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Restaurante Kampai

por Miguel Pires, em 12.11.10

Cozinha japonesa made in Açores

 

 

Diz-se que no Japão a reputação de um restaurante de sushi é dada pela qualidade do atum que compra, chegando a disputa pelos melhores exemplares a atingir preços absurdos. Por cá, a anos luz desta contenda, diria que a qualidade de um restaurante do género se distingue pela variedade de peixes que oferece, pelo respeito da sazonabilidade do produto, e pela forma como o trabalha.

O que gostei no Kampai, mais do que o conceito  - o cruzamento entre a cozinha tradicional do Japão e a matéria prima, de reconhecida qualidade, dos Açores - , foi poder desfrutar dos requisitos de qualidade que refiro acima, mesmo quando momentaneamente me “defraudaram” as expectativas por não existir um ou outro elemento na carta.  É que o produto fresco de qualidade tem os seus caprichos: o estado do mar pode impedir a pesca ou pelo menos diminuir a diversidade; pode não ser a época alta de determinada espécie; ou, ainda, porque sendo uma iguaria que todos querem, acaba cedo. Por estas razões não pudemos apreciar o gunkanmaki de caranguejo, nem a famosa barriga de atum, por exemplo. Mas felizmente que esse ‘senão’ foi ultrapassado mal chegou o prato de sashimi moriwase que pedíramos e que continha uma boa variedade de pescado de qualidade: fatias finas de atum, goraz, pargo, salmão, lírio, lula gigante e um bem confeccionado picado de carapau, envolvido com cebolhinho e alho francês. O lírio e a lula – espantosa, esta, longe da habitual textura mole - vinham com umas gotas de toranja, o que aportava um toque original. Depois foi a vez de  sushi. Primeiro nigiris chu toro (bola de arroz espalmada com uma fatia do peixe no topo, neste caso da parte semi gorda do dorso do atum): dois na sua versão mais comum, crua; e dois grelhados apenas o suficiente para ‘caramelizar’ o exterior, sem alterar o interior cru. Saboroso e bem executado. Degustamos ainda uns urumakis - rolo de arroz com a alga por dentro  - com salmão e a sua pele tostada, um bom exemplo de complemento de sabores e contraste de texturas.

A sobremesa foi um duo nipo-açoriano. Nada de fusões, simplesmente pedimos duas em separado e provámos em conjunto: uma fatia de um óptimo ananás dos Açores (daqueles doces, mas com a acidez certa) acompanhado de um licor de maracujá (uma ligação curiosa) e também uma bola de um bom gelado de sésamo - uma sobremesa habitual em restaurantes japoneses, que como se sabe estão longe de ser os campeões do mundo nesta matéria.

No que diz respeito às bebidas a carta não destoa mas poderia ser melhor. Chás, como manda a regra; cervejas, entre elas as japonesas Asahi e Kirin em lata; poucos vinhos por região, e a necessitarem de copos melhores – e já agora podiam incluir  alguns espumantes na lista que, como se sabe, acompanham bem sushi (é certo que têm 3 ou 4 champanhes mas o seu preço tornam a refeição proibitiva). Seguimos o conselho de acompanhar com um branco açoriano do Pico, o Frei Gigante 09 - uma agradável surpresa quer pela qualidade muito razoável do vinho, quer pela sua adequação aos pratos.

O serviço foi correcto e quem nos atendeu soube quase sempre do que falava.

Kampai significa ‘à nossa!’. Congratulamo-nos então por isso. Por numa altura em que tem surgido uma série de restaurantes de cozinha pseudo-japonesa, ser reconfortante saber que há quem ainda aposte num trabalho sério nesta área e que procure fazê-lo com um posicionamento distintivo e pertinente, recorrendo a produtos de grande qualidade dos Açores. Por tudo isso, á vossa!

 

 

 

(preço da refeição descrita com cafés e águas: 78€ (2 pessoas)

Contactos: Calçada da Estrela, 35-37, Lisboa (junto à Assembleia da reública); Tel: 213 971 214 ; reservas@kampai.pt

 

publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 6 de Novembro 2010

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publicado às 01:11



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