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Um Premier Cru português

por Rui Falcão, em 06.04.11

 

A tradução ou adaptação do termo Premier Cru, ou First Growth, para a terminologia portuguesa não é fácil nem axiomática, assentando na ideia de um vinho clássico e de historial largo, cujo valor e qualidade se vaticinem absolutamente inquestionáveis, de reconhecimento garantido e universal, sem máculas, de consistência irrepreensível, com um percurso histórico facilmente fundamentado e amplamente documentado.

Por outras palavras, um conceito de difícil aplicação à realidade portuguesa, onde não transbordam os exemplos de vinhos com um passado histórico longo e habilitado, que ultrapasse decentemente metade de um século, com uma consistência qualitativa impecável e sem brechas, e onde subsistam um número de garrafas suficiente que autorize provas regulares que permitam aquilatar sobre os predicados do vinho em causa. Condições exigentes que impedem a atribuição do almejado título de Premier Cru à quase plenitude dos vinhos nacionais.

Porém, um vinho português assoma por entre a plebe, reclamando para si, com toda a propriedade, tão cobiçado brasão de nobreza. Que vinho é esse que poderá aspirar a tamanho estatuto de fidalguia? Um vinho discreto mas erudito, um clássico entre os clássicos, um vinho invulgar e desconforme com tudo o que possa representar a rotina e os padrões estabelecidos, o Vinho do Bussaco, o verdadeiro, e eventualmente único, Premier Cru português. Um vinho, infelizmente, pouco conhecido entre os lusitanos, sistematicamente esquecido e ignorado, sem o relevo institucional que o longo historial, e, sobretudo, a incrível qualidade, lhe deveriam proporcionar.

E no entanto, apesar de tão longos pergaminhos e de tão excelsa qualidade, o celeste Vinho do Bussaco não passa de um mero vinho de mesa, o degrau mais humilde da hierarquia vínica portuguesa, fruto da sua posição fronteiriça entre duas das grandes denominações portuguesas, a Bairrada e o Dão, desfrutando da sua localização física para agregar uvas das duas denominações, procurando justapor o melhor de cada uma das regiões vizinhas. Que o Premier Cru português seja um “vulgar” vinho de mesa é um dos maiores paradoxos e imprevistos em que o mundo do vinho pátrio é fértil…

Para o enorme desconhecimento sobre os vinhos do Bussaco, mas também para a sua inegável magia, concorre a circunstância de os vinhos serem exclusivamente vendidos nos hotéis do grupo Alexandre Almeida, integrados na carta dos restaurantes, com destaque mais que evidente para o belíssimo Palace Hotel do Bussaco, a sua casa, um dos hotéis históricos mais emblemáticos e encantadores da Europa, gizado em estilo neomanuelino como pavilhão de caça para o oceanógrafo rei D. Carlos, vítima do regicídio que viria a marcar o desfecho da monarquia em Portugal.

Os vinhos do Bussaco foram criados por Alexandre de Almeida no início do século passado. Com notável pioneirismo realizou inúmeras viagens de estudo aos hotéis mais emblemáticos da Europa e Estados Unidos, e, fruto da experiência de hotelaria entretanto conquistada, introduziu em Portugal alguns dos conceitos e práticas hoteleiras mais avançadas da época. Entre as suas múltiplas reformas insistiu que o Palace Hotel do Bussaco, enquanto grande hotel de luxo, deveria poder oferecer os seus próprios vinhos, a exemplo do que sucedia em casos idênticos pela Riviera Italiana e pela Côte d’Azur, ter a sua própria adega, constituída por vinhos locais com marca exclusiva da casa como factor de qualificação e distinção.

Numa quadra em que os vinhos de mesa engarrafados continuavam a ser a excepção, mantendo-se o vinho a granel como referência, Alexandre de Almeida projectou e materializou os vinhos do Bussaco, patrocinando o consórcio entre as vinhas da família, plantadas no sopé da Serra do Bussaco, e as uvas compradas a terceiros, escolhidas na Bairrada e Dão, transformando a cave do Palace Hotel do Bussaco na lendária adega da casa onde, continuam a repousar em sereno descanso os grandes vinhos do Bussaco.

Presentemente, apesar de persistir um eremítico exemplar de 1917, as garrafas mais antigas à disposição datam de 1923, conquanto não acessíveis ao público. Porém, se se dirigir ao restaurante do hotel, saiba que na carta poderá desfrutar ainda hoje de colheitas tão antigas como 1944 nos vinhos brancos e 1945, o ano do final da segunda guerra mundial, nos vinhos tintos, bem como de muitos outros vinhos, brancos e tintos, das décadas de 50, 60, 70, 80 e 90, até às colheitas mais recentes de 2007, nos brancos, e 2006 nos vinhos tintos.

