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O final de Setembro reúne vários factores passíveis de levar uma pessoa à depressão. É o regresso ao trabalho e, para muitos, à confusão da cidade. Acabam-se as amenidades para quem ficou. Deixamos de ter aquele lugar de estacionamento à porta de casa e de poder circular à vontade, sem pressas.  Ainda há uma temperatura a fazer lembrar o Verão, é certo, mas a noite começa a cair mais cedo até que cortar os pulsos virtual, a mudança da hora, surge rapidamente. Talvez por isso, alguém tenha inventado um anti-depressivo a que foi dado o nome de ‘rentrée’. É então que a cidade passa a ser vibrante e não opressiva e uma série de acontecimentos se anunciam. Os jornais passam a usar e a abusar da palavra rentrée para tudo. Anunciam-se novos livros, concertos das bandas x e y e estreias de filmes com Brads e Angelinas.

E nos restaurantes?

Nos lugares mais populares retornam os clientes habituais para o conforto do mesmo de sempre; enquanto que nos mais sofisticados a atenção volta-se para preparação dos menus da nova estação. Mas a rentrée está muito associada ao conceito de novidade e para os viciados do “e então que novos restaurantes é que há aí?” este momento não poderia ser mais pródigo.

Apesar da crise verifica-se uma vitalidade no meio em termos de aberturas de novos espaços, o que não deixa de surpreender. Não há uma tendência, mas um esforço na procura de um posicionamento próprio, mesmo nos restaurantes de cozinha de autor. Falamos neste artigo de doze - nem todos ainda a funcionar - e destacamos quatro, estes sim, já em plena laboração.

Talvez o acontecimento desta temporada  seja abertura do Ipsylon, no novo hotel The Oitavos, na Quinta da Marinha, em Cascais, que conta com o Chefe Aimé Barroyer ao comando. Barroyer protagonizou a transferência do ano, ao deixar o restaurante Valle Flor, do Pestana Palace (Lisboa) onde esteve desde do inicio e onde efectuou um excelente trabalho, quer em termos criativos – trazendo para a sua cozinha sofisticada uma série de ingredientes tradicionais portugueses caídos em desuso -  quer em termos de formação. Vários Chefes, hoje a dar cartas, nasceram consigo, neste local. Um dos seus discípulos é Henrique Mouro que em Julho abriu o Assinatura, na Rua Vale do Pereiro, junto da Av. Alexandre Herculano, em Lisboa. Uns metros mais à frente, na Rua do Salitre estreou Pedro e o Lobo, um restaurante trendy, de cozinha contemporânea com uma equipa muito jovem na cozinha, mas com rodagem feita por palcos de referência. Depois de no ano passado termos assistido ao aparecimento de sushi alentejano (que por mais absurdo que pareça, até que resulta), foi a vez dos Açores e do Japão se encontrarem à mesa, no Kampai, um projecto muito interessante ali para os lados da Assembleia da República.  Na Av. 24 de Julho, o Maritaca vai continuar com as pizas e outros petiscos do forno a lenha, mas a partir de Novembro serão introduzidas novas propostas, agora que Fausto Airoldi tomou as rédeas depois de deixar o Spot S. Luís e os espaços do Casino de Lisboa. Estes últimos estão agora nas mãos do Grupo Lágrimas, de Miguel Júdice, que se prepara para abrir, no próximo mês, na zona da Estrela, um espaço com um conceito inovador. Vai-se chamar Cantina da Estrela (estará integrado num novo hotel do grupo) e pretende recriar o imaginário das escolas antigas. A cozinha vai ser de base tradicional com um ‘twist’ mais contemporâneo e, no final, o preço será decidido pelo cliente em função da sua satisfação (num país de ‘xicos espertos’, registe-se a ousadia!). Para Março de 2011 Júdice promete a reabertura do Terreiro do Paço, já sem a parceria de Vítor Sobral, que continua feliz da vida, mas não quieto, a gozar o sucesso da Tasca da Esquina, em Campo de Ourique, enquanto finalizam as obras da cervejaria que vai abrir no mesmo bairro. Quem também se prepara para abrir portas (já na próxima semana) é o o ex-jugoslavo mais português de Portugal, Ljubomir Stanisic. E não escolheu qualquer sitio para o fazer. O Bistro 100 Maneiras, assim se chama o espaço, vai tomar o lugar do antigo Bacchus, na Rua da Misericórdia. Aqui Ljubomir vai dar ensejo à sua veia criativa mais petisqueira de inspiração portuguesa, jugoslava, francesa e de “wherever”. Com mais ou menos sofisticação vão existir opções para diversos gostos, mas sem banalidades: clássicos do 100 Maneiras  - que continua a funcionar, no Bairro Alto - como as bochechas de porco ou o salmonete na lata, bem como outros pratos mais substanciais, como o carré de porco com batatas. Vai haver um menu para ‘corajosos’ com molejas, coxas de rã, túbaros, e outros que tais e uma carta para noctívagos (ostras grelhadas, prego do caco, terrina de foie, hamburger...), o que é de aplaudir, tendo em conta o adn nocturno da zona. Com algumas parecenças em termos de perfil gastronómico, mas num ritmo oposto (ou não fosse alentejano) está José Júlio Vintém, que mudou de casa com o seu Tombalobos, mas sem sair de Portalegre. Aqui os peregrinos poderão continuar a apreciar iguarias como o tártaro de coração de boi, ou as pétalas de toucinho, só para citar alguns exemplos da sua cozinha muito particular. Voltando a Cascais, na marina, Igor Martinho, o jovem Cozinheiro do ano (2009), agora sem o turbante, apresenta a sua cozinha no novo Hemingway, depois de ter deixado a Quinta dos Frades do conhecido Chakall. No Porto o fenómeno ‘nova tasca’ - que muito sucesso tem feito a sul – também parece singrar. O ‘Canelas de Coelho’, junto aos Aliados é um novo espaço a juntar-se ao clube. Do outro lado do rio, no restaurante do hotel The Yeatman, em Gaia estreia-se finalmente Ricardo Costa, de quem muito se espera depois da sua saída, no inicio do ano, da Casa da Calçada, em Amarante, onde conquistou uma estrela Michelin e recebeu rasgos elogios de críticos como David Lopes Ramos, do Público.

