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Restaurante Bica do Sapato

por Miguel Pires, em 30.06.11

A idade fez-lhe bem


Há pouco mais de uma década havia em Portugal um ambiente de grande optimismo. A euforia da Expo 98 ainda se sentia e ganháramos a organização  do Euro2004 aos nossos vizinhos espanhóis. Bruxelas continuava a enviar dinheiro a jorros, a Bolsa criava fortunas e em conjunto com o crédito fácil houve uma sensação de prosperidade na classe média.

Em Santa Apolónia, com a grandeza do Tejo em frente, nascia a Bica do Sapato, um projecto ambicioso com nomes de peso: José Miranda e Fernando Fernandes, do Pap’Açorda; Manuel Reis (que um ano antes inaugurara, ao lado, o Lux); Joaquim Figueiredo, um dos melhores Chefs de cozinha portugueses; e, como cereja no topo do bolo, o actor norte-americano John Malkovich - que só por si ajudou a que o fenómeno tivesse repercussões internacionais.

No entanto muita dessa euforia ajudou a criar um sentimento de deslumbramento fácil mascarado de falsa urbanidade, o que, a par da pobreza de espírito do costume, causou um misto de admiração, desconfiança e inveja em relação ao projecto. Quem se interessava com a vertente mais gastronómica desconfiava do aparato mas tinha curiosidade no trabalho de Figueiredo (e também no de Paulo Morais, no sushi bar do andar de cima). Como seria de esperar, a junção de públicos com gostos e objectivos diferentes e as falhas normais de uma máquina por afinar teriam que fazer ‘tilt’. Nada que tivesse perturbado José Miranda e Fernando Fernandes habituados a lidar com este tipo de situações – ainda que em muito menor escala -  no Pap’Açorda. Joaquim Figueiredo saiu passado pouco tempo e, mais tarde, Fausto Airoldi, que o substituíra. Desde aí a Bica do Sapato teve sempre Chefs de perfil discreto.

 

Dos três espaços, tinha-me dado bem com o sushi bar (até Paulo Morais sair) e razoavelmente com a cafetaria e com o restaurante principal. Daí a curiosidade em saber o que iria encontrar passados vários anos sem lá voltar.

Marcámos para o restaurante, um espaço amplo que no essencial mantém o espírito (assente na decoração com objectos e mobiliário contemporâneos). A ementa pareceu coerente, interessante e equilibrada. Uma mistura de pratos de cozinha portuguesa de matriz tradicional actualizada com outros de influências internacionais.

 

O jantar iniciou-se com um agradável entretém de boca: uma cavalinha panada com um toque de amêndoa. Depois, de entrada, escolhemos o recheio de sapateira no tacho e a codorniz recheada e assada com cepes e foie gras – duas propostas vencedoras. O recheio de sapateira foi uma agradável surpresa. Barrado nas tostas com as fatias de bom pão (de São Brás) levemente torrado e um pouco da manteiga de algas - uma aposta muito bem conseguida que acentuou o sabor a mar – apreciou-se de forma compulsiva. Mais clássica e complexa, mas não menos aprazível, a codorniz recheada e assada com cepes e foie gras, acompanhado de trigo sarraceno e espargos salteados. Nos pratos principais, o naco de garoupa braseada em cama de espinafres, revelou um peixe de qualidade, embora prejudicado por algum excesso de cozedura.  Muito bom, o xerém de amêijoas e coentros, acompanhamento que dá substância ao conjunto e que combina sempre bem, quando bem feito. O último prato foi o cabrito da Beira no forno, arroz de carqueja e cogumelo do cardo. Carne macia bem trabalhada e tempero no ponto. Pena o arroz, demasiado gorduroso, a tornar o conjunto algo enjoativo, facto que nem os espinafres ligeiramente salteados conseguiram contrariar. Depois, de sobremesa, aquilo que mais parecia outro prato principal, pelo tamanho desmesurado e densidade do conjunto: bomba, perdão, bolo de chocolate cubano, merengue e trufa de whisky. Três colheradas a cada um e uma dentada na trufa serviram para atestar a qualidade e (sobre) saciar a gula.

