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Restaurante Vin Rouge

por Miguel Pires, em 27.10.11
João, Rita... e o Mar

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Se em 2006 um qualquer comité gastronómico tivesse atribuído um prémio de restaurante revelação, o Vin Rouge teria sido certamente um sério candidato. Na altura vários foram os entusiastas que demonstraram o seu contentamento - em jornais, blogues e fóruns - por este pequeno restaurante meio perdido em Amoreira, algures no Estoril. Não é que a comida fosse o superlativo dos superlativos ou particularmente original, mas porque os proprietários reuniam um conjunto de características que lhes trouxe reconhecimento e proveito. De facto o profissionalismo e a simpatia de Rita Caldas, na sala, as propostas contemporâneas de base portuguesa (e de escola francesa) de João Antunes, na cozinha, uma carta de vinhos curta mas interessante e uma conta justa no final, eram argumentos de sobra para uma refeição a preceito – até se perdoava a localização e o espaço que poderia ter sido um stand de automóveis. 
Em 2010, depois de alguma insistência, aceitaram o convite do hoteleiro Simões de Almeida e transferiram-se para o lugar onde funcionara o 100 Maneiras, na estalagem Villa Albatroz, em plena baía de Cascais. 
O percurso não tem sido fácil. A conjuntura económica está como se sabe e Cascais é, por vezes, uma terra madrasta - segundo alguns locais, um morador da região mais facilmente se desloca a Lisboa ou ao Guincho para jantar do que a Cascais. Acresce ainda que apesar do espaço ser de dimensão semelhante ao anterior a distribuição por várias salas obrigou a um aumento da equipa.
Contudo Rita Caldas e João Antunes - dois profissionais com passagens por restaurantes como o Valle Flor (ela), Ritz, Fortaleza do Guincho e 100 Maneiras (ele) - vão contando com a presença dos seus clientes de sempre e também de muitos estrangeiros, sobretudo, turistas em época alta. 
De resto pouco parece ter mudado. A carta de comidas continua a ser pequena mas interessante, a de vinhos idem, os preços pouco ou nada se alteraram e até alguns dos adereços mais sóbrios foram transpostos da anterior morada. No entanto em termos gerais o sítio não me pareceu muito diferente do que era nos tempos do 100 Maneiras - talvez porque a arquitetura do espaço e a vista das salas e do terraço para a baía acabam por se impor. Na verdade só há mesmo uma diferença que lamento: a falta de tolhas nas mesas. Um lugar como este merece.


O jantar estava marcado para as 21h, no terraço. Pretendia aproveitar a vista e os últimos momentos do lusco-fusco. Infelizmente alguém do município (presumo) teve a triste ideia de colocar, mesmo em frente, um palco semi coberto que retira a vista e, em parte, o sossego (informaram-me que será retirado neste mês de setembro). Passámos para o interior e o problema atenuou. 

