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Restaurante Mesa

por Miguel Pires, em 20.06.11

Na casa de Luís Américo

 

 

Em Outubro do ano passado tive o privilégio de ser convidado para um almoço na adega de Luís Pato. O conhecido produtor bairradino juntara um grupo de jornalistas e amigos para comemorar os 30 anos do seu primeiro vinho (Luís Pato, 1980, tinto) e convocara três Chefes de cozinha de três países que tiveram um papel importante na sua afirmação enquanto produtor. Do Brasil veio Ivo Faria, do restaurante Vechio Sogno, de Belo Horizonte; do Canadá, Marino Tavares, do Café Ferreira, de Montreal; e, de Portugal, Luís Américo, do restaurante Mesa, do Porto. Dos três Chefs presentes o português foi o que mais impressionou com o seu bacalhau negro com falsa cabidela de cebola caramelizada e paiola de Barrancos e, de sobremesa, com um original fondant de abóbora.

Apenas conhecia Luís Américo da imprensa e de uma ou outra apresentação, pelo que estes dois pratos aguçaram-me o apetite para ir o seu restaurante.

Uns meses mais tarde, no Porto, apanho um táxi e peço que me leve a uma morada em Nevogilde. O taxista anda às voltas até me deixar numa zona habitacional. Estranho, acho que estou enganado, mas não dou parte fraca. Pressinto o engano na morada mas quando estou prestes a abandonar o local reparo na placa do restaurante e na indicação, “4º andar”. Quarto andar de um prédio de habitação com uma clínica fisiátrica num dos pisos (devem ser animadas, as reuniões de condomínio). Entro no elevador e subo. Já passam das 14.00h. O espaço não parece exactamente um restaurante, mas também não se assemelha a propriamente uma casa particular. No hall de entrada há uma mesa com castiçais e um enorme livro antigo de receitas. Há esquerda é a sala de estar, com sofás, poltronas, mesas baixas e um bar de apoio. À direita, a sala de refeições. Mesas bem postas, à distancia correcta, espaço confortável e amplo. Predominam as cores suaves em tons de pastel. Misturam-se peças e adornos rústicos com clássicos criando uma atmosfera distinta e aconchegante. Conduzem-me a uma mesa junto à janela donde vislumbro oParque da Cidade e o mar. Os dias ainda estão frescos e por isso não servem na varanda, mas consigo imaginar o quão agradável deve ser em noites amenas de Verão.

É Sábado e ao almoço funciona a táctica 4x4x18, i.e: menu fixo de entrada, prato, sobremesa e copo de vinho, com quatro opções de cada, por 18€ (ou 15€, caso se prescinda da entrada ou da sobremesa). Há pratos que denotam uma cozinha de matriz regional com um toque contemporâneo, outros mais criativos e ainda um ou outro mais trivial. Os vinhos variam entre o Castelo d’Alba branco, o Esteva (tinto) e o Duque de Viseu, Dão, branco e tinto. Opto pelo ultimo, com um pequeno lamento por não ter uma opção (mesmo pagando um pouco mais) de um patamar acima. Escolho de entrada um creme de  aipo com queijo de S. Jorge. Belíssimo creme aveludado. Perfeito equilíbrio na conjugação de sabores entre o queijo (em lascas), o aipo bola (do creme e em pequenos pedaços) e, aquilo que me parece ser caldo de galinha. O prato principal é um cachaço de porco preto sobre couve lombarda e enchidos, numa espécie de eixo norte/sul. O excesso de forno acaba por prejudicar a carne, que quando cozinhada a preceito desfaz-se na boca. Ainda assim, o conjunto merece aprovação, tal como a sobremesa que encerra o almoço, uma tarte tatin bem consumada e saborosa. Mesmo com o leve incidente do cachaço, fico bem impressionado com o nível da refeição. Qualquer um dos pratos poderia fazer parte de um menu de ‘fine dining’, o que faz do Mesa uma excelente opção de almoço, sobretudo, se tivermos em conta os 18€ que se pagam.

Volto à noite com o intuito de conhecer a oferta ao jantar. Quando chego a sala já está bem composta. Vêm-se vários casais e pequenos grupos de amigos tornando o ambiente mais jovem e menos familiar.