Os mais optimistas  referem que os maus ciclos económicos são períodos propícios à incubação de ideias e à procura de novas oportunidades. Que a vitalidade da nossa restauração, que se afigura nesta rentrée, seja sinal disso e resulte. Mesmo que um ou outro acabe por ficar para trás.

 

Ipsylon

 

 

 

 

Os pratos já não têm nomes complexos como “o galo de pescoço pelado, seu desfiado cremoso em ouriço de massa de aletria” como numa das cartas de 2003, do Valle Fôr. Aimeé Barroyer já os tinha minimizado nos últimos tempos. Mas agora, em casa nova, os nomes ainda foram mais simplificados. “Foie gras, borras de vintage e marmelo”, “Robalo, percebes e aletria”, “Piano, batata-doce e guimauve” são alguns dos pratos do novo menu. Mantém-se maioritariamente a aposta na matéria-prima nacional, com preponderância para os produtos do mar, o que não é de estranhar, dada a envolvente atlântica onde o hotel se insere. Mas não se admire se chegar e a carta for outra. É que Aimeé Barroyer pretende apresentar um menu diferente todos os dias. Com Aimé volta também a trabalhar Joaquim Sousa, um dos melhores chefes pasteleiros  do nosso país, pelo que recusar a sobremesa não será uma falta menor, mas sim um crime de lesa majestade.

 

Preço por pessoa do menu degustação: 75€ com vinhos, ou 65€ sem vinhos

 

Contactos: Hotel The Oitavos, Rua de Oitavos, Quinta da Marinha, Cascais. Tel:21 486 0020 ; theoitavos.com

 

 

Kampai

 


 

 

Uma conjugação entre Açores e Japão não parece à partida a associação mais evidente. No entanto há (pelo menos) dois elementos preponderantes e comuns a ambos os lugares: o atum e o chá verde. Foi a partir deste conceito original que três empreendedores – um engenheiro agrónomo, um produtor artístico e um mestre de sushi (com um passado ligado ao Aya)- se associaram para criar o Kampai. A partir da essência da cozinha japonesa (para alem de vários tipos de sashimi e de sushi) apresentam-se, pratos com matéria prima essencialmente dos Açores – alem do atum e o chá  - como o goraz, o lírio ou a lula gigante; ou ainda, o ananás e licores como o de maracujá.

 

Preço médio sem bebidas : €20/€25

 

Contactos: Calçada da Estrela, 35-37, Lisboa (junto à Assembleia da reública); Tel: 213 971 214 ; reservas@kampai.pt

 

 

Assinatura

 

 

 

 

Henrique Mouro é um dos mais talentosos e Chefes portugueses. Saído da escola de Aimeé Barroyer, Henrique ganhou adeptos no Le Club, em Vila Franca de Xira. Em Julho, de volta a Lisboa, abriu o Assinatura onde desenvolve agora as suas propostas arrojadas, com bases na cozinha e em produtos, portugueses. A apresentação é sofisticada, com diversos elementos no prato e algumas ligações aparentemente estranhas, mas que em geral funcionam bem - chegando por vezes a atingir o sublime. Experimente-se o aveludado de galinha, favo de mel e amêndoa ou o lombo de borrego, figos, uvas e especiarias.

 

Preço médio: 25€ ao almoço; 40€ ao jantar

 

Contactos: Rua do Vale Pereiro, Nº 19  (na esquina com a Alexandre Herculano, Nº 51);  Tel: 21 386 76 96; www.assinatura.com.pt


 

Pedro e o Lobo

 


 

 

Diogo Noronha e Nuno Bergonse têm 26 e 23 anos e encontraram-se no Moo, em Barcelona, o restaurante supervisionado pelos conhecidos irmãos Roca. Diogo já tinha passado pelo Per Se (de Thomas Keller, em Nova Yorque) e Nuno, pelo Ritz e Eleven (Lisboa). Juntaram-se ao Arquitecto Luis Baptista e,  no espaço onde anteriormente funcionou uma galeria de arte com o mesmo nome e o atelier/loja da estilista Lidija kolovrat, abriram em Agosto um dos restaurantes mais belos de Lisboa. Linhas depuradas. Influências nórdicas, muita madeira, cimento, aço e mobiliário vintage. A cozinha é naturalmente contemporânea, em versão ‘sem grandes complicações’. Do actual menu de degustação há ideias ainda a necessitar de afinação e outras que já funcionam muito bem, como a quinoa, com abacate e lulinhas salteadas.

 

Preço médio: 18€/22€ ao almoço; 40€ ao jantar

 

Contactos: Rua do Salitre, 169, Lisboa; Tel: 211 933 719; www.pedroeolobo.pt

 

 

Adaptação do texto publicado originalmente no suplemento Outlook do Diário Económico em 18 Setembro 2010

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publicado às 11:11



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