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Restaurante Casa da Comida

por Miguel Pires, em 21.03.11

Tocamos à campainha e passados uns instantes abrem a porta. Por momentos julgo estar a visitar uma tia rica que desconhecia, dona de uma bela casa junto ao Jardim das Amoreiras. Convidam a entrar e acompanham-nos a uma pequena zona de estar com vista para o jardim. Pelo caminho passamos por uma primeira sala de jantar. Há uma atmosfera meio enigmática nestes espaços de decoração clássica com contrastes de luz entre claro e escuro. O aroma no ar a madeira antiga e resquícios de tabaco, adensa o ambiente e evoca outros tempos.

É nesta sala de estar que nos convidam a tomar uma bebida, antes de nos darem a carta e tirarem o pedido. Quando primeiro prato está prestes a sair encaminham-nos para a mesa, na sala principal. Há alguma solenidade, mas sem rigidez, nem pressas.

 

Na sua história, a Casa da Comida, fundada em 1976, conta com o facto de ter sido um dos primeiros restaurantes de Lisboa a ter uma estrela Michelin. Mesmo quando deixou de ostentar o galardão continuou a ser uma referência na restauração de luxo da cidade, por muito tempo. Aquilo que foi deve-o ao seu fundador, Jorge Vale, apontado como um anfitrião muito especial e um cozinheiro inovador para a época.

Jorge Vale viria a falecer em 2005 numa altura em que o restaurante já deixara as luzes da ribalta e entrara num período de estagnação. Os preços mantiveram-se altos, mas a qualidade foi caindo. Antecipando-se um declínio maior os actuais proprietários viram em Bertílio Gomes um Chefe de cozinha capaz de dar a volta à situação. 

Acompanhei de fora a sua movimentação e temi que não resultasse, dado que Bertilio Gomes entrara apenas como Chefe consultor. Apesar de ter colocado pessoas da sua confiança na cozinha, como é o caso do Chefe residente, Bruno Salvado, que foi seu sub-chefe no VirGula, receei que a sua presença a tempo parcial não fosse suficiente para gerir uma mudança de cultura e de métodos de trabalho entre quem chega e quem está há muitos anos. Bertílio deu uma volta à cozinha e desenhou uma carta inteligente: incluiu uma série de propostas suas a par de outras, os ‘Pratos Tradicão’, que remetem para o passado, como a camarão na frigideira com malagueta e tosta de legumes  ou a coxa de galo com lasanha de  cozido à portuguesa. Em ambos os casos podemos escolher à carta ou optar por menus. O Tradição tem 4 pratos (35€) e o  Degustação, o que escolhemos, 5 pratos (40€).

 

Logo após nos sentarem servem-nos um couvert com bom pão, azeite e manteiga de ovelha, seguido do ‘entretém’ do Chefe: uma simpática mini trilogia composta por uma tosta de salmão fumado com alcaparras; creme de couve flor; e ravioli de presunto e cogumelos.

Somos conquistados logo no primeiro prato com um Capuccino de castanhas com cogumelos e presunto pata negra, aromatizado com óleo de trufa - vários sabores assertivos que se harmonizam quando se misturam, sem que os deixemos de sentir individualmente. Excelente. Depois segue-se o ‘mosaico de polvo’ com salada de batata doce, uma ligação que é já uma imagem de marca de Bertílio Gomes. Acontece que aqui é apresentado de forma diferente. O polvo vem frio, compacto e com uma espessura de meio centímetro. O processo parece semelhante ao do carpaccio: umas boas horas no frio embrulhado em película aderente antes de ser fatiado. Só que ao contrário do que muitas vezes acontece no processo, este polvo tem uma riqueza de sabor que não esperava e a ligação (que já conhecíamos) com a batata doce tépida resulta em pleno.

De seguida chega-nos um sargo assado com legumes salteados, um prato simples onde mais uma vez se realçam os sabores e as conjugações. Há notas com intensidades diferentes. A alcachofra e sobretudo a pasta de azeitona que entremeia os filetes acrescentam a acidez necessária que contrasta com a doçura de elementos como a courgete ou a beringela (com esta a necessitar de ser melhor trabalhada – ou de melhor qualidade - para que não seja rija e esponjosa). No final uma folha de ostra, o twist que faltava.

O prato de carne que se seguiu soava a déjà vu: bochecha de porco com espuma de batata. Ainda para mais a consistência algo liquida da espuma não parecia famosa. No entanto bastou um pequeno pormenor para mudar o curso aos acontecimentos: um berbigão que é escalfado em água do mar (soube depois) e que acrescenta uma intensidade de sabor a um produto que – como sabemos – liga muito bem com a carne de porco.

Por fim a sobremesa, o elo mais fraco numa refeição até aqui de grande nível. “Castanhas de Trás-os-Montes”: um bolo de castanhas com doce das mesmas que passou despercebido; um pudim de castanhas abafado por passas de uvas e um sorvete de funcho com um pedaço desidratado do mesmo bolbo - ambos muito bons - que em teoria se conjugam lindamente com a castanha mas que aqui acabou por tomar conta de tudo. A sobremesa mostrou também um aspecto que deveria ser melhorado: o do empratamento. A cozinha de Bertílio sempre privilegiou o conteúdo à forma. Contudo, tendo em conta o local,  este lado cénico merece ser mais caprichado.

Também o serviço, que em geral foi afável e correcto, precisa de ser mais atento: dois dos pratos não foram explicados  - com a agravante de um deles, a sobremesa, não corresponder ao que constava no menu - e o café foi servido quando ainda não tínhamos terminado o vinho.  

