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Restaurante Yakuza by Olivier

por Miguel Pires, em 20.07.11

Japa by Agnaldo

  

 

Olivier da Costa, ou apenas Olivier, como é conhecido, é uma das mais controversas figuras da restauração de Lisboa. Idolatrado por uns, desprezado por outros, é mais um criador de conceitos do que propriamente um Chef de cozinha. Goste-se ou não da figura, o certo é que os seus restaurantes estão quase sempre cheios: do Olivier (Rua do Alecrim), ao luxuoso Olivier Avenida (Hotel Tivoli Jardim), passando pelo informal, e mais recente, Guilty (Barata Salgueiro). Curiosamente o Yakuza, o seu projecto mais interessante em termos gastronómicos, começou por não ser bem sucedido no local inicial, no piso inferior do Tivoli Fórum. Felizmente foi-lhe dada uma segunda oportunidade, passou para o outro lado da avenida e ocupa desde há algum tempo um espaço do Hotel Tivoli Jardim, com ligação aberta para o Olivier Avenida, a quem pede emprestado alguns recursos (as cartas de vinhos e de sobremesas, e alguns empregados).

Mas se Olivier é a imagem, o brasileiro Agnaldo Ferreira, antigo Chef do Sushi Lounge, em Santos, é a alma gastronómica deste espaço de cozinha japonesa, clássica e de fusão.

Entra-se pela porta do Olivier Avenida e ao meio há um bar/zona de serviço que serve de fronteira entre os espaços. O Yakuza fica à esquerda. Sala bem composta, com uma ou outra família, casais em traje casual e alguns executivos. Embora um pouco mais sóbria, a decoração segue os mesmos princípios do vistoso e rebuscado decor da casa ao lado. A iluminação é agradável e intimista e destaca o aquário colocado na zona central.  A mesa que nos foi atribuída fica ao lado e embora o cenário seja agradable não deixa de ser algo estranho comer peixe com outros peixes a observar. Mas acredito que sejam mais as vantagens. Além de gracioso deve servir também de distracção a casais sem assunto, ou de pretexto de conversa quando o anfitrião, Olivier, faz a sua volta de reconhecimento pelas mesas.

A refeição iniciou-se com a oferta do Chef, um fresco e ‘coentrado’ ceviche de peixe branco (que não consegui descortinar) e salmão. Para amouse bouche está muito bem. Depois, de entrada, um toro tataki (fatias braseadas da parte gorda da barriga de atum). Matéria-prima de qualidade da espécie blue fin, a mais saborosa (e infelizmente em risco, devido ao excesso de captura com destino ao Japão). Preferia que viesse com o tradicional molho ponzu em vez do de cebola confitada que em nada beneficia o prato. A seguir vieram uns uramakis (rolinhos de arroz com alga nori por dentro) com caranguejo de casca mole frito e salmão. Conjunto saboroso ainda que devesse ser trabalhado de forma a manter a textura estaladiça do caranguejo quando frito. Posteriormente, o conjunto ‘sushi to sozay’: fatias de sashimi de atum, salmão, camarão; niguiri, shake maki e gunka de salmão. Variedade, frescura e de novo matéria-prima de qualidade, com destaque igualmente para o atum. Depois ainda um prato quente: um magnifico lombo de bacalhau negro (black cod) marinado com molho miso, tamarindo e caril, uma versão próxima da celebrizada pelo famoso restaurante Nobu de Nova Iorque. Trata-se de um peixe do Pacífico apesar do nome, não pertence à família dos bacalhaus que conhecemos. O que nos serviram era de textura macia e firme (que permitiu retirar lasca a lasca) e sabor suave, mas com personalidade. A ligação com o molho foi perfeita. Um produto e um prato de antologia que fica na memória.

Para finalizar, de sobremesa, creme brulée com gelado de Ferrero Rocher à parte. Bons, ambos, mesmo que em conjunto os sabores não casem lá muito bem.

Em relação aos vinhos a carta inclui algumas das principais referências portuguesas e outras estrangeiras, entre elas, um Petrus (1000€)  e vários champanhes de topo (Dom Pérignon, Krug e Cristal) que me dizem ser a perdição da clientela angolana abastada. (Nós ficámo-nos por um modesto Poema, um verde alvarinho, que acompanhou muito bem a refeição).

A última nota vai para o serviço de mesa para destacar a forma cordial e com conhecimento de causa do empregado que nos atendeu.

Ainda que com uma ou outra combinação discutible, Yakuza é um restaurante com uma vertente gastronómica interessante e que vale a pena experimentar – mesmo para quem não é adepto da marca Olivier.

Ah… nenhum dos peixes do aquário saltou para ao prato.

 

 (Por esta refeição, com duas águas e dois cafés, pagou-se 106€, 2 pessoas). 

 

Contactos: Hotel Tivoli Jardim, Rua Júlio César Machado, 7/9, Lisboa; Tel.: 21 357 15 02; http://www.restauranteyakuza.com/

 

Texto publicado originalmente nas páginas do Outlook do Diário Económico, em 1 de Julho de 2011

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publicado às 09:37


6 comentários

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De Artur Hermenegildo a 20.07.2011 às 10:57

Estive no Yakuza ainda do outro lado da Avenida e gostei bastante. Comi o menu de degustação, que incluía um muito curioso "mini hamburger kobe".

Foi há uns meses, a esta nova versão ainda não fui.
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De Zé Manel a 20.07.2011 às 17:58

Achei muita piada aos termos fresco, frescura. Em muitos destes prato no qual se consome o peixe cru, este não costuma ser fresco, mas sim congelado... é que existe um perigo chamado parasitas que convém eliminar pela congelação (ou calor).
Muitas vezes o "fresco" é utilizado num sentido, mas a verdade é outra...

Cumprimentos,
Zé Manel
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De José Tomaz de Mello Breyner a 20.07.2011 às 18:03

Pois é Miguel, nunca vi nada do Olivier vazio. Não faço ideia se ele é Chefe ou não, o que interessa é que sabe encher restaurantes e criar ambientes. Posso também dizer que nunca comi mal num Olivier. Vou rápidamente experimentar este.

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De António Moura a 20.07.2011 às 20:57

"Depois, de entrada, um toro tataki. Matéria-prima de qualidade da espécie blue fin, a mais saborosa (e infelizmente em risco, devido ao excesso de captura com destino ao Japão)".
Quando será que os nossos restaurantes de elite percebem, que devem dar o exemplo e retirar certas espécies dos seus menus?
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De Artur Hermenegildo a 22.07.2011 às 17:34

Apesar de, como disse, ter gostado bastante do Yakuza, há que dizer que o Sushi Café da Barata Salgueiro (mesmo ao lado de outro Olivier, o Guilty, e mesmo em frente à minha segunda casa, a Cinemateca Portuguesa), o Sushi Café, dizia, é melhor, num estilo muito semelhante.
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De Anon a 12.08.2011 às 02:15

Opiniões.
Sou cliente assíduo do SC nas Amoreiras, mas coloco o Yakuza indiscutivelmente num patamar superior.
A ementa tem pratos fantásticos com combinações de ingredientes muito originais e bem conseguidas. O Black Cod e o King Prawn são simplesmente irresistíveis.
O serviço é irrepreensível.
O proprietário é castiço.
A decor ... é ao gosto do proprietário ;-)

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