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Restaurante Tempero de Mar

por Miguel Pires, em 24.02.11

Um mar diferente em Peniche


Durante os muitos anos em que passei férias no Baleal a Avenida do Mar, em Peniche, era a zona de eleição para jantar. Nessa altura, em principio de idade adulta, o local não era muito importante. Gostava de espetadas de tamboril e de lulas, de peixe grelhado (em geral), febras e entremeada de porco. E os meus amigos também. Como o menu era praticamente igual em todos os restaurantes acabávamos por escolher o local que tivesse o vinho mais barato e cujo dono tolerasse bem o barulho de um bando de pós-adolescentes ainda de hormonas por estabilizar. Com o decorrer dos anos, já com alguma consciência gastronómica, passei a aborrecer-me com a oferta de mais do mesmo e deixei de frequentar o local.

 

Ao regressar, passados quase duas décadas, verifico que o cenário pouco mudou, o que não é mau de todo. Poderia estar cheio de pizarias e de buffets pseudo-japoneses para turistas. Mas não, a maioria dos restaurantes mantém-se e a oferta de sempre também.

 

Contudo há quem queira fazer diferente. Não como um manifesto anti-grelha, ou anti-cozinha de tacho. De todo. Mas sim porque consideram que existem também outras formas de valorizar a matéria prima local.

 

O Tempero de Mar abriu em Março deste ano pelas mãos de dois irmãos, Carlos e Ricardo Cera. Nenhum deles é de Peniche, mas ambos nutrem uma paixão pela região, o que os fez largarem as suas vidas em Lisboa e viver a tempo inteiro aqui. Carlos é formado em hotelaria e fez a sua carreira na área; Ricardo, passou por diversos restaurantes, tendo sido braço direito de Aimé Barroyer, no Pestana Valle Flor e, nos últimos anos, Chefe da Bica do Sapato.

 

O restaurante tem uma sala única de decoração contemporânea, sóbria nos adereços e nas cores (madeiras claras, paredes brancas), o que o torna aprazível, mesmo no Inverno. As mesas podiam ser maiores, dada a opção por loiça XXL (apanágio da cozinha de autor), mas não afecta as boas condições para o usufruto de uma refeição: copos e talheres adequados, toalhas e guardanapos de pano; cadeiras confortáveis.

 

Tal como acontece com outros Chefes que passaram pelo Valle-Flôr (Henrique Mouro ou Pedro Lemos, por exemplo) a influência do Chefe Aimé Barroyer faz-se sentir, ainda que de uma forma mais sóbria, na apresentação de certos produtos da gastronomia portuguesa menos usuais, como as bohechas de bacalhau, ou peixes tipo a abrótea, o cabaço ou o quelme - aproveitando bem o que o mercado local lhe dá. Ricardo Cera segue ainda duas outras tendências na cozinha de autor, que embora não sendo propriamente novas, adequam-se muito bem aos dias de hoje: por um lado, confeccionando peixes ditos menores como a cavala, ou a sardinha; por outro lado, nos pequenos apontamentos de cozinha oriental que utiliza num ou noutro prato. Gostei muito ainda da forma como puxa pelo sabor do mar, utilizando algas. Já a rúcula, em várias entradas, pareceu-me exagerado.

Pelo que foi descrito dá para perceber que a carta está mais inclinada para o mar do que para a terra. Ainda assim, tanto carnívoros como vegetarianos encontrarão opções neste sector. Para os primeiros há naco de novilho na frigideira, cachaço de porco preto guisado, ou perna de pato assada com tomilho e laranja; para os segundos: arroz de cogumelos, espargos verdes queijo da ilha, ou mil-folhas de legumes assados com couscous. O preço das entradas varia entre os 4€/8€; o dos pratos principais andam na casa dos 14€ (8€ nos vegetarianos) e as sobremesas nos 4€.

 

O almoço num dia de semana, solarengo, começou com um fofo e bem frito mini pastel de quelme (peixe da família do tubarão com tradição na região). Depois, de entrada, houve sardinha de diversas formas: num pastel estaladiço, albardada e, de conserva, em paté com as ovas. Apesar de magra, nesta altura do ano, a sardinha não deixa de ser saborosa quando confeccionada desta maneira, por exemplo. Ainda no capítulo das entradas, outro peixe azul que agradou: a cavala levemente fumada e assada com pingos de soja e servida com algas. Boa conjugação de sabores. Assertivos. Não é um prato para principiantes, nem para quem for muito dado à parte estética (no empratamento). O creme de lagosta suada à moda de Peniche esteve a preceito nos sabores, ainda que a rodela do bicho tivesse oferecido alguma resistência ao dente. Já a salada de raia cozida em azeite feijão verde, tomate, batata e azeitona não me agradou: fez-me lembrar as saladas de atum que me obrigavam a comer em pequeno. E nem a substituição do atum por uma raia bem cozinhada afastou essa memoria – mas não é nada que umas sessões de terapia não cure.

