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Comerç 24

por Miguel Pires, em 08.02.12

Festival de Sabores – da Catalunha ao Oriente

 


Na sequência de uma deslocação a Barcelona para assistir à cerimónia de lançamento da edição ibérica do Guia Michelin 2012, aproveitei para fazer uma refeição num dos 18 restaurantes da cidade distinguidos com estrelas neste guia. Depois de várias consultas e recomendações, o eleito acabou por ser o Comerç 24, de Carles Abellan, situado na zona La Ribera, a meia dúzia de minutos do Bairr Gòtic. Abellan trabalhou sete anos com Ferran Adriá, no El Bulli e, ainda sob a alçada do mago catalão (mas já como Chef), no Talaia, em Barcelona e, posteriormente, no Hacienda Benazuza, perto de Sevilha. Em 2001 regressou a Barcelona para abrir o Comerç 24 e, mais tarde, em 2006, o Tapas 24 – um espaço completamente informal onde ‘tapeamos’ na véspera (tem ainda um outro restaurante, o Bravo, no Hotel W, também na cidade condal).

O Comerç 24 conta actualmente com uma estrela michelin. Trata-se de um local elegante que faz a ponte entre o restaurante clássico e o bar de tapas, num embrulho cosmopolita, informal mas com uma certa sofisticação. Carles Abellan encaixa-se no perfil dos Chefs das últimas gerações que ajudaram a projectar a cozinha espanhola contemporânea para o mundo. Apresenta-se como um criativo que pratica uma cozinha “de raízes mas sem fronteiras” e isso é evidente no Tapaç 24, desde o primeiro snack até à sobremesa. Mas comecemos pelo inicio.

Sempre que marco um restaurante no estrangeiro procuro fazê-lo por email, não vá a reserva perder-se na tradução. No site do restaurante há um formulário e com dois dias de antecedência efectuei um pedido de marcação para almoçar (13.30h). No dia seguinte recebi a resposta, por email. Lamentavam mas já não havia mesas para o jantar nos três dias seguintes. Só se quiséssemos ao almoço. Respondi que era precisamente isso que tinha solicitado, mas só obtive resposta quando telefonei – que era precisamente o que queria evitar.

No dia marcado chegámos cinco minutos antes e deparámos com a porta ainda fechada (já devia saber que em Espanha almoça-se e janta-se tarde). Demos uma volta e voltámos dez minutos depois, mas ainda não havia sinal de abertura. Pediram-nos desculpa mas necessitavam de mais uns minutos. Finalmente chegou o momento e... ‘abre-te sésamo’.

Confirmam a reserva conduzem-nos ao lugar. Passamos pela sala de entrada em tons de amarelo e laranja. Aqui existem algumas mesas, mas o que se destaca é o balcão corrido (‘barra’) do lado direito. Ao fundo, à esquerda, fica a sala principal onde vamos passar as duas próximas horas, numa viagem de sabores entre Espanha e o Oriente, com um pezinho em Itália.

Damos uma vista de olhos pela carta e decidimos rapidamente pelo menu ‘Festival’, composto por 15 a 20 propostas diferentes, entre snacks, tapas, sobremesas e petit fours.

Ainda antes do desfile começar apresentam-nos os pães: dois rústicos, de porte considerável, e outro, mais pequeno, envolto em sementes. Queremos todos. São os três de crosta bem tostada, miolo firme mas não demasiado elástico. O aroma e o sabor abrem o apetite e pedem para molhar em bom azeite. Para isso, deixam-nos 4 garrafas de zonas diferentes de Espanha, cada um com a sua personalidade. Este momento custa 8€. Parece muito mas não é, acreditem.

 


Os primeiros snacks apresentam-se a preto e branco. Numa pedra escura, sabores agridoces de couve flor em pickle com gengibre e vinagre de arroz. Ao lado, um caldo frio do mesmo vegetal, com chá fumado e alga nori. É impossível apreciá-lo devido ao excesso de sal - situação logo ultrapassada por outra proposta de sabores assertivos mas bem conjugados: fatias cruas de tamboril novamente com com alga nori, sésamo negro e alho negro.

Itália abeira-se de nós em versão mini-piza, com figos  frescos (ainda é época deles pela Catalunha), rúcula e anchovas, numa boa conjugação doce, picante e salgado. Há ainda e um charuto de massa filo recheado com uma espuma de parmesão com um toque fresco de lima e mangericão. Findos os snacks chega-nos uma proposta nada fácil mas muito interessante e bem conseguida. Num prato fundo, um caldo de dashi com molho de soja de 3 anos rodeia umas ovas de ouriços do mar e berbigões envolvidos por uma esferificação também de dashi. Os sabores são fortíssimos mas a harmonização entre eles decorre sem atropelos e o berbigão, que parece ser o elemento mais sensível, acaba mesmo por se destacar no final. Mais sabores marítimos na ‘tapa’ subsequente, com percebes galegos e algas. Trata-se de uma proposta simples, directa e discreta que teria beneficiado se tivesse vindo antes dos berbigões. Segue-se o ‘ovo kinder’, um clássico de Abellan, hoje copiado ou adaptado por vários Chefes (não estou certo se Abellan foi mesmo o primeiro Chef a fazê-lo, como me dizem, mas adiante). O 'ovo' não surpreende mas, no interior da casca, a  espuma de batata, trufa picada, clara do ovo cozida e cogumelos no interior traz-nos para uma zona confortável. O prato que se segue é um bacalhau com grão aparentemente familiar (para nós portugueses), mas com um toque de miso oriental (ainda que distante também do bacalhau negro com miso popularizado pelo Nobu). Depois outro prato surpreendente, e algo estranho em termos de texturas: arroz de pato (sem pato), uma espécie de farofa de milho crocante e uma quenelle de mousse densa de foie gras.

