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O lado sombrio do vinho

por Rui Falcão, em 04.05.11

 

O vinho, retrato de paixões mas também espelho de vaidades, desprega notas soltas de festejo e de romance idílico, emprestando uma imagem complexa de serenidade e estatuto, de referência social e de elevação urbana. Ao vinho habituámo-nos a associar um encanto esotérico e repleto de mistério, uma sofisticação bem temperada que soa convenientemente nos círculos mais elegantes e pomposos da sociedade.

De todas as actividades agrícolas, das poucas que por ora ainda subsistem dinâmicas em Portugal, o vinho é a única que extravasa os limites pesados da lavoura, socialmente pouco sedutores, assegurando um estatuto social firmemente cobiçado, numa projecção poética e sonhadora da vida no campo, garantindo uma imagem lírica de uma vida em perfeita comunhão com a natureza… e demais considerações poéticas ou idealistas que a vivência num ambiente ferozmente urbano nos consegue fazer sonhar e acreditar.

Chega-se ao mundo do vinho pela tentativa de preservação e manutenção de um património, de uma tradição familiar, ou, ainda mais prosaicamente, motivados pelo desejo de afirmação pessoal, como remate de um sonho de infância, fundamentados pelo apego a uma vida saudável no campo, ou, mais invulgarmente, por genuína e despudorada paixão. Mas raros são os que chegam ao vinho atraídos e convencidos da racionalidade económica da decisão, imbuídos pela vontade sustentada de afirmação financeira, capacitados pelo desejo de desenvolver um negócio coerente e viável. Dizia-se em tempos, num tom perfeitamente espirituoso, que as fortunas feitas no campo… logo eram desbaratadas na cidade. Hoje o aforismo inverteu-se no princípio activo, servindo as recentes incursões campestres dos novos agrários… para desbaratar as fortunas antes realizadas nos sombrios corredores da cidade.

Porém, apesar das indisfarçáveis agruras económicas e das perspectivas pouco sólidas de retorno financeiro do investimento, o mundo do vinho tem conseguido manter uma capacidade de atracção notável, seduzindo incessantemente novos actores para a peça, empolgando novos agentes para a causa.

Um mundo que teria tudo para ser belo e primoroso, não fosse a pertinácia de um ténue mas determinante detalhe, a ocorrência de a vasta maioria dos intervenientes no sector do vinho se dedicar quase em exclusivo à produção de uvas, condicionados pelo risco e dependentes dos parcos rendimentos proporcionados pela viticultura, vivendo da venda de uvas para terceiros. Conforme a região ou denominação de origem, da vontade pessoal e da estratégia individual, a maioria destes viticultores, por regra pequenos proprietários, senhores de pequenas parcelas de vinha, entrega as uvas na adega cooperativa local… ou vende a sua produção agrícola a produtores próximos, com quem mantêm parcerias comerciais.

E é sobretudo a estes, aos viticultores, que a vida menos sorri e onde o requinte e o glamour inerente ao vinho menos se sente. Porque o tempo não está de feição para quem vive do rendimento da terra, para quem se limita a entregar uvas na adega ou à porta de produtores. Sobretudo quando, face aos alertas repisados de uma crise que já se sente, e face à falta de escrúpulos que os tempos difíceis sempre soltam, os preços propostos diminuem para valores indecorosos.

A miséria toca já tão fundo que, em inúmeras ocasiões desta campanha, da vindima de 2010, a uva chegou a ser paga a dezasseis e dezassete cêntimos por quilo nas regiões do Dão e Douro, valores escandalosos e manifestamente incompatíveis com qualquer concepção de viabilidade económica da actividade. Só a vindima, como acto agrícola per se, deverá custar ao viticultor mais de dez cêntimos por quilo, a que haverá que somar os custos inerentes a um ano inteiro de trabalho, os encargos dos tratamentos preventivos, das despesas com o pessoal, das expensas fiscais e restantes encargos fixos. Para dilatar a calamidade dos preços vergonhosos, acresce-se o remate final do protelamento no tempo dos pagamentos, por vezes com atrasos indecorosos de mais de um ano!

Se a viticultura fosse uma actividade económica racional, a única solução legítima seria o desamparo da actividade e o abandono das explorações, incrementando a desertificação do empobrecido interior rural. Felizmente, ou porventura infelizmente, o estranho mundo do vinho não se rege pelas mesmas regras que norteiam a sociedade civil. A vontade férrea de preservar o legado familiar das gerações passadas é um dos principais motores para a manutenção de milhares de pequenas parcelas de vinha, sem qualquer perspectiva de rentabilidade. É que só mesmo uma paixão arrebatada e uma incapacidade congénita para completar contas poderão conseguir explicar que tantos viticultores tenham confiado as suas uvas a cooperativas ou produtores, sem saber o preço a que estas irão ser valorizadas… e sem prazo ou limite temporal para que os pagamentos sejam satisfeitos!

A culpa até poderia ser da malfadada crise, ampliada e agravada pelos custos de uma vindima tão abundante como 2010. Desventuradamente, a dificuldade é estrutural e especulativa, aliando os problemas do emparcelamento excessivo da propriedade à fraca preparação e cuidado nas vinhas, agravadas pelo excesso de vinho acumulado nas adegas… associados à exploração e inevitável abuso a que se sujeitam os que não têm alternativas válidas para vender as suas uvas. Não, no vinho nem tudo são loas douradas…

 

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 30 de Outubro de 2010

 

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publicado às 12:51


2 comentários

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De António Moura a 04.05.2011 às 16:50

Muito oportuno, relembrar este bonito e triste texto.
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De Rui Falcão a 04.05.2011 às 19:18

Obrigado António. É, de facto, um texto triste, que espelha uma realidade soturna que se afasta da imagem de sucesso ligada ao vinho. A crise, apesar de real e assustadora, infelizmente também serve para encobrir alguns verdadeiros assaltos por parte de produtores que, sob o pretexto da crise e aproveitando-se do desespero de outros, aproveitam para obter vantagens imorais, como preços ridículos e prazos de pagamento a 360 dias… ou mais!
 

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