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Uma crise de vocações?

por Rui Falcão, em 11.01.12

 

Caso raro no mundo, no Douro convivem lado a lado duas denominações de origem, Vinho do Porto e Douro, partilhando as mesmas vinhas e o mesmo espaço físico. Dois estilos radicalmente distintos que convivem nas mesmas adegas, nas mesmas casas, unindo dois universos que concorrentes e potencialmente discordantes entre si. Dois mundos distintos que, apesar de manterem alguns pontos óbvios de comunhão, nem sempre são fáceis de conciliar ou harmonizar, nem sempre são facilmente compatíveis, nem sempre são conciliáveis.

Os riscos são relevantes, particularmente evidentes na carência de uvas de qualidade em quantidade suficiente para alimentar dois vinhos únicos, exigentes na excelência da matéria-prima. Mas o maior risco para a região, o mais pernicioso para o futuro do Vinho do Porto, é a falta de novas vocações para a causa do Vinho do Porto, a falta de interesse, a apatia generalizada dos novos produtores pelo Vinho do Porto, a falta de vocação de enólogos, consagrados e emergentes, para se dedicarem ao Vinho do Porto.

As razões são facilmente compreensíveis e até expectáveis. Afinal, têm sido os vinhos do Douro a agitar as marés, a trazer emoção e novos caminhos ao Douro. Têm sido os vinhos o Douro a fazer-se falar, a aparecer nas revistas, a apresentar-se como a nova coqueluche da imprensa nacional e internacional. E o Vinho do Porto, acompanhando a tendência global para uma sociedade light que penalizam o consumo de vinhos fortificados, vive um momento de dormência, de latência, pouco propício aos holofotes mediáticos.

A tendência é compreensível… mas é profundamente errada! Porque a vida não se vive num só dia, porque as modas são efémeras, porque o Douro não pode sobreviver sem o Vinho do Porto. Mas também porque o Vinho do Porto, a par do Vinho da Madeira, é o único vinho português verdadeiramente internacional, a grande porta de entrada nos mercados externos, a chave que serviu para a internacionalização do Douro. Desbaratar três séculos de uma história brilhante é um pecado que simplesmente não podemos cometer. Desprezar um património ímpar, esquecer práticas, conhecimentos e tradições, desperdiçar uma geração inteira, é um erro que não podemos cometer. O futuro não se constrói ignorando o passado.

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publicado às 01:34


9 comentários

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De Polittikus a 11.01.2012 às 09:38

O mal das vinhas de generoso (vinho do Porto) não é a falta de vocação dos novos produtores. É o preço baixo que querem pagar por esse vinho e a entrada de vinho de terceira, vindo de Espanha descaradamente em Adegas como as Caves Santa Marta ou a Adega de Mesão Frio. Uma vergonha...
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De Rui Falcão a 11.01.2012 às 10:32

Bom, desconheço em absoluto as graves denúncias de que acusa as duas adegas que refere e que, a menos que tenha provas do que afirma, não me parece terem cabimento neste espaço.
Os problemas do Vinho do Porto são múltiplos, de natureza diversa, nem sempre conciliáveis. Variam entre esse facto estranho e único no mundo de termos duas denominações a partilhar o mesmo espaço físico, lutando pelas mesmas uvas de qualidade, mesmo de descontarmos a teoria de que as melhores uvas para o Douro não são as mesmas que o Vinho do Porto disputa.
Os problemas continuam com a lei do benefício, simultaneamente uma lufada de ar fresco financeiro e um desastre tremendo a médio ou curto prazo. Mas também pela conservadorismo extremo do Vinho do Porto que fecha a porta a novos participantes, nomeadamente através da lei do terço que quase impossibilita a entrada de novos actores no segmento. Para nem mencionar os canais de distribuição que hoje se encontram quase dedicados em exclusivo a um grupo reduzido de grupos que pode jogar com preços impossíveis para quem não tem escala.
Referiu no entanto um dos problemas graves do Vinho do Porto, o preço absurdamente baixo a que muitos vinhos são vendidos (e o preço absurdamente baixo a que as uvas são pagas), vítimas de guerras comerciais que causaram grandes danos ao sector, culpa de vários dos grupos do Vinho do Porto. A tudo isto há que somar a falta de vocação dos enólogos para o Vinho do Porto, um estilo de vinho que muitos consideram ultrapassado e que não lhes dá grande gozo fazer…
 
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De António Moura a 11.01.2012 às 10:40

Caro Rui
Tudo o que escreve é muito acertado e retrata uma realidade que pode ser extrapolada para outros sectores. Não estamos a querer aproveitar o potencial que o nosso País tem, para rentabilizar muitos dos nossos “tesouros”.

