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Uma visão crua da realidade

por Rui Falcão, em 31.01.11

Muito mais que uma simples bebida, mais que um mero produto alimentar, que também o é, o vinho tende a ser entendido de forma romântica e arrebatada, numa partilha entre uma aproximação visivelmente hedonista e de prazer intelectual, numa visão mais filosófica que racional ou pragmática. Ao vinho continuamos a associar o lazer e o prazer que não defendemos nem associamos a nenhuma outra forma de produção agrícola, apartando-o do mundo mundano da terra para o elevar a um espírito simultaneamente etéreo e intelectual, quase divino no vínculo intimo com a natureza.

Se para alguns o vinho não representa mais que um vulgar apêndice da refeição, um instrumento de conforto material para acompanhar uma refeição, ou mesmo, nos piores casos, um modo directo e económico para a intoxicação, para outros o vinho e a sua fruição anunciam-se como tema central de discussão, esteio suficiente para alimentar conversas intermináveis, para sustentar debates apaixonados, para adubar conversas entusiasmadas. Em redor de uma mesa o vinho incita à tertúlia, propiciando, para quem não perfilha o entusiasmo pelo tema, discussões tão surpreendentes como esotéricas, abraçando teses tão peculiares como diferenças entre diferentes anos de colheita, características de cada variedade, estilos e um sem fim de outras particularidades que nenhuma outra bebida suscita.

Porém, para além de um romantismo latente, o universo do vinho acolhe igualmente, ou deveria acolher, uma vertente mais racional e cerebral, numa visão pragmática e ponderada da actividade, consonante com a razoabilidade financeira de uma gestão rigorosa. Mau grado a imagem idílica e inspiradora do vinho, não nos podemos esquecer que ele é também um negócio… que se exige saudável e rentável para perdurar no tempo. E é aqui, no brutal confronto com a realidade, que muitas das asserções mais poéticas do vinho sofrem o primeiro embate face á crueza das dificuldades das decisões do dia-a-dia.

Infelizmente, são poucos os que conseguem edificar um vinho de forma perfeitamente melodiosa, seguindo os imperativos da natureza, acertando o relógio pelo compasso de cada ano agrícola. São poucos os que têm os recursos e o conhecimento para soltar o vinho de forma genuína e natural. Apesar de vivermos sob a crença de que o vinho segue os caprichos da natureza, que as intervenções são sempre minimalistas, que o timing de cada operação, na vinha e na adega, são determinados por factores naturais, pelo terroir e pelos humores da mãe natureza… raramente assim acontece.

A agilidade financeira, a disponibilidade material, a organização, a experiência… e os imponderáveis, o simples acaso, determinam de forma dramática a qualidade e a viabilidade dos grandes vinhos. Entre a visão poética, mas fantasista, de realizar todas as operações no tempo certo, esperando pelo momento perfeito para cada faina, e a realidade, vai uma monumental distância.

Atente-se, por exemplo, na data de marcação da vindima, momento crucial para o sucesso da campanha, instante preciso e precioso que determina a qualidade da matéria-prima, conjuntura decisiva para a elaboração de qualquer vinho. Sem boas uvas, sem uvas excelentes, não é exequível conceber um grande vinho. Um ou dois dias a mais, ou a menos, e as consequências serão substancialmente diferentes, prejudicando ou enaltecendo o potencial de cada variedade. Porém, na vida real, nem sempre se consegue vindimar a tempo, na altura perfeita para cada casta. Os imprevistos e as dificuldades podem surgir de todos os lados, desde a dificuldade em encontrar a roga para os dias em causa, em encontrar trabalhadores para vindimar naquelas datas, à dificuldade, para quem vindima à máquina, de encontrar uma máquina vindimadora disponível para aquele instante. Mas também, nos anos mais peculiares, a operação pode tornar-se impossível quando todas as variedades parecem querer madurar em simultâneo, redundando no entupimento da adega, na incapacidade estrutural de acomodar tantas uvas no mesmo curto espaço de tempo.

Outras putativas dificuldades poderão advir de dificuldades de tesouraria, drama que, de forma inquietante, afecta tantos e tantos produtores nacionais, sujeitando muitos a uma gestão muito apertada dos activos. Contrariedades financeiras que resultam de dramas transitórios de liquidez de tesouraria ou, nos casos mais trágicos, de dívidas acumuladas que impedem a compra de matérias indispensáveis e corriqueiras para o vinho, produtos como garrafas, rolhas… ou análises químicas periódicas. Para não falar dos encargos realmente pesados como a compra de barricas e demais facturas cíclicas do vinho. Tantos e tantos engarrafamentos são sucessivamente adiados, comprometendo a saúde e grandeza dos vinhos, por simples falta de capacidade financeira para suster o custo de engarrafamento. Quantos vinhos de excelência se têm perdido por falta de capital para comprar vidro e rolhas?

Finalmente, a desorganização, a endémica incapacidade lusitana para o planeamento, para programar datas futuras, para traçar um plano de actividades… que se sabem ser cíclicas, fatais e indispensáveis em determinados momentos do ano. Por evidente desmazelo e desordem o aprovisionamento de rolhas não é garantido, os rótulos não são pensados, as datas de engarrafamento não são acauteladas, obrigando a atrasos sucessivos, a urgências e precipitações, a custos suplementares por imposição de horas extra, condicionando a feição dos vinhos por simples inércia.

Que mesmo assim germinem todos os anos em Portugal tantos vinhos superlativos, é extraordinário. Mas quantos mais poderiam nascer, e melhores, se as condicionantes da epidémica falta de liquidez e, sobretudo, da desorganização tão lusitana, se pudessem eliminar?

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 22 de Janeiro de 2011

 

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publicado às 09:23



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