Opto menu de degustação, afinal esta é a forma ideal que um cozinheiro dispõe para mostrar a sua cozinha. A carta de vinhos não é muito extensa e predominam as referências nacionais e estrangeiras da Sogrape. Está organizada por tipos de vinhos (Espumantes e champanhes; brancos, verdes e roses; tintos; e generosos) mas, depois, segue uma tendência de os separar por estilos e não por regiões (ex: “Vinhos brancos directos leves e frutados sem ou com pouca madeira”; “Vinhos frescos, vegetais, florais e frutados. Encorpados. Perfeita harmonia com a madeira”). Cada vinho tem a indicação do produtor e das castas, mas não o ano de colheita. A copo há mais possibilidades de escolha do que ao almoço, mas todas dentro do segmento baixo, médio.

O jantar inicia-se com salmão. O peixe é curado e não fresco ou fumado. O método, a que os nórdicos chamam gravadlax, consiste, geralmente, em fazer uma cura durante três dias em açúcar, sal, ervas e especiarias. Nesta versão de Luís Américo os sabores são suaves, mas presentes, e a textura, sedosa. Ao serem combinados com laranja, sésamo e uma maionese ligeira de chalota e funcho, formam um conjunto harmonioso e fresco.

Os dois pratos seguintes parecem-me demasiado banais para pertencerem a um menu de degustação num restaurante de cozinha de autor: carpaccio de novilho com trufa, rúcola selvagem e lascas de parmesão e folhado de queijo de cabra em cama de  maçã. Ainda assim Luís Américo fá-los bem e procura dar um toque diferente (no primeiro caso, ao temperar o carpaccio com óleo/azeite de trufas – não é propriamente uma novidade, mas resulta; e, no segundo caso, ao saltear a maçã em azeite e juntando-lhe um toque de baunilha no fim.

Com os três pratos seguintes voltamos às criações com base na cozinha regional. São pratos consistentes, com elementos sempre bem conjugados e com alguma criatividade. Primeiro, as lulas recheadas com alheira sobre puré de cenoura. Bem vista a ideia dos cornichos crocantes das lulas, a quebrar o monopólio de texturas macias dos restantes elementos. Depois um lombo de bacalhau, bem confeccionado, daqueles que os capítulos se soltam ao pressionar levemente. É servido com um aveludado do seu caldo, confit de abóbora e boletos. Por ultimo, a “vitela de comer à colher sobre farrapo-velho de alheira”. Nome curioso para uma bochecha de vitela (por vezes, os restaurantes fantasiam na designação de certos pratos para evitarem que sejam devolvidos apenas porque o nome não agrada). Não é publicidade enganosa. De facto a peça tinha sido confitada o que lhe conferiu maciez suficiente para se poder prescindir da faca.

Ao longo da refeição reparo que uma em cada duas pessoas pede o mesmo prato. O empregado explica-me que é o best seller da casa, lombo de bacalhau em pão de azeitona, com o qual Luís Américo venceu o concurso Chefe Cozinheiro do Ano de 2004. Fico curioso mas já não há espaço. É tempo de abrir o compartimento doceiro. Primeiro, doce de abóbora e requeijão em mousse. A conjugação clássica que resulta sempre bem, sobretudo, quando a matéria prima é boa e bem trabalhada, como é o caso. Depois, diferentes texturas de chocolate e sorvete de cenoura e baunilha, uma conjugação invulgar para terminar em beleza.

No final peço para me servirem o café na sala de estar que funciona também como sala de vício. Solicito a conta e despeço-me da equipa que me tratou com eficiência, simpatia e profissionalismo. Para desmoer caminho em direcção ao mar, antes de pedir a um taxista que me devolva ao hotel.

Esperava que a cozinha de Luís Américo, no Mesa, fosse um pouco mais arrojada, sobretudo, no menu de degustação. Contudo foram duas boas refeições que demonstraram que Luís Américo é um Chef seguro, imaginativo e com as bases certas. Talvez o facto de ser proprietário do seu próprio espaço lhe roube tempo para assumir mais riscos. É pena porque talento e conhecimento perece que não lhe faltam.

 

Cozinha: 17 ; Sala: 17; vinhos: 16

 

Preço médio para refeição completa (entrada, prato e sobremesa) com vinho: 18€ , ao almoço; 40€, ao jantar. (Pela refeição descrita pagou-se 18€, ao almoço e 55€ ao jantar)

 

Contactos: Rua D. Domingos de Pinho Brandão 75 4º andar, Porto; Tel:226169255; www.amesa.pt 

 

Texto publicado originalmente na revista Wine de Maio

 

 

 

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publicado às 02:05



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