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Vintage 2008

por Rui Falcão, em 01.10.10

 

Os timings da natureza nem sempre são conciliáveis com o sentido de oportunidade humano. É amargo dizê-lo mas as benesses divinas nem sempre surgem nas melhores circunstâncias e o ritmo da natureza nem sempre acompanha a cadência da sociedade. Um sentimento penoso e algo descrente que, acredito, será compartilhado por alguns produtores nacionais. Porque este é exactamente o drama que se abate sobre o sector mais conhecido e reconhecido dos vinhos pátrios, o único verdadeiramente universal, o mundo do Vinho do Porto. Depois de uma declaração de Vintage clássico no ano passado, sob a colheita 2007, a mais ampla de sempre, aclamada nacional e internacionalmente como estratosférica na qualidade, segue-se agora a declaração de Vintage 2008, igualmente assombrosa e tremenda no potencial.

Duas dádivas sublimes da natureza, que o homem soube aproveitar com mestria… mas que não podiam ter chegado em pior hora, no meio de uma crise internacional que insiste em não nos largar e que não mostra sinais de querer abrandar. Dois anos extraordinários consecutivos, o pesadelo da maioria das grandes casas do Vinho do Porto. Pesadelo porque os principais e mais reputados produtores de Vinho do Porto, as casas de referência intemporal, há muito que acordaram informalmente não anunciar mais de três a quatro declarações clássicas por década, garantindo assim a raridade e elevação que o Vinho do Porto Vintage merece. Por isso, nada pior que duas vindimas sucessivas sublimes, dois anos excepcionais seguidos, impossíveis de serem elevados equitativamente ao respeito que reclamam.

Ainda pior quando tal boa fortuna se abate em tempos de crise, períodos onde o bom senso aconselha a prudência redobrada, quadras pouco consistentes com aventuras espúrias. E se a procura internacional dos Vintage 2007 correu bem melhor que o antecipado, depois de um longo interregno sem declarações clássicas, desde a vindima 2003, não será plausível que o mesmo se repita agora, em tempos conturbados e na sequência de uma declaração impressionante.

Suspeito pois que os Vintage 2008 irão sair desfavorecidos por estas condicionantes, diminuídos pela conjuntura e pelas coincidências do calendário. O que, a ser verdade, seria uma tragédia lamentável, porque 2008 consagrou alguns Vintage extraordinários que, racionalmente, e em tempos normais, seriam aclamados como gloriosos.

Por serem oferecidos depois de uma declaração clássica, a maioria hasteia a bandeira de Vintage Single Quinta, um dos qualificativos mais paradoxais da terminologia do Vinho do Porto, misturando no mesmo atributo português e inglês, numa salgalhada que soa algo afectada. Será pois uma espécie de segunda linha dentro da primeira categoria, na maioria dos casos com uvas provenientes de uma só propriedade, uma entidade mais contida, ao contrário dos anos clássicos onde o lote final engloba uvas de diversas quintas e vinhas espalhadas pelo Douro, aliciando o melhor de cada altitude, de cada sub-região, de cada solo e de cada encosta.

Assim, logo de chofre, em discurso directo e sem rodeios, posso facilmente pronunciar que 2008 é um ano do universo Fladgate, um ano Taylor’s e Fonseca, com a Croft a espreitar na retaguarda com um belíssimo Quinta da Roeda Vintage 2008. Todos parceiros do mesmo grupo, todos consequência da magia, empenho e sabedoria de David Guimaraes, enólogo e ideólogo dos vinhos da casa, uma das figuras maiores do Vinho do Porto. Se os Fonseca Quinta do Panascal e Taylor’s Quinta da Terra Feita mostram garras afiadas, são o Taylor’s Quinta de Vargellas e, sobretudo, o Fonseca Guimaraes que celebram a transcendência do ano. O Quinta de Vargellas mostra-se provocador, tenso e viril, embora frutado e guloso, num jogo de gato e rato entre a potência descarada e a elegância temporal. Os taninos vivos e dramáticos pronunciam uma rebeldia que, num passe de mágica, redundam num final viril mas elegante, fresco e retemperador. O Fonseca Guimaraes, por seu lado, mostra-se incrivelmente certinho e floral, tão bem composto que chega a desconcertar. Depois sobrevém uma boca firme mas tão, tão elegante, adubada por taninos rendilhados e aveludados, sem esconder a potência latente que se esconde nas profundezas do copo. Dois grandes Vintage Single Quinta, capazes de viver décadas no cativeiro da garrafa.

Mas o ano 2008 não vive só de Fonseca Guimaraes e Quinta de Vargellas, obrigando a estender os louvores aos magníficos predicados do Dow’s Quinta da Senhora da Ribeira e ao Quinta do Vesúvio, sempre aguardado com expectativa. E é impossível ficar impassível perante o Senhora da Ribeira, tremendamente convidativo no nariz, floral, citrino e frutado, repleto de cereja preta, cereja ácida, ameixa e mirtilo, tudo embrulhado em chocolate e funcho. A boca surge menos palavrosa, mais austera e contida, de taninos sólidos e final mais seco, rodeado por uma frescura inabalável. Já o Vesúvio apresenta-se precisamente no reverso da medalha, austero e fechado no nariz, por ora pouco acrescentando para além das ameixas pretas, mantendo o recato que se impõe nesta fase tão precoce. Mas depois a boca revela ser possante e pujante, volumosa, fresca e comunicativa. Ou seja, mais um grande Vesúvio em perspectiva!

Tudo isto na declaração 2008, que espero não terminar incompreendida ou esquecida, desamparada à mercê da crise. Porque a qualidade e a personalidade destes vinhos não o consentem!

 

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 18 de Setembro de 2010

 

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publicado às 00:04


2 comentários

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De Miguel Pires a 01.10.2010 às 00:36

Talvez a sombra provocada pelo fenómeno 2007 torne o 2008 mais acessível. O que do ponto de vista do consumidor, talvez não seja uma má notícia.
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De Rui Falcão a 01.10.2010 às 00:50

Sim, a sombra da declaração 2007, a crise anunciada e a "maldição" de duas declarações consecutivas não são factores positivos para o sucesso dos Vintage 2008. O que é uma pena, porque os vinhos são assombrosos!
Mas sim, provavelmente terás razão, do ponto de vista do consumidor 2008 será um achado. Para os investidores/especuladores, já não será a melhor opção...
 

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