Nos pratos principais, aplauso total para a abrótea em caldeirada de mexilhão: fresca, suculenta, e bem acompanhada de feijocas guisadas. Tudo muito bem apurado e cozinhado no ponto certo. Não se entende porque não é este peixe mais utilizado nos nossos restaurantes. Existe em abundância na nossa costa e o preço é metade do de um robalo selvagem.

O Cabaço (ruivo) abafado servido com algas e com um guisado de batata doce, percebes e poejo esteve bem no conjunto. Já as bochechas de tamboril e camarõestigre fritos com alho foram uma ligeira decepção, ainda para mais sendo o prato mais caro da carta: as bochechas, embora bem trabalhadas, não tinham grande sabor e as gambas estavam passadas demais. Para compensar, a açorda no forno que acompanhava o prato foi um excelente e original complemento.

Nas sobremesas apreciei bastante a Pêra rocha com leite-creme de cabra e gelado de hortelã: uma pêra bêbeda apresentada de forma original, bem guarnecida e em boa companhia.

Em matéria de vinhos a carta é pequena mas ainda assim com várias possibilidades de escolha. Com as entradas foi muito bem um fresco e frutado Quinta da Alorna Verdelho 2009 e com os pratos principais, um branco mais gastronómico, o Luís Pato Vinhas Velhas (2009), uma referência sempre segura.

O serviço foi correcto, discreto e afável.

Estão no bom caminho os irmãos Carlos e Ricardo Cera e a sua pequena mas competente equipa. Esperemos que consigam atrair uma clientela que valorize o seu trabalho e que permita a sustentabilidade do restaurante.

 

 

 

 

Preço médio para uma refeição completa (entrada, prato e sobremesa): 25€/30€

 

Classificação - Cozinha: 16,5 ; Sala: 16,5; vinhos: 14

 

Contactos: Avenida do Mar, nº 30/32, Peniche ; tel: 262 185 545 6380;

temperodc@gmail.com; 

 

texto publicado originalmente na revista Wine de Dez10/Jan11

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publicado às 12:14


9 comentários

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De Severino Sales Diniz a 24.02.2011 às 14:20

excelente valeu!
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De fernando aguiar a 24.02.2011 às 19:57

Consta que vai fechar.
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De Anónimo a 24.02.2011 às 22:59

Gosto muito do Tempero de Mar. Mais de uns pratos do que de outros, como em qualquer restaurante.
Acho que penalizam na localização (no meio de todos aqueles restaurantes "armadilha para turista") e na limitada carta de vinhos.
Espero que não se cumpra o comentário (desejo?) do freguês acima.
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De fernando aguiar a 25.02.2011 às 22:11

Não tenho qq desejo. Tenho pena da falta de apoio que existem para os projectos novos e sei quão difícil é arrancar com um projecto fora dos grandes centros
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De Anónimo a 26.02.2011 às 22:26

É uma pena que o Tempero não seja mais valorizado...
Óptimo restaurante, com um excelente Chef. É um restaurante muito sincero com os clientes, contudo concordo com os pontos negativos já referidos (tamanho das mesas e carta de vinhos um pouco curta) e a localização também não é a melhor, uma vista para o mar...
Aqui por Peniche andam rumores que vai fechar, alguns dizem "Toda a gente sabia que não é restaurante para Peniche" mas ainda irá chegar o dia em que se tenha pena do que se perdeu, ainda por cima numa época em que falamos na gastronomia como produto turístico e numa região em grande crescimento, com todos os resorts que estão aqui a nascer, Marriot, bom sucesso, quintas de Óbidos e royal de Óbidos... É pena que não se protejam os audazes e se defendam os conformados da caldeirada de batatas e do peixe de viveiro...
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De Vicente Themudo de Castro a 01.03.2011 às 17:14

Atenção, não comecem a dizer que já fechou, ou a adiantar-se num serviço fúnebre prematuro.
Por enquanto está aberto e o rumor não passa disso, ainda há pouco falei com um dos sócios e falou-me em boas novidades para breve!
Fui e gostei, espero que se mantenham.
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De Anónimo a 01.03.2011 às 18:53

Faço figas para que não fechem! Mas para acabar com a discussão nada melhor que um dos sócios venha aqui desmentir isso... Não acredito que eles não estejam a seguir este post...
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De Francisco Cunha a 04.03.2011 às 18:24

Tentei marcar para sábado (amanhã) e disseram-me, por e-mail, que estava encerrado.
Francisco Cunha
Enófilo Militante
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De TC a 09.03.2011 às 15:50

Fui lá no Sábado.
Fechado, com uma placa à porta que anuncia "Cedência de Quotas".
Uma pena.
Espero que não fechem e reabram em melhor localização.

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