Em matéria de vinhos a carta esteve adequada, com preços razoáveis e serviço correcto. A refeição foi acompanhada com o Herdade de Grous branco 2009 (17€), um vinho escolhido em  função dos primeiros pratos e que naturalmente não aguentou o cabrito, a pedir um tinto com algum músculo.

Por último, o serviço foi fluente e prestado com correcção, simpatia e profissionalismo - uma agradável surpresa, dadas as experiências menos positivas em anos anteriores.

Passados 12 anos a Bica da Sapato mantém-se fiel ao conceito inicial. Com uma maturidade e consistência assinaláveis.

 

 recheio de sapateira no tacho

 

naco de garoupa braseada em cama de espinafres suados, xerem de ameijoas e coentros na caçarola. 


 Cabrito da Beira no forno, arroz de carqueja e cogumelo do cardo

 

Bolo de chocolate cubano com merengue e trufa de whisky Famous Grouse 

 

(Por esta refeição, com duas águas e dois cafés, pagou-se 121€, 2 pessoas). 

 

Contactos: Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Cais da Pedra a Sta Apolónia, 1900; Tel: 218810320 /917615065

 

nota: estas fotos servem apenas como uma referência em relação aos pratos consumidos (e não foram publicadas no jornal). As condições em que foram tiradas não permitem retratar o prato com fidelidade. 

 

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 17 de Junho de 2011

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publicado às 09:29


6 comentários

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De joao ceppas a 01.07.2011 às 15:26

esta caneta continua de agradavel leitura
parabens
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De Artur Hermenegildo a 01.07.2011 às 17:49

Estive lá há 12 anos! Nunca mais voltei, devido sobretudo à minha lembrança do serviço - um conjunto de jovenzinhos mal-encarados que nos atiravam com os pratos e nos faziam sentir que faziam um enorme favor por nos estarem a servir a nós, seres humanos normais.

Talvez esteja então na altura de voltar.

Ao sushji bar fui algumas vezes, não sabia na altura quem era o Paulo Morais. Gostava de ir lá almoçar ao sábado, disfrutar do sushi e da vista. Até que a gestão do restaurante deixou de abrir o sushi bar ao almoço, e nunca mais voltei.
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De Dinis Vieira a 02.07.2011 às 17:36

Compreendo a que te referes. Já tenho ido a restauração em que as pessoas que servem à mesa têm uma presença altiva que incomoda-me pessoalmente. Não fica bem desdenhar os clientes. Por vezes fazem-no por arrogância, noutras é somente um mecanismo de defesa ainda que subconsciente. Mas incomoda e fica mal.

No fundo, resume-se a um jogo de regras de choque entre classes, mesmo que não se apercebam. Qual a cor do colarinho deles? Respostas facultadas no blog "Gangster do Colarinho Multicor". Até já.
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De Rui a 06.07.2011 às 02:37

Choque entre classes?! Assisti mais vezes a clientes desrespeitarem que trabalha do que o contrário....

Choque entre classes?! O que a carteira tem a ver com civismo?!

Pfffff......

Choque entre classes é para rir Sr. Doutor....
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De Miguel Pires a 04.07.2011 às 23:38

Artur,

Fui lá uma semana depois almoçar à Cafetaria (depois de já ter escrito mas antes deste texto ter sido publicado) e, na esplanada (pelo menos) serviam sushi. Também gostei da carta do sushi bar e fiquei com vontade de voltar é q o espaço é mesmo agradável e o serviço voltou a ser correcto.

Era precisamente a sobranceria do passado que me afastou muito tempo de lá (tal como do Pap'Açorda )
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De luisfaria a 06.07.2011 às 02:33

Que saudades do Chef Ricardo Cera e do Chef Miguel que saiu à tão pouco tempo, felizmente penso que se encontram a trabalhar juntos, coisa boa estarão a fazer...
Os chef's discretos que refere foram bem melhores para a bica do que o tão badalado Airoli... Que tem deixado um rasto de alguma destruiçao (financeira) por onde tem passado, para além da besteira que fez no CCA... Será Chef Airoli da Tasmania?!

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