A carta de comidas, como referi, é pequena mas interessante (5 entradas, 3 pratos de peixe, 3 pratos de carne, 3 ‘risottos & pastas’ e cinco sobremesas) pelo que a opção pelo menu de quatro pratos ao critério do Chef (39,90€) é uma hipótese a considerar. Contudo tínhamos curiosidade de experimentar algumas propostas que não constavam do menu e por isso acabámos por pedir à carta.
Como primeira entrada tivemos moleja de cordeiro salteada com cogumelos Enoki e espargos verdes. As molejas não são um produto muito comum nos nossos restaurantes. Há quem seja apreciador mas também quem fuja delas a sete pés. Inclino-me mais para o primeiro grupo, sobretudo quando são bem preparadas como estas, envolvidas em pão ralado, salteadas e servidas em boa companhia. O carácter vegetal dos espargos contrastam bem com o seu sabor adocicado e conferem uma textura firme, que é ainda mais acentuada nos pequenos cubos de pão tostado. Depois tivemos atum braseado com coulis de chalotas e legumes. O atum vinha envolvido em sementes de sésamo, uma ligação usual mas que há muito deixei de ver. O sabor do sésamo combina muito bem com o atum e em simultâneo dá-lhe uma proteção adicional que lhe ajuda a manter os sucos enquanto confere uma estrutura crocante. O acompanhamento é simples - legumes em juliana, salteados, e trabalhados de forma tecnicamente perfeita - mas valoriza o conjunto. De seguida vieram uns raviolis de lavagante com espinafres e gema de codorniz. Os raviolis eram de massa fina, bem confecionada e de recheio legitimo, com medalhões (na verdade medalhinhas) do crustáceo bem presentes - e não uma miscelânea de recheio a dar ares da sua presença. Mais do que se sentir a gema de ovo de codorniz o que marcou o conjunto foi, acima de tudo, o sabor do creme de marisco em volta dos raviolis, no prato fundo. A intenção de realçar o sabor do lavagante era boa. Contudo acabou por se sobrepor ligeiramente tirando-lhe alguma expressão. 
O prato seguinte, lombo de toiro, legumes caramelizados e tartine de cogumelos e foie gras criou-me uma certa expectativa. Quando nos disseram que o Chef aconselhava que a carne viesse mal passada temi que pudesse mais rija do esperava. Por outro lado supunha ir encontrar uma carne mais escura dada a atividade atlética do animal. Mas não. 
A peça de carne era tenra, relativamente clara e acima de tudo muito saborosa. Mais uma vez o acompanhamento foi bem conseguido: courgete, cenoura, alho francês, aipo bola e um chip de beterraba. Em cima do naco, a mini tartine de cogumelos e foie gras. Normalmente esta é uma ligação que dispenso (foie gras e carne) mas que aqui ajudou à festa (ou ‘fiesta’, neste caso) sem se sobrepor, conferindo ainda alguma untuosidade ao conjunto. Foi um belo final no campo dos salgados antes de entrarmos nos doces. Neste capítulo desconfio que 99% dos clientes não lêem para além da primeira proposta, o soufflé de chocolate 70% cacau com trilogia de gelados. É um ‘guilty pleasure’ que demora 15 minutos a fazer, custa o dobro das outras sobremesas (9,90€) mas vale todos os cêntimos. Além de que dividido por dois o prazer (‘pleasure’) é igualmente elevado e o sentimento de culpa (‘guilty’) fica pela metade – mesmo que em rigor não se trate de um soufflé (praticamente não leva farinha e não cresce tanto como é normal). Os gelados de morango, laranja/cardamomo e chocolate, da geladaria Artisani, estão lá para refrescar. Ou distrair, não percebi bem (mas comi tudo). 


Em matéria de vinhos o Vin Rouge continua bem. Tal como referi no inicio, a carta é relativamente pequena (6 champanhes/espumantes, 25 brancos, 33 tintos, e 13 vinhos de sobremesa, entre colheitas tardias e fortificados) mas com vários pontos de interesse e referências menos óbvios. A lista está dividida de forma clássica (por regiões) e em cada vinho, vem referido o nome do produtor, as castas e notas de prova. A temperatura de serviço foi correta e a politica de preços sensata. Não só há várias soluções a abaixo dos 20€ como há casos em que a margem não é elevada, como no caso do belíssimo Soalheiro Primeiras Vinhas 2010 que bebemos (24€). O único ponto menos positivo foram os copos. Não que fossem desadequados mas porque considero que não fica bem a um restaurante deste nível a utilização de copos com marcas de vinhos impressas no vidro (ainda por cima de outra marca, que não a do alvarinho que bebemos). 
Por ultimo o serviço correu de forma fluida e profissional. Não só pela parte da anfitriã, como esperava, mas, também, por parte dos empregados que nos atenderam. 

O Vin Rouge continua, portanto, a ser uma casa muito recomendável. Esperamos que apesar da conjuntura e de algumas vicissitudes do lugar consigam manter o nível e, se possível, melhorar um ou outro detalhe. A cozinha de João Antunes e a dedicação da equipa merecem-no. E nós também. Do prazer de desfrutar desse momento e da vista. 

Morada:

Rua Fernandes Tomás 1, Estalagem Villa Albatroz, Cascais; Tel: 214684439; www.restaurantevinrouge.com


Preços: 

Preço médio ao jantar com vinhos: 40€/45€. Pela refeição descrita, com água e cafés, pagou-se 55€ por pessoa. Ao almoço existe um menu executivo de comida muito mais simples, com entrada, prato, sobremesa e um copo de vinho (ou água) por 12€

Classificação:

Cozinha:17; sala: 17; vinhos:17
Texto publicado originalmente na Revista Wine nº62 de Setembro 2011

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publicado às 12:03



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