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Restaurante XL

por Miguel Pires, em 21.02.11

Sexta-feira à noite, grande rodopio junto à Assembleia da República. Não em frente, mas sim ao lado, no 57 da Calçada da Estrela. Há táxis a chegar e a partir e carros à espreita de espaço para parar. Não se trata de um plenário especial para decidir a entrada do FMI mas sim a agitação própria de quem quer largar o veículo e chegar a tempo da reserva de mesa num dos mais solicitados restaurantes de Lisboa, o XL.

Chego no limite da hora, sozinho. Ao verificarem que a mesa não vai ficar preenchida pedem-me para esperar no bar. Deixam-me esquecido até chegar o meu par (sem me perguntarem se bebo algo). Por não ser cliente habitual, temo pelo serviço. O restaurante já está bem composto e em pouco tempo acabará por encher (para o primeiro sitting ). Há pais com filhos adultos, casais em pas de deux, e pequenos grupos de amigos. Há também uma família com crianças de playstation e ipad na mão e um grupo de amigas que comemoram algo (provavelmente apenas o facto de estarem juntas). Não consigo decidir-me entre o que é mais agradável se uns pestinhas agarrados a uma consola de jogos ou se um grupo de mulheres de gargalhada fácil. Por essa altura já fizemos os pedidos. O XL tem fama de ter bons soufflés e bons bifes. Aliás tem fama de se comer bem e ter uma carta extensa de pratos de cozinha de conforto com o seu quê de sofisticação. Pedimos de entradas, ‘patatos skins’ - cascas de batatas fritas, acompanhadas de maionese – e gambas (‘despenteadas’) envolvidas em fios de anjo (massa kadaíf), com um molho de lima. Refira-se a mestria na arte de fritar: cascas estaladiças como num ‘chip’ perfeito, o mesmo acontecendo com os fios que envolviam a gamba e a deixaram suculenta criando duas texturas diferentes. Ainda no capitulo das entradas comemos um polvo à galega, bem confeccionado, embora o polvo não fosse de grande sabor. Nos pratos principais, o soufflé de queijo mozarela e espinafres fez justiça à fama de especialidade da casa. Óptimo no aspecto e no sabor, com os ingredientes bem integrados. O soufflé quando mal feito pode ser intragável dado que a base é  a de um molho bechamel (manteiga, farinha e leite) envolvido com claras em castelo (que depois vai ao forno). O outro prato principal que experimentámos foi uma raia ‘au beurre noir’ e alcaparras, um prato clássico francês, bem trabalhado. Peixe de qualidade, manteiga queimada no ponto certo (i.e: perdoe-se o mal que faz pelo bem que sabe). Já o puré deveria ser mais leve para compensar as marcas que a ‘beurre noire’ deixa na digestão de estômagos mais sensíveis. Nas sobremesas o resultado fica muito aquém dos pratos salgados. No crocante de mousse, a massa brik estava ligeiramente amolecida e teria preferido que o chocolate fosse mais puro. Já a blattertorte (uma espécie de tarte de origem alemã) era seca e solidária como Angela Merkel a abrir os bolsos aos países do sul.

Nos vinhos, um restaurante deste nível deveria oferecer um serviço melhor. A carta até me parece bastante razoável em termos de referências e os preços não escandalizam. Agora não se compreende que venha com nódoas e que alguns preços venham rasurados (ou é preguiça ou descuido, dado que a lista é folha impressa). Uma curiosidade muito sui generis com que nos deparamos foi a data de referencia, ‘200’ nos vinhos brancos. Segundo o empregado, quer dizer: ‘ dois mil e... a colheita mais recente que houver. É que os brancos quanto mais recentes melhores”. Alem de não ser uma verdade universal, quando em breve sair a colheita de 2010 do Soalheiro – para dar o exemplo do vinho que bebemos (que era de 2009) - será que vão mudar a designação para ‘201’?

Em termos de serviço não aconteceu o que temia. O mesmo acabou por ser correcto, em geral, ainda que apressado. Afinal havia uma nova vaga de clientes para a segunda volta.

É de aplaudir quando um restaurante consegue ser bem sucedido, mantendo uma boa cozinha e uma atmosfera acolhedora. Mesmo que para quem (e eu, critico, me confesso) aquela não é a sua praia.

 

gambas despenteadas


patato skins


soufflé de queijo mozarela e espinafres

 

raia ‘au beurre noir’


crocante de mousse

blattertorte

 

Pela refeição descrita, mais cafés e àgua, pagou-se 93€ (2 pessoas)

 

Contactos:

 

Calçada da Estrela 57, Lisboa; Tel: 213 956 118

 

texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 4 de Janeiro 2011

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publicado às 11:46


6 comentários

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De António Moura a 21.02.2011 às 14:32

Muito boa descrição sobre este restaurante, tenho exactamente a mesma opinião. É um local que desperta em mim um sentimento amor/ódio, mas onde reconheço consistência. Podia ser melhor, mas para quê mudar se há quem goste assim e assim, funciona?
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De Miguel Pires a 21.02.2011 às 16:29

Obrigado, António

Como refiro no final do texto o XL não é exactamente o meu género de restaurante preferido, mas não tenho qualquer sentimento negativo. Antes pelo contrário. Acho que é uma mais valia para a cidade. E mesmo em termos gastronómicos introduziu algumas novidades. Mas, ainda dentro deste prisma (o social é o que menos me interessa) acho mesmo interessante que continuem a fazer o que fazem bem, nomeadamente os soufllés . Tanto quanto sei é o único restaurante a tê-los permanentemente na carta.
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De António Moura a 21.02.2011 às 22:28

Mais uma vez eu subscrevo tudo o que afirmou.
Vou raramente ao XL, devido a não ser o tipo de ambiente com que me identifico. Não gosto de restaurantes onde "uns são filhos e outros são enteados".
Mas reconheço que é o tipo de restaurantes que eu gostaria que houvesse mais em Lisboa.
Quando se vai lá sabe-se o que se vai comer, não tem oscilações. Tem clientes.
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De José Tomaz de Mello Breyner a 21.02.2011 às 15:12

Devias ter-me pedido para te fazer a reserva Miguel, ias ver a diferença... Eu sou fã deste restaurante que o meu amigo Vasco consegue ter na berra há mais de 15 anos. Tens de ir experimentar também este restaurante que o Vasco tem em Alcaçer

http://www.valedogaio.com/pt/menus.html

telefona-me que eu faço-te a reserva

Abraço

Zé Tomaz

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De Miguel Pires a 21.02.2011 às 16:30

Zé Tomaz

como deves compreender a ideia era mesmo a de ir como um cliente anónimo. Já tinha ouvido falar do de Alcácer. Fica para uma outra oportunidade

abraço
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De George Sand a 02.03.2011 às 16:03

Gosto do XL. Nunca comi lá nada do que aí está, porque lá só como bifes. Essa coisa da 2ª volta dos restaurantes é que tem que ser muito bem gerida. Estar a jantar e perceber que está alguém especado a olhar para a nossa mesa à espera que nos levantemos é que não.

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