Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Vindimas 2010

por Rui Falcão, em 23.10.10

 

Este é o tempo por que todos esperam, o momento das grandes decisões, o epílogo de um ciclo frenético que teve início na primavera, depois do longo período de dormência que o Inverno induziu na vinha. Chegou a quadra das vindimas, o instante que marca o zénite do ano agrícola, a conclusão do ciclo normal do desenvolvimento da videira, a data em que a fruta tão desejada é finalmente colhida. Há meses que milhares de pequenos e grandes produtores, espalhados por todo o território nacional, anseiam por estes dias. Há meses que o dia-a-dia de milhares de produtores transcorre na expectativa desta estação, antecipando estratégias e esperança, numa espera nervosa face aos possíveis humores e desamores da natureza. Afinal, um ano de trabalho duro e de investimento pesado pode agora, na recta final, ser comprometido pelo acaso de uma simples chuvada fora do tempo, por uma granizada inoportuna, por uma onda de calor extemporânea, por uma praga ou acidente qualquer. Sofrer até ao último instante é o fado que os produtores repisam todos os anos.

Depois de uma série de três anos atípicos, anos bons mas excêntricos, depois de uma sucessão de vindimas desconformes com os padrões regulares das diferentes regiões nacionais, segue-se agora uma vindima arredia, extremada e inesperada. Por ora ainda é cedo, demasiado cedo para poder avançar com prognósticos definitivos sobre a qualidade dos vinhos resultantes. Como sempre há quem confesse ter os melhores vinhos de sempre a fermentar ou a descansar na adega, quem se lastime por prever ou experimentar um ano miserável… e quem se abstenha de avançar antecipadamente com prognósticos precipitados. Do que todos se carpem, sem excepção e de forma homogénea por todo o território continental, é da estranheza do ano, dos sucessivos avanços e recuos, da dificuldade em gerir uma vindima capaz de deixar muitos produtores e enólogos à beira de um ataque de nervos.

Na memória de muitos vão permanecer os ardis ininterruptos em que esta vindima se enredou e continua a enredar. Sem razão aparente para os acontecimentos, apesar das muitas teorias vigentes, algumas variedades adiantaram-se de forma inoportuna, apresentando graus alcoólicos prováveis intimidantes no final do mês de Agosto, indiciando estarmos perante mais uma vindima apressada e antecipada. Muitos produtores e enólogos tiverem de regressar tumultuosamente de férias, quase a meio de Agosto, face à iminência de uma vindima premente. E assim foi até que se percebeu que muitas outras variedades, algumas delas temporãs, se apresentavam estranhamente atrasadas, muito longe da maturação ideal, impossíveis de ser cortadas tão cedo. Num ápice a maioria parou de vindimar, por todo o país, dando tempo ao tempo, esperando que entretanto a chuva não medrasse. Desde o início de Setembro a vindima tem progredido aos soluços, com interrupções constantes, adiamentos recorrentes, alterações súbitas de reinício de vindima, mesmo em cima do acontecimento, obrigando a uma gestão de adega complicada e dolorosa. Sempre com a secreta esperança de que o calor persista e de que a chuva não arribe de vez para ferrar uma desagradável partida.

Para algumas castas o ano assevera-se assaz complicado, muito longe dos parâmetros desejados de maturação. Imagina-se que algumas nem sequer terão já condições para medrar, face ao arrastar do desenvolvimento neste mês de Outubro. Em contraponto, outras variedades evidenciaram-se nesta vindima, oferecendo resultados e promessas muito além do que regularmente lhes é exigido. Uma evidência mais, para além do que o bom senso já alvitrava, do proveito e necessidade de trabalhar com diversas castas, dos benefícios da arte do lote, da conveniência de se apoiar na imensa diversidade morfológica e genética das castas portuguesas. Quem pôde contar com uma colecção alargada de castas conseguiu obter este ano um salvo-conduto para transformar um ano difícil num conjunto de oportunidades. Quem se auto limitou a três ou quatro variedades, as mais badaladas, sentirá este ano maiores dificuldades para consagrar vinhos memoráveis. Uma lição de vida que os nossos antepassados dominavam como poucos…

Tem sido pois uma vindima desesperante, incrivelmente distendida no tempo, extenuante e desafiante. Uma vindima verdadeiramente capaz de separar o trigo do joio. Porque, depois de numerosos anos de bonança, de anos consecutivos excepcionais pela consistência e qualidade, sem desafios de monta, onde todos beneficiaram de condições sem paralelo para apresentar vinhos admiráveis, segue-se agora uma vindima de gestão arrevesada, onde o timing, a sensibilidade e a capacidade técnica vêm à tona. Porquanto se nos anos amigáveis todos têm capacidade e potencial para compor grandes vinhos, nos anos problemáticos só os melhores o conseguirão. Não será pois difícil perceber que 2010 será uma daquelas vindimas onde a mestria de enólogos e produtores será verdadeiramente posta à prova, capaz de consagrar o melhor e o pior, consoante a arte e o engenho de cada um. Um ano para os enólogos mas também para as melhores vinhas, para os verdadeiros terroir diferenciados, paras as vinhas de excepção que não precisam de maquilhagem na adega para mostrarem o que valem.

Um ano incomparável para fundamentar referências, um ano potencialmente desastroso para alguns fogos-fátuos…

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 9 de Outubro de 2010

 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:13



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

PUB


Os autores

Duarte Calvão (perfil)
Miguel Pires (perfil)

Porquê?

Três autores há vários anos ligados à gastronomia e vinhos criaram este espaço para partilhar com todos os interessados os seus pontos de vista sobre o tema (ver "carta de intenções").

Siga-nos no facebook


Mesa Marcada no Twitter


Confira os premiados e as listas...



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Pub





Calendário

Outubro 2010

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31

Comentários recentes

  • Miguel Pires

    Oops, já corrigido. Agradeço o reparo.

  • Martinho Cruz

    Tudo bem. Vega “Cecília” é que me ultrapassa.....

  • Anónimo

    Esta é uma boa notícia para esta altura do Natal.....

  • Duarte Calvão

    Acho, João Faria, que coloca a questão nos termos ...

  • João Faria

    É verdade que, infelizmente, a mudança ocorrida na...