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Uma contradição admirável

por Rui Falcão, em 07.11.10

 

A velha Europa porfia em manter um debate sem fim sobre as hipotéticas vantagens dos vinhos de lote em prejuízo dos vinhos estremes, numa discussão que se arrasta há décadas… sem qualquer fim conclusivo possível. Essa controvérsia, cuja materialização é ainda mais explícita em Portugal, confina uma das batalhas mais acaloradas entre os principais actores do vinho, dividindo o terreiro entre os que defendem a arte do lote e os que preferem a expressão de uma só variedade, juntando na mesa da controvérsia enófilos, enólogos e produtores. As posições tendem a radicalizar-se, nos dois lados, deixando pouco espaço para um debate sereno e proveitoso.

A visão tradicional, portuguesa e europeia, insiste fervorosamente nas virtudes do lote, no préstimo evidente da junção das diferentes variedades, na divisão mais ou menos equitativa das tarefas… e dos riscos. Aproveitar o que cada casta pode oferecer, combinar as virtudes e minorar as imperfeições, são as vantagens intuitivas da arte do lote. Porque a lógica e a prática indiciam que, se conseguirmos captar e combinar a estrutura singular de cada variedade, numa combinação judiciosa de castas, todas diferentes, todas únicas e todas particulares, o resultado final será sempre maior e melhor que a mera soma aritmética das partes. Como princípio teórico, a afirmação é elementar e de fácil reconhecimento. E sempre, ou quase sempre, tem sido essa a lógica europeia. Em Portugal, o conceito foi mesmo norteado à sua condicionante mais extrema e radical. Por isso, sempre se plantaram vinhas misturadas, de variedades mescladas e entremeadas, associando, por vezes, castas brancas e tintas no mesmo talhão, segundo as tradições intemporais. Com esta prática, aparentemente insana, preenchiam-se e diluíam-se os vícios privados de cada casta, numa agremiação proveitosa para o conjunto.

O raciocínio, apesar de aparentemente inquestionável na argumentação, é incerto nos paradigmas… porque a prática se encarrega de desmentir a sustentabilidade do discurso. Em Portugal, como no mundo! Os exemplos saltam à vista e expressam-se de forma eloquente no modelo dos elegantes vinhos estremes de Chardonnay e Pinot Noir da Borgonha, nos extraordinários e complexos Riesling da Alemanha, Áustria e Alsácia, nos seguros e voluptuosos Grüner Veltliner da Áustria, nos exóticos Sauvignon Blanc do Loire e Nova Zelândia, nos tensos e ríspidos Assyrtiko da Grécia, nos eléctricos Chenin Blanc do Loire, nos terrosos e complexos Nebbiolo do Piemonte. Exemplos mais que perfeitos de vinhos estremes, de uma só casta, conotados com a excelência, com o melhor que se faz no mundo.

Porém, nem todas as castas têm capacidade para trabalhar sozinhas, nem todas são suficientemente completas para poder brilhar a solo. Tal como numa orquestra, há quem tenha talento, quem consiga sobressair e notabilizar-se de forma autónoma… e quem não tenha. Numa orquestra todos os músicos são indispensáveis, todos são necessários, mas nem todos têm competência e subtileza para ser solistas. São poucas as castas no mundo, e em Portugal, com capacidade para vingar isoladas, com vocação para serem solistas, com capital para serem divas.

Por isso a maioria expressiva dos vinhos nacionais resulta de lotes, de combinações de castas, de associações que, em alguns casos, podem chegar ao número incrível de mais de uma vintena de castas agremiadas. Mesmo procurando com afinco, dificilmente encontraremos exemplos francos e fartos de vinhos tintos portugueses excelsos de uma só casta… se nos abstrairmos do modelo clássico da Bairrada, com a casta Baga, muitas vezes discretamente temperada com um pouco do sal e pimenta que outras variedades acrescentam.

Porém, e numa aparente contradição com a lógica reinante nos vinhos tintos nacionais, nos brancos portugueses são os vinhos estremes que melhor se expressam e que melhor traduzem o terroir. Assumindo um raciocínio inverso, nos vinhos brancos será mais fácil e intuitivo recorrer a vinhos estremes que a vinhos de lote para ilustrar a magnificência nacional. O exemplo clássico assenta, invariavelmente, nos extraordinários Alvarinho, na única casta portuguesa que é pedida e identificada pelo nome, naquela que é uma das melhores variedades brancas internacionais. Mas os exemplos não se estreitam no Alvarinho, alargando-se ao conjunto das melhores castas brancas nacionais.

Veja-se o paradigma do Encruzado, casta branca soberana do Dão, capaz de condensar vinhos notáveis e excepcionalmente longevos, como o atestam tão bem os imponentes brancos do Centro de Estudos de Nelas ou os sólidos Quinta dos Roques Encruzado. Mas contemplem-se igualmente os exóticos Loureiro da região do Vinho Verde, vinhos leves e perfumados, tão apaixonantes como os frondosos Quinta do Ameal ou Afros Loureiro. Ou os austeros e graves Bical da Bairrada, tão bem representados na envergadura no Quinta Formal, de Luis Pato. Ou ainda nos tensos e volumosos Avesso e nos citrinos e frescos Arinto.

Uma incongruência espantosa, especialmente quando, numa autoflagelação de difícil compreensão, se desaproveitaram anos a fio, sustentando uma alegada menoridade das castas brancas portuguesas!

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 23 de Outubro de 2010

 

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publicado às 10:27



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