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Em Busca da Perfeição

por Paulina Mata, em 05.11.11

 

Regressava de Londres dois dias depois. Onde ir almoçar no meu último dia em Londres? Havia várias opções. Algumas boas... Mas de repente perguntei-me: Porque não o Dinner? Para ser sincera, não acreditava que fosse possível. Esgotado por alguns meses, era o que diziam... Tentei marcar no site. Não era possível fazer reservas para uma pessoa só (que raio de discriminação!), não havia problema, tentava para duas pessoas. Já passava da meia-noite, já não era possível marcar para o dia seguinte, mas deu para ver que nos outros dias a seguir havia mesas disponíveis para o almoço. Afinal havia esperança!

Acordei de manhã, não muito cedo... eram quase 11 horas. E liguei... 5 minutos depois tinha mesa marcada para as 14h30m. Ia ao Dinner! Ia comer de novo a cozinha do Heston Blumenthal. Tendo em conta que é o cozinheiro cuja aproximação à cozinha mais admiro, era importante!

Por outro lado estava a precisar de um bom restaurante. Nada como um bom restaurante quando sentimos que precisamos que alguém cuide de nós. É uma das funções deles, não é? E ainda por cima eu gosto muito de restaurantes!

Preparei-me e saí. O primeiro autocarro ia para Waterloo, esperei pelo segundo... Russel Square! Que bom, não queria mesmo chegar atrasada e já não faltava muito! Chega a Waterloo e diz que acabou o percurso... o pior é que todos os autocarros que chegavam a Waterloo ali ficavam. Umas perguntas e fiquei a saber que havia um incêndio do outro lado da ponte. Pus a hipótese de atravessar a pé... mas o problema estava do outro lado do rio... não ia haver autocarros. Única solução: o metro. E alguns minuto depois estava em Knightsbridge em frente ao Mandarin Oriental Hyde Park.

Uma pequena espera no bar. Na mesa ao lado dois homens, a certa altura um deles tira uma camisola de futebol (acho... desportos não é comigo) e pede ao outro para a assinar. Não me diz nada a cara dele. Não era supostos, deportos não é mesmo comigo...

Sentei-me à mesa. Que bom! Era junto à janela com vista para Hyde Park. As plantas no parapeito davam um ambiente propício para apreciar o almoço. Ainda por cima porque naquele dia de Junho o Sol tinha decidido não se armar em tímido. Do outro lado uma enorme janela sobre a cozinha. Por estranho que pareça não gosto de cozinhas à vista... Se calhar era suposto gostar... mas raramente achei que dessem um input positivo ao que comia, antes pelo contrário... Confesso que olhei de vez em quando, mas não me prendeu muito a atenção.

 


A carta estava sobre a mesa. Logo chegou também o pão e a manteiga. Um pão excelente, uma manteiga saborosa!

 


Era hora de escolher...

 

Entretanto chega à mesa um dos empregados e diz-me em português "Vi-a logo que entrou e  fiquei muito contente por a ter cá." E fiquei a saber que tinha sido aluno da Escola Profissional de Ourém onde eu tinha ido há uns anos (2006) fazer uma palestra a que tinha assistido. Respondendo à pergunta que lhe fiz sobre como se ia da Escola Profissional de Ourém para o Dinner by Heston Blumenthal, o Carlos contou-me o seu percurso..

Havia entradas muito interessantes, mas estava previamente decidido. Tinha ser ser a Meat Fruit, tinha visto filmes, fotos, descrições... Sabia ser inspirada numa forma de servir a carne, disfarçada de fruta, entre os séculos 13 e 15. Era hora de tirar a prova dos noves.

Meat Fruit (c. 1500)
Mandarin, chicken liver parfait & grilled bread



Uma tangerina quase perfeita! Por dentro o parfait de fígados de galinha a envolvê-lo uma finíssima película de gel com um forte sabor a tangerina. Não tirei fotografia, mas houve quem tirasse...

 


Um parfait muito leve e suave, mas o que me impressionou mais foi o gel de tangerina com uma excelente textura. Retirei pedaços que comi isoladamente para avaliar o sabor forte a tangerina e confirmar que o gel era tão fino e com uma textura tão boa que se desfazia na boca. Comido com o parfait dava notas de tangerina, mas sem se sentir o gel. Muito bom! Técnica excelente! Depois de avaliados estes pormenores técnicos, foi hora de barrar o parfait no pão torrado e de desfrutar da mistura de sabores, o tostado do pão complementava muito bem!

Entretanto o João Pires tinha aparecido, nunca nos tinhamos encontrado antes, mas já nos tinhamos lido um ao outro. É giro que  há sempre a sensação de que já nos conhecemos um pouco.

Quanto ao prato... não foi fácil escolher, tantas coisas boas! Mas as aves sempre me atraíram... e a opção foi:


Spiced Pigeon (c. 1780) 
Ale & artichokes
acompanhado com 

Triple cooked chips

Um prato inspirado numa receita do livro "The Ladies' Assistant and Complete System of Cookery" de Charlotte Manson (1777)

 


O pombo cozido a baixa temperatura e depois a pele corada, um molho de cerveja muito saboroso e o sabor das alcachofras ligava muito bem com o do pombo. Delicioso!

Para acompanhar as famosas batatas cozinhadas em três etapas, tinham uma textura muito crocante no exterior e muito cremosa no interior. Sentia-se um pouco o sabor do óleo e gostava mais que não se sentisse, ou que fosse outro.

Na escolha da  sobremesa havia várias opções atraentes... mas o dia estava lindo, um sol e uma luz muito agradáveis... Isso pesou quando me decidi pela:

Summer Tart (c. 1720)
Macerated strawberries, chamomile, biscuit ice cream & violet
Inspirada numa receita do livro "The Confectioner's dictionary" de John Nott (1720)

 


Uma variedade de aromas, muito fresco, muito bom, e muito bonito.

Para acabar não resisti a um chá de botões de rosa iranianos. Eu adoro rosas!

 


E a acompanhá-lo veio como petit four:
Earl grey and white chocolate ganache with a caraway biscuit
Muito rico!
 

 

 
Uma excelente refeição! In search of perfection!

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publicado às 16:15


3 comentários

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De Miguel Pires a 07.11.2011 às 03:31

Paulina

Em termos conceptuais o Dinner é bem diferente do Fat Duck , não é?

Só para termos uma ideia... em quanto fica uma refeição como a que descreveste?

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De Paulina Mata a 07.11.2011 às 09:08

Miguel

São conceitos muito diferentes e experiências muito diferentes.

Em comum a busca da perfeição e do domínio das técnicas. Mas quem vai ao Dinner à espera de "encontrar" o The Fat Duck, não vai encontrar.

Este almoço, com dois copos de vinho, custou cerca de 75 libras, portanto cerca de 90 euros.
Sem imagem de perfil

De José Tomaz de Mello Breyner a 10.11.2011 às 18:52

Paulina

Também já tinha ouvido este relato, mas isto escrito e com as imagens é outra coisa. Fizeste-me cá uma fome...

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