Já neste capítulo é de sublinhar o trabalho efectuado. A carta de vinhos está bem recheada com o que de melhor se produz por cá (nos vários segmentos); tem várias referências de vinhos estrangeiros; e a sua organização e leitura são exemplares, apenas contendo a informação essencial: região, data, marca, produtor e castas. Bebemos um Casa de Santar Reserva 2009 (21€), um branco de inverno encorpado - servido em copos correctos e à temperatura certa - que acompanhou muito bem toda a refeição.

Há refeições que nos sabem bem no momento mas que no dia seguinte já as esquecemos. E há outras que perduram no tempo. A cozinha de Bertílio Gomes pode parecer directa, simples e sem grande glamour, mas só aos mais desatentos. Na verdade o que a memória retém, no final, é uma cozinha de sabores e de conjugações, por harmonia, ou por contraste, como uma orquestra em que se conseguem ouvir todos os instrumentos em sintonia.

 

Cozinha: 17 ; Sala: 15; vinhos: 17,5

 

Preço médio: 30€ ao almoço; 40€ ao jantar. Pela refeição descrita pagou-se 55€/pessoa

 

Contactos:

 

Travessa das Amoreiras, Nº 1, Lisboa; Tel: 21 388 53 76 / 21 386 08 89; www.casadacomida.pt

 

 texto publicado originalmente na revista Wine nº56

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publicado às 08:22


3 comentários

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De Carlos Pinto a 22.03.2011 às 13:31

Boa Tarde a todos,

Antes de mais gostaria de dizer que tenho um grande carinho pela casa da comida. Apesar de ja nao estar la a trabalhar por estar de saida do pais na altura desta reportagem era o escancao la em conjunto com o Sr. Bruno Antunes na posicao de consultor. Passando a frente acho que a Casa da Comida e um restaurante com uma mistica de ambiente como a poucos em lisboa e foi brindado com o Bertilio que e um dos melhores chefes portugueses e tem uma cultura gastronomica impar. ( e desafio a quem tenha algo a dizer em contrario) Continuem o excelente trabalho.

Carlos Pinto
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De António Moura a 22.03.2011 às 19:40

A Casa da Comida é um exemplo para onde todos deviam olhar.
Tudo se conjuga para que a refeição seja um momento de prazer, que os seus responsáveis fazem questão de proporcionar aos seus clientes.
O tempo parece não ter passado por este restaurante, porque tudo o que é eterno se manteve e tudo o que necessita evolução se adaptou.
Tenho que ir lá mais vezes...
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De Tomás Torre do Valle a 23.03.2011 às 19:11

Exmo. Duarte Calvão muito obrigado pelo conselho (http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/354962.html#comentarios) tive um óptimo jantar! E em estilo de brincadeira decidi redigir uma critica ao restaurante. Para não ser crucificado aviso que não percebo nada de vinhos e de gastronomia por isso é normal que esta "critica gastronómica" esteja cheia de erros.
No 100 Maneiras só há menu de degustação, criado pelo Chef Ljubomir Stanisic, e este menu é constituído por dez pequenos momentos (alguns muito pequenos).
O primeiro é já o celebre "Estendal do Bairro" de bacalhau desidratado com molho basco que serviu para me abrir o apetite.
Depois seguiram-se quatro boas entradas começando por um "Shot de creme de couve-flor, com crumble de broa de milho e espetada de pão com presunto e queijo" (da Serra?), o creme tinha um forte sabor a trufa o que era bastante agradável e combinava bastante bem com a óptima mini-mini-espetada.
A "Viera salteada, sobre puré de ervilhas e risotto de vieira marinada, com presunto desidratado" estava ao mesmo nível, duas boas maneiras de apresentar o molusco sendo a salteada a minha preferida.
Ainda melhor foi o "Atum braseado com foie gras, puré de maçã, sementes de sésamo e algas" este prato foi para mim o climax da refeição.
A ultima entrada foi um "Bife tártaro com gema de codorniz e tostas" agradável, tudo bem picado, sem bocados grandes desagradáveis.
O prato de peixe foi uma "Garoupa, sobre rizotto, com ovas e ar de lima" agradável mas sem grande história.
Para limpar o palato foi nos servido um "Shot de sorvete de manjericão com espuma de Gin" combinação de sabores refrescante.
Quando o empregado de mesa disse que o prato de carne seria "Barriga de porco preto sobre puré de cenoura acompanhar com crocante de parmesão e molho tártaro" eu fiquei à espera de uma carne gordurosa e saborosa, mas infelizmente era gordurosa e sensaborona, uma desilusão...
Agora começa a parte que deixa qualquer guloso contente, a das sobremesas, "Gelado de Foie Gras com espuma de amêndoa torrada e pepitas de chocolate" esta pré-sobremesa não é boa, é óptima! Com um sabor e uma consistência espectacular.
Para acabar o empregado serviu-nos, passo a citar: "A melhor sobremesa do mundo, um «Falso Cheese Cake»", não sei se é amelhor sobremesa do mundo, mas este cheese cake liquido é bastante bom.
Para beber segui a recomendação do Sommelier, um branco Neo-Zelandês "Villa Maria Sauvignon Blanc" (5 euros/copo). E tinto foi o "Lybra" da "Quinta do Monte d'Oiro" um Syrah (5 euros/copo).
O serviço era descontraido, um bocadinho lento, mas competente, destaque para o Sommelier que era simpatiquissimo e teve a paciencia para me explicar tudo. O menu por pessoa custa 35€ mas não vem com couvert(2,5€), água (2,5€) e café(1,2€). A refeição custou 99,90€ para duas pessoa.

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