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Cervejaria da Esquina

por Miguel Pires, em 12.01.12

A reinvenção da cervejaria portuguesa

 

 

“Campo de Ourique é um bairro fantástico”, confessava-me Vítor Sobral umas semanas depois de abrir a Tasca da Esquina neste bairro lisboeta. Na altura, há pouco mais de 2 anos, Sobral estava encantado com o público heterogéneo que frequentava a casa, desde grupos nas faixa dos 30 anos, ao casal idoso morador no bairro que lá almoçava todos os dias. Esse encanto (e os resultados financeiros, presume-se) fê-lo investir de novo no bairro e é caso para dizer que todos ganhámos com a opção. É que Vítor Sobral tem um particular talento para reinventar conceitos ligados cozinha portuguesa, género onde se mexe como ninguém.

Se na Tasca da Esquina o conhecido Chef de costela alentejana criou um novo conceito de tasca portuguesa, onde reina o petisco with a twist, no seu espaço mais recente, a Cervejaria da Esquina, encontrou um filão por explorar.

 

Fiz quatro refeições na Cervejaria da Esquina desde que abriu (tendo sido a  primeira a convite) e em todas me questionei: como é que ninguém se tinha lembrado de fazer isto? ”isto” significa ter matérias primas de excelente qualidade; “isto” significa confeccionar os mariscos no ponto perfeito (nem de mais, como é hábito por cá; nem de menos, como tem sido a tendência de nuestros hermanos); ou à parte, quando em açordas ou massadas; “isto” significa privilegiar a qualidade e não necessariamente os espécimes que mais impressionam. E, finalmente, “isto” passa por desviar-se do padrão habitual mas com sentido, como incluir um caril na carta ou, entre pregos de lombo de vaca, haver um de atum dos Açores, por exemplo.

Podia dar-se o caso de tudo não passar de uma série de intenções que depois, na prática, ficaria aquém do propósito. Ou pelo serviço, ou por uma equipa que não desse conta do recado, ou por o custo financeiro não se adequar à conjuntura actual. Felizmente o todo resulta e bem, como tive oportunidade de confirmar em visita recente.

O jantar fora marcado para uma sexta feira às 20.00h. Ao fim de semana há dois turnos de marcações, sendo o segundo às 22.00h. Pode não se gostar, mas não há muito a fazer: é uma questão de oferta e de procura.

A Cervejaria da Esquina fica num prédio antigo de bairro, numa das ruas interiores, no inicio de Campo de Ourique (para quem vem das Amoreiras). A recuperação do espaço deu-lhe um ar moderno, mas manteve uma certa alma do passado, resultando num ambiente de bem estar.

Ao todo sentam-se 50 pessoas, entre duas salas. A de cima  é reservada a fumadores e parece um pouco apertada. Já a de baixo, onde ficámos, é mais ampla. À direita há um balcão e uma cozinha à vista (tal como na Tasca da Esquina) e, a separar as salas, um enorme aquário com santolas de porte respeitável. As mesas albergam até seis pessoas por fila podendo ser individualizadas, sendo que o espaço entre elas não é fantástico - na verdade estamos numa cervejaria e não propriamente num restaurante de luxo.

 

Na carta há muito por onde escolher e o mais difícil é mesmo decidir o que

prescindir. Pode-se ir apenas para um bife ou um prego (de novilho ou de atum) ou ficar em regime semi-diet com uma salada de rúcula com bichinhos à escolha, consoante a preferência e a carteira: camarão, carabineiro, camarão tigre, lagosta ou lavagante. Estes fazem parte também da opção de pratos mais consistentes, como os arrozes, a açorda ou o caril - um must que não deve perder: mistura especiada, fragrante e espantosamente leve, uma vez que Sobral incorpora curgete no molho retirando peso ao leite de coco no conjunto.

Depois, como seria de esperar, há todo o tipo de marisco, do mais comum ao menos habitual, maioritariamente ao peso, com uma ou outra opção à dose. A melhor forma de se ficar com uma ideia geral é deixar-se ir nas mãos do Chefe: 4 porções fica em 34,60€; 5 porções em 42,50€ e, sem número de porções definidas a versão, ”fique completamente nas mãos do Chefe”, por 65€. Ainda dentro deste capítulo inclui-se a opção que escolhemos: o “Pratão de Mariscos” , por 23€ (estes preços são por pessoa para um mínimo de duas  pessoas). 

 

Apesar do nome, o ”Pratão de Mariscos” não é propriamente um alguidar de loiça cheio crustáceos pronto a fazer revirar os olhos a um Fernando Mendes. Trata-se de um prato (daqueles que vêm numa espécie de pedestral) suficiente em termos de quantidade, diversidade e, acima de tudo, com produtos de grande qualidade, bem confeccionados. Compunham-no: lingueirões, enormes, cheios, tenros, e com o sabor enaltecido na passagem pela chapa; percebes das Berlengas, tépidos (como prefiro) e com um final a mar inacreditável - uma perfeição apenas com o defeito de exigir um cuidado extra na separação da capa da ‘unha’. A Cervejaria da Esquina reconciliou-me ainda com as ostras do Sado, que em tempos preteri em detrimento das suas congéneres da Ria Formosa: eram um autêntico pirolito prolongado de maresia. Do “pratão” faziam parte, também: búzios - que não sendo um marisco da minha preferência, vinham na textura certa, sem a habitual resistência borrachuda ao dente de quem não os sabe tratar bem; uma excelente sapateira preparada - miolo com um toque de mostarda e um pickle aqui ou ali, (sem grandes vestígios de maionese e por cima) alem da carne das pinças desfiada. Ainda gambas do Algarve, cuja consistência algo mole  talvez não indiciasse a melhor frescura, contudo mais do que aptas para que lhes tivéssemos barbaramente estropiado as cabeças, trincando-as e sugando-as (Hannibal Lecter, o canibal de “O Silêncio dos Inocentes”, não descreveria a cena melhor).