É tempo para uma pausa e em vez do habitual limpa palato temos um limpa olfacto: uma taça com hastes de rosmaninho e tomilho para sentirmos os aromas locais, dizem-nos. Vale mais pela intenção do que pelo resultado.

 

couve flor em pickle com gengibre e vinagre de arroz; caldo frio do mesmo vegetal, com chá fumado e alga nori; fatias cruas de tamboril, alga nori, sésamo negro e alho negro

charuto de massa filo recheado com uma espuma de parmesão


 Caldo de dashi com molho de soja de 3 anos rodeia umas ovas de ouriços do mar e berbigões envolvidos por uma esferificação também de dashi

 

percebes galegos e algas


‘ovo kinder’

"bacalhau com grão"

 

Voltamos ao mar com uma pescadinha, batata e um ‘ar’ de vinagreta mediterrânea. Não está mau mas, definitivamente, pescada não é a minha praia (não aprecio muito o sabor, nem a textura mole). A finalizar, e antes dos ‘postres’, há ainda um ‘entrecôte’ de boi. Carne saborosíssima e acompanhamento inusual a combinar a preceito: nabos em várias texturas e salsifis (que também é da família). No capítulo doceiro, temos agora à frente um clássico de Abellan (e que na véspera comêramos no Tapas 24): mousse densa de chocolate regada com azeite, um toque de flor de sal e uma tosta de pão torrado. Corro o risco de ser castigado por blasfémia mas, tal como no dia anterior, a memória remete-me para o pão com tulicreme da infância, só que em versão mediterrânica, para adultos e em bom. Trazem-nos ainda uma espuma de queijo com frutos vermelhos servido num copo de iogurte, um mini gelado de maçã e açafrão, ‘conguitos’ (capa de chocolate com interior de amendoim), chocolate com chá verde... enfim, um fartote que não enfarta, antes pelo contrario: satisfaz e muito.


 pescadinha, batata e um ‘ar’ de vinagreta mediterrânea


 entrecôte de boi

 mousse densa de chocolate regada com azeite, um toque de flor de sal


 

 Perante este festival de sabores, alguns bastante assertivos (sobretudo os mais orientais), havia dúvidas na conjugação com os vinhos. Na carta, não muito extensa e composta em larga maioria por vinhos espanhóis, saltava à vista a selecção de Cavas. O sommelier disse-nos que era uma óptima solução para toda a refeição, e que se o permitíssemos gostaria de introduzir “um ou outro apontamento”, a copo, “num ou noutro prato”. Assim foi e resultou: acompanhámos grande parte do almoço com o Raventós i Blanc Gran Reserva 2006, um Cava fresco, vivo e equilibrado. Para o pato com mousse de foie gras tivemos um Jerez amontillado, de 30 anos, das Bodegas Tradicion e, por último, com a carne, o tinto António Esquierdo, Vendima Seleccionada, 2006, da Ribera del Duero .Três vinhos que enalteceram a refeição  provando – caso fosse necessário – que o papel do sommellier é fundamental num restaurante (ainda para mais a este nível).

 

Quanto ao serviço, tirando o incidente na reserva, correu a preceito. Fomos atendidos com a simpatia necessária por profissionais à altura que demonstraram bom conhecimento de causa e não hesitaram, mesmo nas perguntas mais difíceis.  

Com este nível de qualidade e de criatividade não estranhei, por isso, quando presenciei, nessa mesma noite, a confirmação de que Carles Abellan mantinha a estrela michelin neste Comerç24.

 

Morada:
 
Carrer Comerç, 24, Barcelona ; tel: +34 93 319 21 02; Horário: Terça Feira a Sábado, 13.30h/15.30h e 20.30h/23.00h
 
Preços:
 
Preço médio com vinho: 80€. Pela refeição descrita, com água e café, pagou-se 128€ por pessoa.
 
Classificação:
 
Cozinha:18.5; sala: 17.5; vinhos:18

 

 

Texto publicado originalmente na Revista Wine nº65 de Dezembro 2011; Fotos: Miguel Pires

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publicado às 11:33


2 comentários

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De joão - flavors and senses a 08.02.2012 às 21:23

O Miguel fez-me voltar no tempo, e recordar as belas e animadas refeições que tive no Tapasç24, na altura não foi possível visitar o comerç, contudo não escapará numa próxima visita a Barcelona assim como as tapas do Inopia.

Abraço
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De TC a 10.02.2012 às 11:33

Nunca fui ao Comerç24 mas fui umas 3 vezes na mesma semana ao Tapas24 (era mesmo ao lado do hotel onde estava). Gostei muito. Belíssimas tapas, bons vinhos, ambiente divertido, serviço despretensioso e despachado. Last but not least: preços muito honestos.

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