Será fácil, e quase inevitável, recear sobre a valência dos vinhos mais antigos, sobre a qualidade e viabilidade das colheitas mais remotas, desconfiar sobre o potencial e patamar de envelhecimento de vinhos tão pouco conhecidos e divulgados… mormente dos vinhos brancos, aqueles que, por tradição, levantam maiores incertezas sobre a guarda. Curiosamente, e em muito recente prova vertical nas caves do Palace Hotel do Bussaco, foram precisamente os vinhos brancos que mais me emocionaram e sobressaltaram. Sem qualquer desprimor para os tintos do Bussaco, maravilhosos por si só, verdadeiramente assombrosos em colheitas como 1960 ou 1958, são os brancos que me assombraram de forma irreparável.

Raramente tenho ocasião de poder provar, em qualquer parte do mundo, vinhos tão jovens e vibrantes, tão austeros e dignos, tão precisos e rigorosos como os brancos do Bussaco. Entre dois belíssimos vinhos jovens das colheitas de 2001 e 2000, diferentes no estilo mas profundamente fenólicos, minerais e densos, gigantes na estrutura, e as colheitas muito mais anciãs, de 1956 e 1955, impressionantes na frescura e dimensão, no final explosivo e incisivo, ainda jovens, duros e secos, percebe-se uma constância e continuidade no estilo, uma consistência e regularidade a que raramente os vinhos portugueses podem almejar.

Um ícone dos vinhos portugueses que poderia, e deveria, ser mais utilizado na promoção dos vinhos nacionais.

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 26 de Março de 2011

 

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publicado às 12:16


13 comentários

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De vitor a 07.04.2011 às 01:54

não entendo...

mas a ideia de CRU não tem somente a ver com a classificação da vinha? 1855?

mas os Bussaco não tem origem em nenhuma vinha em particular, pois não?
eram um vinho de lote, feito com uma mistura de vários pequenos produtores entre Bairrada e Dão, ou estou enganado?

estagiado nas caves do hotel, mas as vinhas que lhe dão alma até podiam mudar todos os anos... ou estou enganado?
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De Rui Falcão a 07.04.2011 às 11:19

A ideia de Premier Cru, ou First Growth, tal como surge referida no texto, é entendida internacionalmente como uma forma de distinguir e identificar os vinho clássicos e de historial comprovado, de qualidade absolutamente inquestionável, de reconhecimento garantido e universal, consistente e com um percurso histórico fundamentado e documentado. Entre muitos outros, existe o exemplo paradigmático do Penfolds Grange, continuamente apontado como o First Growth da Austrália.

De qualquer forma, e tentando respondendo à sua dúvida que me parece ser mais que pertinente, no caso francês, especialmente na Borgonha, aí sim, o conceito assenta de facto na identidade de uma vinha e de uma casta. Aí sim, o conceito foi levado ao extremo. Em Bordéus (e estamos a falar sobretudo da margem esquerda, já que na margem direita o ideia só se aplica a St Emilion, e desde 1955) a ideia assenta, como muito bem referiu, na classificação histórica de 1855 que, como penso que saberá, já sofreu adendas. Só que o conceito de vinha, de uma só vinha muito particular, é menos instantâneo em Bordéus. Sobretudo na vinha, que mudou significativamente na proporção das castas plantadas ao longo do último século e meio.

Voltando ao Bussaco, confirmo todas as suas observações, as vinhas e a origem geográfica dos vinhos comprados podiam mudar de ano para ano… e mudavam, curiosamente, tal como o Penfolds Grange.
 
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De vitor a 07.04.2011 às 01:58

não deixando também de ser curioso, que o mais excelso e exclusivo vinho de Bordéus, Petrus (ok, ok, discutível, mas não negável!), não é nem um Chateau nem um Cru também...
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De Rui Falcão a 07.04.2011 às 11:34

Pois, sem dúvida, a qualidade parece-me ser inegável. Será difícil encontrar alguém que afirme o contrário.
Porém, Cru, Grand Cru ou Premier Cru, segundo a terminologia bordalesa, o Petrus nunca poderia ser, por estar em Pomerol, não abrangida por qualquer classificação oficial. O que, no caso do Petrus, Le Pin, Vieux Certan, La Conseillante, Trotanoy, Clinet, e mais um ou outro lhes é absolutamente indiferente.
 
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De Carlos Pinto a 08.04.2011 às 14:14

Se em Pomerol tivessem realmente preocupados com isso tinham criado uma classificação como o fizeram em St Emilion em 1955 e anteriormente em Graves em 1953. A questão é que a reputação do Petrus e outros e tao inquestionavel que nao haveria necessidade disso a não ser que desejem inflacionar ainda mais os preços.

Carlos Pinto
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De Artur Hermenegildo a 07.04.2011 às 11:31

Rui,

Excelente esta lembrança de um vinho que provavelmente pouca gente conhece, dado o facto de só se conseguir beber nos restaurantes da cadeia.

