pataniscas, nem o arroz de cabeça que supostamente acompanha os filetes de peixe galo. No entanto a irritação foi breve porque o arroz de tomate que veio com os filetes (suculentos, fritos em polme fina), estava de antologia: um carolino local de grande qualidade - daquele que mesmo um pouco para lá do ponto, absorve mas não empapa -; refogado leve, muito saboroso; e a textura, o aroma e a cor de um tomate de época que faz toda a diferença. Tudo muito bem entrosado de tal forma que repetimos a dose, dois dias depois.

Comeu-se ainda uma massinha de cherne igualmente muito boa no preparo, a provar que também se trabalha bem o trigo – mesmo que o peixe e o camarão ficassem a ganhar se entrassem mais tarde no conjunto, ou seja: com menos tempo de cozedura.

Em termos de vinhos a carta é melhor nos tintos do que nos brancos, como é (infelizmente) habitual e os preços são correctos. Bebeu-se um Ervideira Antão Vaz 09, frutado, algo tropical, que foi bem com esta cozinha de tacho.

O serviço embora desajustado em dias de casa cheia é aprazível e acaba por conseguir ser relativamente eficiente.

Em qualquer outro sitio, à porta de casa, um conjunto de pequenas falhas poderia resultar numa grande irritação. No entanto quando há algo que nos leva ao sétimo céu e por um preço muito razoável (nada de segundas leituras, sff) perdoa-se tudo, ou quase tudo, e percorrem-se os quilómetros necessários para lá chegar

 

Preço médio refeição: 25/30€, pax (com vinho)

 

Contacto: Estrada Nacional 261 Torre, Comporta; Tel: 265 497 557

 

Texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 31 Julho 2010

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publicado às 09:46


10 comentários

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De Anónimo a 05.08.2010 às 18:17

Há algum docinho relevante? Ou só gelados Olá?
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De Miguel Pires a 05.08.2010 às 20:05

arroz doce, delicia de arroz, doce de arroz da casa, doce de arroz da avó, petit gateau de arroz, baba de arroz, requeijão com doce de arroz e... estou a brincar. Não havia nada digno de registo. Mas só para o sr(sra) anónimo(a) que me apanhou na curva, poderia acrescentar, antes do parágrafo dos vinhos, a seguinte frase: "no que diz respeito a sobremesas, nada de assinalar. Num dos dias ainda se provou uma mousse de caramelo, apenas razoável. Para os apreciadores há gelados Olá"
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De Valter Costa a 05.08.2010 às 20:45

O melhor mesmo é ir de Outubro a Abril. No verão é para esquecer.
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De Jorge Nunes a 06.08.2010 às 12:48

Belo texto! Descontraído, bem escrito, uma linguagem simples que chega a toda a gente, entendidos ou não.
É este o caminho da crítica gastronómica.
Sobre o Dona Bia já tinha comentado num post anterior, mas é tudo isso que está no texto. Eu gosto!

Cumprimentos!
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De Miguel Pires a 06.08.2010 às 13:30

Valter Costa: o problema é que fora de época a probabilidade de haver menos escolha ainda é maior. De qualquer forma não colocaria de lado uma ida no Verão, mesmo que tenha que esperar.

Jorge Nunes: as suas palavras são um estímulo, obrigado. Quanto ao 'caminho da critica gastronómica', é bom que hajam vários, desde que sérios (mesmo quando se brinca).
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De Tiago a 06.08.2010 às 16:46

Parabéns pelo blog do qual sou cliente habitual.
Quanto a este post, só o primeiro parágrafo já merecia uma estrela Michelin.
: )
Quanto à Dona Bia, hei-de conhecer. Off-season.
Abraços
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De Ricardo Duarte a 06.08.2010 às 19:14

Olá, primeiro que tudo muitos parabéns pelo excelente blog e pelas excelentes dicas!! Gostaria de saber se seria possível aconselharem algum(s) restaurante em Londres ou então algum site/blog sobre isso. Sei que é sempre muito difícil mas se puderem seria excelente. As listas que se encontram na net dos "best of london" serão de confiar?...

Antecipadamente grato
Ricardo Duarte
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De Miguel Pires a 08.08.2010 às 23:55

Ricardo, obrigado pelas suas palavras.
Se fosse neste momento a Londres faria o possível para ir ao Viajante do Chefe Nuno Mendes. Não deve ser fácil de reservar, no entanto não há como tentar.

No entanto seguiria também as pistas da Paulina Mata, do Forum NovaCritica , frequentadora assídua da cidade. veja aqui, neste link : http :/ www.novacritica-vinho.com forum viewtopic.php?p ?p=74818&sid=3e636e10b63e86d1ddd088c2456bdb67

Neste mesmo forum poderá ler sobre o Viajante aqui: http :/ www.novacritica-vinho.com forum viewtopic.php?p ?t=9333&sid=a3a1438fb7b54f1a485715a19cf492f5

se quiser ainda aprofundar mais a coisa dê uma olhada no Chowhound e no egullet, dois foruns lá de fora bem cotados sobre a matéria. Recorro a eles quando quero dicas sobre certas cidades ou países.

http ://chowhound.chow.com/topics/303830

http ://forums.egullet.org/index.php?/index?s=394a955e2a8b45f41f8e7491440e59d1

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De Ricardo Duarte a 11.08.2010 às 17:49

Muito obrigado a todos pelas dicas!!! vou aproveitar bem!! Grande abraço

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