À parte, e a conselho do Chefe de sala, José Domingues, vieram umas lapas “acabadas de chegar”. Muitas das vezes as sugestões da sala servem para vender o produto que mais interessa escoar nesse dia. Se foi esse o caso, fizeram muito bem. As lapas eram carnudas e estavam, mais uma vez, bem confeccionadas (o seu sabor assertivo conjugou-se bem com o da manteiga que levava por cima). Para dar uma maior consistência à refeição pedimos ainda uma açorda de camarão, com o pão, o caldo, e a gema de ovo bem integrados, marisco no ponto certo, e coentros frescos envolvidos no final. Um verdadeiro quinteto afinado.

 

 

De menos positivo, apenas o capítulo das sobremesas. Quer dizer, para ser justo, todas as sobremesas que provei nas várias visitas – flan de chá verde, bolo tépido de chocolate, ou o gelado de cerveja – cumpriram sem sobressaltos o seu papel de provedores de um final feliz. O problema (a haver) é que a fasquia da ementa não doceira  é muito elevada. Ainda assim registo a nobreza de um simples, mas bem feito salame de chocolate.

Em matéria de vinhos, num local com maior apetência para a cerveja, a carta de vinhos é mais composta do que se poderia supor e está adequada ao local. São mais os brancos (35) do que os tintos (23 ), inclui 2 rosés e 10 espumantes (8 nacionais e 2 champanhes). A lista vem impressa na toalha de papel da mesa o que é engraçado mas acarreta alguns problemas, como o de não ser facilmente actualizável. Por exemplo, o Luís Pato Vinhas Velhas branco que pedimos estava indicado como sendo de 2009 mas, na verdade, o que nos foi servido já era de 2010 (com o ligeiro agravo da garrafa ter sido aberta sem ser mostrada).

Quanto ao serviço podemos dizer que, na azáfama própria de uma sexta feira à noite, a equipa de sala foi eficiente e, em geral, atenta e cordial.

Depois do epíteto de ‘pai’ da nova cozinha portuguesa e de criador do conceito de ‘nova tasca’, Vítor Sobral surge agora a redefinir o conceito de cervejaria portuguesa. Como se lia numa frase que constava numa das paredes da Cervejaria da Esquina: “ter sorte dá muito trabalho”. Mesmo num bairro fantástico.

 

 

Morada:

 

Rua Correia Teles, 56 - Campo de Ourique, 1350 - 102 Lisboa; Tel: 21 387 46 44

www.cervejariadaesquina.com

 

Preços:

 

Preço médio com vinho: 30/35€. Pela refeição descrita, com água, café e uma imperial, pagou-se 40€ por pessoa.

 

Classificação:

 

Cozinha:18; sala: 16.5; vinhos:16.5


 Texto publicado originalmente na Revista Wine nº64 de Novembro 2011

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publicado às 15:12


3 comentários

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De Maria do Carmo Almeida a 12.01.2012 às 16:15

Fui esta semana jantar à Cervejaria da esquina, na terça feira. Eu e a minha mãe, uma grande companhia e uma cozinheira perfeita, que me ajudou a descobrir o mundo dos sabores, que tanto aprecio! Quando posso, o que acontece normalmente depois de uma ida com a minha mãe ao médico, dou uma escapadela para lhe mostrar o que considero valer a pena em Lisboa, e a CE é um desses sitios. Em primeiro lugar pela atenção que o chefe de sala tem para com a minha mãe, que me sabe tão bem. Já me aconteceu lá ter ido com uns amigos e ele à saida mandar cumprimentos à minha mãe, quando eu só lá tinha ainda ido 2 vezes com ela. É um sitio onde me sinto bem, onde as pessoas que levo se sentem bem e onde se come mesmo muito bem! Sabores muito bons e a comida ainda perto da sua origem, o mar. É uma casa portuguesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa! para voltar!!!
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De Luis Dias a 12.01.2012 às 16:19

O prego de atum é uma opção divinal, que resume na perfeição aquilo que este espaço do Vitor Sobral representa. Simplicidade, qualidade. Ponto.
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De miguel a 30.01.2012 às 13:57

Já lá fui umas quantas vezes, e sempre bem comido, jurei voltar logo que possível.
Na semana passada, o caril de camarão acompanhou com arroz Uncle Ben´s...Não queria acreditar, mas a confirmação veio de uma amiga, também presente. Será a crise? Espero que o "incidente" tenha sido de ocasião e nao se volte a repetir.

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