É uma pena que os hoteis não tenham uma loja onde se pudessem comprar pelo menos alguns dos vinhos.
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De Rui Falcão a 07.04.2011 às 11:52

Obrigado Artur. Podes comprar os vinhos no Palace Hotel do Bussaco, sempre das colheitas mais recentes, embora não tenha a certeza absoluta se o poderás fazer enquanto visitante e não hóspede do hotel. Mas tenho quase a certeza que mesmo como visitante poderás adquirir os vinhos, com uma limitação material de 3 ou 6 garrafas. O Brasil é o único país onde podes comprar os Bussaco directamente da distribuidora, mas os preços… ó meu Deus, os preços…
 
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De Vitor a 07.04.2011 às 13:03

A ideia que tinha era de facto muito mais, e apenas, relacionada com a confinada vinha.
A ideia de CRU é talvez o expoente francês do respeito pelo terroir que têm, que por cá não conseguimos, de um modo geral, imho, decifrar.
Não é bem traduzivel. Como traduziria Premier Cru para português, já agora, pela curiosidade?
É estranho, não é?

Já tive a sorte de provar alguns Bussacos antigos. 40's 50's mostraram-se vinhos de facto únicos.
Como marca e prova de consistência não devemos mesmo ter nada parecido. Tenho gravado na memória o 2001 branco, bebido ao lado de um Bágeiras Garrafeira '01 branco, de um Jadot Perrieres do mesmo ano, e foi de longe o mais fresco, aromático e mineral, com uma marca de "garrafa" única que dava um perfir e personalidade de "world-class-wine". Unico.

Então mas por curiosidade, o caso do Mouchão, têm também um historial. Não é uma casa com um tempo de vida tão longo como Penfolds... mas também não anda longe...
Não considera o Rui um Mouchão também um Premier Cru português?
Já provou aqueles antigos, o 1963, um mito já eleito.

Ou não concorda?



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De Rui Falcão a 07.04.2011 às 13:48

Não sei, nem me atrevo a tentar a tradução de Premier Cru. Há expressões que não são traduzíveis, ou, a serem traduzidas, a conversão fica imperfeita. Terroir é outra das expressões que considero ser dificilmente traduzível para português.

Estamos em sintonia completa, o Bussaco branco 2001 é um vinho absolutamente notável, com uma riqueza fenólica impressionante, muito mineral, seco e tenso. E pronto para viver muitos anos. Curiosamente, o 2000 é completamente diferente, sendo um dos Bussaco brancos mais exóticos que tive ocasião de provar, muito mais floral e exuberante que o habitual.

O Mouchão, de que sou confesso e público apaixonado, e apesar da história fantástica, parece-me mais difícil de incluir no conceito. Não só por ter uma história muito mais curta (não nos esqueçamos que o primeiro data de 1954, apesar de haver quem diga existir um Mouchão de 1949), mas sobretudo por causa da ocupação após a revolução de 25 de Abril 1974, que destruiu grande parte das vinhas (quase todas, na verdade) e dos vinhos velhos em estágio. O que não impede que os vinhos que sobreviveram não sem extraordinários em todos os sentidos. E sim, o 1963 é espantoso, capaz de ombrear com a maioria dos vinhos internacionais. Ainda mais espantoso é o 1954, o primeiro da casa, que me deixou perfeitamente perplexo quando tive a sorte de o poder provar… e beber! Pujante e irrequieto, temperamental, imensamente fresco e jovial… mas simultaneamente fleumático e sereno, composto e aristocrático.
 
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De Tomás Vale a 07.04.2011 às 21:13

E o Barca Velha?
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De Rui Falcão a 08.04.2011 às 09:26

O Barca Velha parece-me ser um dos principais, e mais naturais, candidatos ao título de Premier Cru nacional. Pela qualidade, pela consistência, pelo longo historial (apesar de, por só ser editado em anos excepcionais, contar somente com 16 edições), pelas histórias que lhe estão ligadas, pela originalidade e autenticidade do perfil.
Curiosamente, também o Barca Velha depende hoje de vinhas diferentes das vinhas originais.
 
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De Carlos Pinto a 08.04.2011 às 14:38

Depois de todas estas leituras em relação a Crus e Premier Crus estamos a perder-nos um pouco do conceito.
Cru define uma parcela de uma vinha.
No caso de Bordeus que nao e tao visivel como na borgonha dentro dos chateaux uma vinha especifica e classificada como 1er grand cru classe e dai e feito o vinho bandeira da casa, das outras vinhas faz-se 2ºs 3ºs vinhos. Na Borgonha sendo a denominação de topo Grand Cru e vindo 1er Cru de seguida(ao contrario de Bordeus) vem especificada o nome da parcela.
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De nesta a 09.04.2011 às 01:29

French Man...
Só falta convidadares o Sr. Lima, para confirmar as tuas palavras!!!!

Bom tema de blogg....

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