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Autenticidade

por Rui Falcão, em 09.10.10

 

A peculiar dicotomia modernidade versus tradição presume ser uma das questiúnculas mais antigas da humanidade, reflexo de conflitos geracionais e filosóficos que abalam e alimentam controvérsias desde os primórdios da civilização. Os argumentos brotam profusamente pelos dois campos, sem conclusão possível, numa contenda eterna entre crenças e mentalidades discordantes. E se o sentimento se assevera transversal a toda a sociedade, no mundo do vinho os seus efeitos são exacerbados pelo peso da palavra tradição, pela relação quase espiritual entre o homem e o vinho, perceptível na função religiosa que os cristãos lhe associaram. Porém, nunca a disputa se mostrou tão acesa quanto hoje, num período de globalização de gostos e costumes, numa época de dúvidas e incertezas, numa era de recessão profunda e de crise existencial de valores.

O vinho, que se enuncia como um sinal dos tempos, consegue retratar de forma fiel os paradigmas de cada época. Nos distantes anos oitenta, o mundo experimentou, pela primeira vez, um período decisivo de globalização e renovação tecnológica, durante o primeiro grande ciclo de expansão mundial do consumo de vinho, até aí praticamente confinado ao conforto dos lares mediterrânicos. Uma época marcada pela explosão e posterior triunfo de uma cultura claramente consumista que premiava a gratificação instantânea, a vitória do individualismo sobre o colectivo. Foi o tempo da afirmação ecuménica dos países do novo mundo, uma internacionalização de gostos e práticas sem precedentes no mundo do vinho. Foi também a hora do abraço decidido às novas tecnologias, à revolução no equipamento das adegas, à descoberta e implementação de muitos dos postulados actuais da enologia moderna. Foi, tal-qualmente, o momento em que os países europeus, mesmo nas regiões mais conservadoras, sentiram os primeiros sintomas de pressão para alterar e suavizar o perfil dos seus vinhos, oferecendo vinhos mais evidentes e directos, mais frutados e prazenteiros que o costumeiro.

Foi a oportunidade da explosão das micro produções, dos vinhos de garagem, dos vinhos de alta expressão, a etapa do exagero de extracção, peso e volume. E também, conformemente, a época de ouro para a afirmação social do vinho, elevando a posse de uma vinha ao estatuto supremo de elevação social.

Hoje, os tempos são substancialmente diferentes! Estaremos, no rescaldo de mais uma recessão global, a entrar numa nova era de expectativas e comportamentos. Para além de uma crescente preocupação com a optimização da relação qualidade/preço, a autenticidade e genuinidade, são alguns dos novos valores capitais do vinho. Vinhos com histórias para contar, feitos por pessoas que têm um rosto, que se empenham e que sujam as mãos. Vinhos autênticos, elaborados com castas locais, com variedades indígenas, que espelhem a diversidade de cada local. Capitaneados por um sentimento de rejeição aos excessos do passado, potenciados pela crise provocada por esses destemperos, o pêndulo começa a oscilar para um estilo de vinhos que tem sido categorizado como “tradicional”.

O desejo de mudança, tal como a resistência à mesma, não são inauditos no longo percurso da humanidade. Muitos dos vinhos que hoje qualificamos como tradicionais já foram em tempos profundamente subversivos e revolucionários. Mas não escondo o meu prazer pessoal neste regresso a vinhos que descrevem de forma mais fidedigna o local de nascença, exsudando frescura e autenticidade, em contraponto aos vinhos mais inflamados e heróicos, mas a quem faltam referências geográficas e culturais.

Os tempos modernos apresentam-se pois de feição para muitos dos vinhos nacionais, súmulas quase perfeitas do estilo por que esta nova era suspira. Vinhos como o Quinta das Bágeiras Garrafeira branco 2008, procedente da Bairrada, nascido de vinhas velhas, mostra exemplar da terra onde nasceu. Vasto de horizontes, com uma boca épica, desafogada e quase mastigável, gigante na dimensão… mas equilibrada e serena, sem fogos-de-artifício inconsequentes. Um branco sério e sem artifícios barrocos, puro e cristalino, capaz de envelhecer em garrafa durante mais de duas décadas. Ou vinhos como o Terrenus branco 2009, nado no Alentejo, arrancado às vinhas velhas da Serra de São Mamede, em Portalegre, imolando um nariz desconcertante pela exuberância faustosa das ervas aromáticas, com um tsunami de coentros, salsa e manjericão a invadir os sentidos, numa onda imparável e avassaladora. Depois, a boca surge fresca e untuosa, levemente mineral, cheia e estruturada, canonizando um branco profundamente original e capaz de arrebatar o coração.

Igualmente único surge o Quinta dos Termos Selecção 2007, um vinho da Beira Interior, de Belmonte, natural das faldas da Serra da Estrela, longe de todas as regiões consagradas, longe de quase tudo. O que não impediu o produtor de sancionar este tinto carregado de personalidade, rude nos taninos, mas vigoroso e cheio de alma, exemplo seguro de uma região sóbria e alterosa. Um tinto puro que gere um lote de castas tão díspares como a Trincadeira, Rufete, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinto Cão, num estilo alternativo que se saúda. Ou mesmo o Doda 2008, acrónimo que personifica a junção de vinhos provindos do Douro e Dão, numa irmandade entre dois dos nomes mais sonantes dos vinhos nacionais, Dirk Niepoort e Álvaro de Castro. Austero e rígido, inflexível e carrancudo, consegue juntar no mesmo copo um lado sensível e suave com uma faceta despótica. Difícil e autoritário, ainda precisa de tempo em garrafa, com a certeza de o poder guardar durante décadas. Um vinho de carácter vincado para os amantes dos grandes vinhos clássicos.

 

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 2 de Outubro de 2010

  

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publicado às 12:36


2 comentários

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De Artur Hermenegildo a 11.10.2010 às 13:23

Grande texto, Rui.

Vou tomar nota de todos os vinhos que recomendas aqui e tentar comprá-los. É que aquilo de que eu mais mequaixo no vinho nacional é precisamente a tendência que apresentam para serem "todos iguais" - com aspas, mas percebes o que eu quero dizer.

Se ainda há por aí quem aposte na originalidade e na autenticidade do "terroir" e das catas eu quero conhecer!
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De Rui Falcão a 12.10.2010 às 01:05

Obrigado Artur.
E sim, penso que percebo o que queres dizer, embora não concorde inteiramente com a afirmação. Apesar de tudo, de entre os principais países produtores, Portugal será mesmo um dos que consegue apresentar vinhos mais originais, autênticos e distintos.
 

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