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Darwin's Café

por Miguel Pires, em 07.06.11

Espaço incrível, comida razoável 

 


A primeira surpresa foi logo ao telefone: "mesa para duas pessoas? Penso que já não tenho, mas deixe-me ver. Só um momento." Deve ser estratégia para tornar o local mais apetecível, pensei. Instantes depois: "Disse para as 14h? Sim, afinal consigo".

A segunda surpresa: não era número, era verdade. Apesar dos poucos meses de vida e de ter aberto de forma discreta (no final de Fevereiro) este restaurante da Fundação Champalimaud, com mais de 150 lugares, estava cheio num dia de semana ao almoço.

A terceira surpresa: o espaço impressiona. Pela dimensão, pela altura do pé direito e, sobretudo, pela solução de arquitectura e decoração. As alusões a Darwin, à sua época e às suas obras são evidentes e integram-se na matriz contemporânea do edifício. Após o hall de entrada, predominam formas circulares, nas mesas grandes onde se sentam 6 a 8 pessoas, e no magnífico bar de apoio. Depois, num plano inferior, uma área maior com mesas normais e cadeiras confortáveis. No exterior, há ainda uma esplanada que não estava a funcionar.

A quarta surpresa: independentemente do local há a vista deslumbrante sobre o Tejo e as colinas da Trafaria, na margem sul.

Em tão boa e surpreendente atmosfera restava esperar que a comida estivesse à altura destes argumentos. O menu é bastante completo, entre propostas mais simples e outra mais elaboradas de "cozinha internacional de autor", segundo a definição do responsável pela cozinha, António Runa, antigo Chef do LA Caffé Avenida, cujos proprietários gerem também este Darwin’s Café. Na actual carta de almoço constam 32 pratos, sem distinções entre entradas e principais. Cremes, saladas, gnoccis, folhados, risottos, massas, pratos de carne (6) e de peixe (4). Ao jantar os preços são ligeiramente mais elevados e há mais pratos elaborados (ainda que se mantenham alguns do almoço).

Começámos pelos cremes: simples e agradável o de bacalhau com lascas de parmesão; menos interessante, pelo excesso de acidez, o de tomate com pasta de azeitonas pretas e anchovas (esta aposta pode ser interessante nos próximos tempos quando o tomate de época, bem maduro, for abundante).

Nos pratos principais os escalopes de tamboril panados sobre legumes salteados não convenceram. Embora de polme razoável e ponto correcto, não me parece que o tamboril seja a melhor solução para este tipo de fritura, dada a textura demasiado firme. Os legumes, em juliana, pareciam mais cozidos do que salteados, ainda assim melhores de sabor do que dava a entender a sua cor desmaiada.

O segundo prato principal, o risotto preto com pato confitado e mozzarella, era agradável no palato, apesar da apresentação de susto (apenas se vislumbrava um volume de arroz preto cremoso e uma haste de endro). O pato está lá, desfiado, ainda que não se veja e a ligação do arroz com o queijo mozzarella e manteiga (presumo) acaba por ser mais leve do que aparenta. O que não entendo é a razão deste prato. Se o arroz preto, devido à tinta de choco, não resulta em termos de apresentação e se o seu sabor quase não se sente (e ainda bem pois não parece que choco e pato resultem em conjunto) então porquê esta solução? Para ser diferente?

A sobremesa acabou por ser o melhor momento da refeição: um leve e equilibrado pudim de pão, com molho de goji e molho de café.

No que se refere a vinhos a carta não sendo extensa tem por onde escolher. Os preços são os habituais em Portugal (a tender para o carote), os copos, adequados e o vinho escolhido, o Quinta do Cidrô Sauvignon blanc, 2009, foi servido na temperatura correcta.

No serviço, notou-se alguma descoordenação, o que se aceita, dado estarem ainda em fase inicial e, também porque os empregados são correctos no atendimento.

A juntar aos quatro factores que surpreenderam gostaria de poder ter enunciado um quinto, a comida. Infelizmente neste campo, pela experiência, os argumentos são apenas razoáveis. No entanto vale a pena a visita. O espaço é fantástico e ainda assim a relação preço qualidade (pelo menos ao almoço) acaba por não ser excessiva.

 

 escalopes de tamboril panados sobre legumes salteados

 

 risotto preto com pato confitado e mozzarella

 

pudim de pão, com molho de goji e molho de café
 

(preço médio para refeição completa de entrada prato e sobremesa e bebida: 20/25€, almoço; 30/40€, ao jantar. Pela refeição descrita, com mais uma água e dois cafés pagou-se: 63€, 2 pessoas)

 

Contactos: Avenida de Brasília, ala B - Fundação Champalimaud, Lisboa; Tel: 21 048 02 22; www.darwincafe.com 

 

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 3 de Junho de 2011

 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:04


3 comentários

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De Dinis Vieira a 07.06.2011 às 17:18

Parabéns pelo vosso blog.

Nomeei-o como vencedor do 1º Bloscar do Gangster, no blog "Gangster do Colarinho Multicor".

Visitem e comentem.
Mais uma vez, parabéns pelo bom trabalho.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.06.2011 às 19:01

Ora..ora..

Ora temos aqui uns raccord com a time-out nº190 ou será o mesmo critico com um nick diferente....?

Seja como for, gosto de ambos.

O pensador
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De Miguel Pires a 09.06.2011 às 03:17

Caríssimo pensador

o amigo é um brincalhão. Podia ter essa capacidade de conseguir escrever duas coisas diferentes e em estilos muito distintos, mas lamentavelmente não tenho.

seja como for, obrigado pelo comentário

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