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Pastel de bacalhau com nata pirata

por Miguel Pires, em 03.06.11

Não é a primeira vez que uma situação como esta acontece e que coloca o dedo na ferida em relação a questões de propriedade intelectual.

Segundo Dalila e Renato Cunha, do restaurante Ferrugem (Famalicão), uma receita por eles criada e registada foi descaradamente copiada e apresentada num programa de televisão. Ler aqui

 

 

Já agora sobre plágios de receitas, e a propósito deste post sobre um plágio descarado a uma critica do David Lopes Ramos, dois links deixados pelos leitores Miguel Santos e Isabel (aqui e aqui). 

Leia ainda:

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:12


10 comentários

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De carlos alberto doria a 03.06.2011 às 14:40

Miguel, estava há dias lendo uma receita original de João da Mata, feita em homenagem ao Imperador Pedro II do Brasil, e me ocorreu: se ela não fosse copiada à exaustão, replicada, que valor teria? Autoria culinária é isso: saber de onde vem. E, me parece, só isso. Abraços
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De Miguel Pires a 03.06.2011 às 16:27

Carlos, obrigado por este seu comentário e obrigado pelo seu belíssimo blogue e-bocalivre* * (e já agora pelo livro, "Com unhas, Dentes&Cuca" de que é autor com o Alex Atala).

Há dias utilizei uma citação de um Chef, num projecto em que estou a trabalhar. Na dúvida, perguntei a um colega, jornalista conceituado, se ele achava que devia revelar a fonte de onde tinha retirado a frase ou se bastava uma justificação, tipo: "segundo afirmações à imprensa". Ele disse-me que por vezes uma frase é citada tantas vezes que deixa de se saber a origem da publicação da mesma, pelo que é aceitável não se colocar a fonte (neste caso o meio onde foi publicado). No entanto, como sabia a origem da mesma, achei que era eticamente mais correcto citar a fonte e acabei por fazê-lo.

Em relação a este caso do pastel de bacalhau com nata o que os autores pretendiam, acima de tudo, é que o alegado plagiador referisse a origem, como é explicito no último parágrafo do texto de contestação:

"Já nos sentimos afortunados por termos escrito um capítulo na história do fiel amigo. Por isso, não nos zangamos se o replicarem, exigimos apenas que o façam bem e que refiram a fonte. Nós, por cá, continuaremos a cozinhar e a comer um “Bacalhau à Brás”, apenas não diremos que o inventamos, muito menos cairemos no ridículo de lhe mudar o nome! "

Em relação à questão do registo como propriedade intelectual ou sobre a questão dos direitos (ou não) de autor, que o Carlos refere e muito bem no seu post, confesso-lhe que não tenho uma opinião completamente formada sobre o assunto.

Não percebo muito de leis mas tanto quanto sei há um período de tempo (50 anos, penso) durante o qual uma patente está protegida em termos autorais.

Mesmo que não seja válido, no caso das receitas, parece-me eticamente mais correcto citar a autoria.

Mas tambem é verdade que chega a um ponto em que determinada receita ou técnica mais recente acaba por cair no dominio público e aí parece tornar-se aceitável deixar de fazer essa ressalva. Isso acontece com o caso das esferificações de Adriá**, da chamada cozinha molecular, por exemplo.

Mas em geral estou de acordo com a sua afirmação: "Autoria culinária é isso: saber de onde vem. E, me parece, só isso."

um abraço
mp


*aos interessados: e-bocalivre* é um dos links das nossas afinidades (ver barra lateral)

** é provável que a Paulina Mata me venha dar um puxão de orelhas por ter sido um dos seus amigos 'moleculares' a inventar a esferificação e não o Adriá. Mas as minhas orelhas são fortes :) (Hervé This, Paulina?)
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De Paulina Mata a 03.06.2011 às 18:54

Tanto quanto sei foi o Adriá que introduziu a técnica na cozinha.
De facto o alginato já era (é) usado há muitas décadas na indústria alimentar para fazer uma variedade de coisas entre elas algumas bolinhas. Mas não era usado na cozinha, nem exactamente com aquela técnica. Muito menos se lhe dava o nome de esferificações. Por isso está correcto dizeres que na cozinha a técnica foi introduzida pelo Ferran Adriá.