A nossa longa História, permitiu que este País acumulasse um imenso património cultural, mas muito dele está “a dormir”, a aguardar melhores dias para ser colocado ao serviço dos portugueses.

O Douro pode ser um grande exemplo para Portugal, de como com visão e excelência se pode avançar na conquista de espaço em mercados competitivos.

Além do vinho do Douro e do Porto, o Douro representa a confluência de uma paisagem única, com várias unidades hoteleiras de excelência, alguns museus com grande interesse e um povo com enorme capacidade de trabalho. Talvez falte um pouco de união entre lideres, por forma a que seja encontrado uma visão que possa concertar posições e criar sinergias.

Penso que o Douro necessita de responder a uma pergunta: O que fazer para que os portugueses, a começar pelas novas gerações, achem “cool” beber Vinho do Porto?
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De Rui Falcão a 11.01.2012 às 16:21

Caro António Moura, Antes de mais obrigado pelas palavras simpáticas.
O Douro já é um grande exemplo para o país, tanto no melhor como no pior. Um bom exemplo pelo associativismo e pela total falta dele, pela excelência dos vinhos de topo, Douro e Vinho do Porto, e pelo horror dos vinhos menos cuidados e pela fraca qualidade média dos vinhos do Douro e Vinho do Porto. É uma região de extremos, difícil, com custos de exploração muito elevados que a deveriam obrigar a investir nos segmentos mais cuidados, visto que sem o benefício a região só muito dificilmente poderá ser competitiva nos restantes segmentos.
Mas em muitos aspectos, o Douro é um excelente exemplo para o país, um exemplo que nos deve encher de orgulho. Dito isto, e apesar de todos os contras que referi anteriormente, não deixa de ser estranha a apatia geral que a nova geração sente pelo Vinho do Porto, investindo todo o seu saber nos vinhos do Douro, esquecendo-se de um passado (e presente) brilhante e que, esperemos, continuará a ser um dos motivos para colocar Portugal em todos os roteiros do vinho.
 
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De António Moura a 12.01.2012 às 09:41

A actual crise de escassez de recursos por que o País está a passar, vai-nos obrigar a dar mais atenção a tudo aquilo que temos de bom. O Douro é um enorme trunfo que o País tem.

Os principais players do Douro (a vários níveis), hão-de se juntar num espaço de diálogo e competitividade de ideias (à semelhança dos Douro Boys). Dessa forma este País terá encontrado uma grande porta de “excelência”, para se promover e para motivar a que outras regiões, outros sectores sigam esses ensinamentos.
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De Polittikus a 11.01.2012 às 13:19

Sendo eu um associado de uma das Adegas em questão, a quem não pagam o vinho lá depositado, não serei a melhor pessoa para indicar o crime que está a acontecer. As Caves Santa Marta, assim como outras, vendem o triplo do vinho produzido pelos seus associados. De onde vem o vinho??? De espanha digo eu...

Mas sendo você um jornalista, deixo a dica para uma reportagem acerca do assunto. Fale com os produtores da Régua, de Santa Marta de Penaguião, Mesão frio e verá que há marcas que vendem gato por lebre...
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De Rui Falcão a 11.01.2012 às 16:13

Caro Politikus, agradeço a sugestão de reportagem.
 
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De António Moura a 14.01.2012 às 11:14

Caro Rui,
É sempre um prazer lê-lo no Fugas do "Público".
A sua sugestão de re-rolhamento dos Porto Vintage seria uma excelente maneira de promover a formação do consumidor e a imagem do Vinho do Porto.
Vamos aguardar que o Douro se saiba unir e criar escala, para avançar para esse tipo de acções.
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De Artur Hermenegildo a 16.01.2012 às 11:56

Penso que não é fácil "vender" o vinho do Porto, na sua vertente de maior qualidade, às novas gerações.

Não são de todo vinhos fáceis, e muito menos em gerla vinhos baratos.

São vinhos para serem apreciados por quem já tenha uma cultura do vinho mínima, mesmo em relação aos vinhos de mesa, e isso só vem com a idade, a menos que se trate de jovens nascidos no seio de famílias ligadas ao vinho.

O público-alvo para expandir o consumo deste tipo de vinhos parecem-me ser as gerações na casa dos 30-40 anos, com algum gosto pelo vinho e poder de compra acima da média. Pessoas que já bebem bons vinhos de mesa, bom whisky, bons cognacs, etc, mas que não se habituaram ainda a bebe bons Portos e Madeiras.

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