PS
Eu sou assim tão mázinha? :-)
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De joão - flavors and senses a 03.06.2011 às 16:44

http://foodblogalliance.com/2009/04/recipe-attribution.php

este post do David é excelente no que toca a referências para a gastronomia..

Infelizmente em Portugal é assim, as pessoas julgam-se donas e senhoras de tudo.. Salvo erro algo deste género ditou o fim da parceria "daquela senhora que cozinha na tv"
com a revista visão.

p.s. não custa nada fazer referências... a educação é sempre bem vinda e ninguém é assim tão absolutamente criativo na cozinha ou outra forma de arte.
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De carlos alberto doria a 03.06.2011 às 23:06

Miguel, obrigado pelas referencias elogiosas. Pois então: no caso das receitas acho que se aplica o direito à autoria no que tange aos "direitos morais", que consistem em reconhecer a autoria sem, contudo, implicar em direitos patrimoniais. Do ponto de vista mais abstrato, uma receita é uma combinação de métodos e processos culinários com ingredientes. Os ingredientes (matéria-prima), em geral é a natureza que os dá; já os processos de trabalho (cozer, assar, etc) são de domínio público. O que resta ao autor? O have-los selecionado e combinado em determinada proporção. Gosto sempre de registrar quem fez esta ou aquela combinação original. Penso, assim, estar respeitando direitos morais. De qualquer modo, um livro de receitas é protegido pelo "direito de cópia", que é outra coisa. Refere-se ao texto, não à "formula" propriamente dita. Senão, o que seria de um livro de química, não é? E um livro de receitas é também, analogamente, um livro de química, diria o mestre Hervé This. Grande abraço!
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De João Diniz a 04.06.2011 às 01:33

Espero que não se macem comigo esses donos do pastel de nata de bacalhau, mas usei essa designação na minha padaria em Setembro de 2009. Fiz, comi, dei a comer mas não me ocorreria dizer que os inventei pois pastéis de nata são coisa antiga e quer levem bacalhau, salsichas ou rábano bastardo continuam apenas pastéis de nata
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De joao a 04.06.2011 às 01:40

Em 2009 quando trabalhava para o chef Luis Baena no hotel Tivoli tinhamos na carta um pastel de bacalhau com nata, se eles afirmam ter inventado à cerca de meio ano está alguma coisa errada.
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De Laranjinha a 05.06.2011 às 11:12

A questão dos plágios é muito sensível e às vezes não se chega a perceber bem se é plágio ou se é uma adaptação. Pelo que se sabe, até agora só foi considerado plágio receitas que estavam tal e qual o original!

Apesar de a minha área de movimentação ser apenas ao nível dos blogues de comida tenho, no entanto, algumas questões que continuo sem resolver:

a) quando é que alguém pode dizer que uma receita é da sua autoria? Há autores de receitas ou não? Ou apenas de técnicas?

b) Se eu me inspirar numa receita, modificar ingredientes, a receita passa a ser minha? E se modificar apenas um? Dois?

c) o que distingue uma adaptação de uma nova receita? A cozinha não é isso mesmo, um laboratório de experiências?

Quando publico receitas, e faço-o praticamente todos os dias, procuro referir as fontes, por um lado acho que moralmente é assim que devo agir e por outro lado, penso que enriquece o que faço, abre possibilidades a quem me visita de descobrir outras versões da receita que apresento. Mas nem toda a gente pensa assim! E mais, ninguém quer saber se a receita é de A ou de B ou se é copiada, plagiada, ou o que for. Gosta, passa a ser dele.
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De hmm a 06.06.2011 às 23:12

Uma receita plagiada por um chef é tão boa, igual, saborosa, como quando plagiada por outro chef? Ou a arte de cada um é que faz a diferença?
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De Suzana a 07.06.2011 às 11:37

Tão sensível quanto pode ser este tema, parece-me que é sobretudo da reflexão e discussão que se pode criar algum sentido de ética e responsabilidade. E já agora bom senso. Mesmo que as receitas não estejam abrangidas por direitos de autor, são as referências que podem conferir valor / credibilidade ao trabalho (mesmo para quem publica receitas em canais abertos, por exemplo nos blogues). Há naturalmente uma diferença entre plágio de um texto ou de uma imagem e a replicação de uma receita. Mas será assim tão difícil colocar de onde surgiu a ideia?

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