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O primeiro passo da Rota das Estrelas 2012

por Duarte Calvão, em 23.03.12

 

Quando vou a jantares preparados por vários cozinheiros, preparo-me sempre para desilusões. Por muito competentes que sejam os chefes, estão fora dos seus restaurantes, a trabalhar com equipas que não conhecem, muitas vezes sem os equipamentos necessários ou com produtos que não costumam utilizar. Infelizmente, já tive várias experiências que confirmaram estes meus receios, mesmo com nomes cheios de estrelas Michelin. Mas também já tive óptimas experiências, que me ajudaram a conhecer minimamente o trabalho de chefes vindos de países distantes, que me deram até vontade de ir conhecer os seus restaurantes.
Foi o que aconteceu há uma semana, com a abertura da Rota das Estrelas 2012 no Il Galo D’Oro, no Hotel Cliff Bay, no Funchal (ver post publicado a 14 de MArço ), onde o chefe anfitrião Benoît Sinthon e o chefe de pastelaria da casa, Yves Michoux, receberam Hans Neuner, Christian Petz e Nigel Haworth para preparar um jantar de grande nível, que ainda por cima decorreu a bom ritmo, sem aquelas exasperantes esperas entre os pratos. De realçar a ajuda dada por Diego Guerrero que, apesar de não assinar nenhum dos pratos (só o faria no jantar do dia seguinte), fez questão de estar na cozinha.
Depois dos óptimos “amuse bouche” de Sinthon, à base de atum, o jantar começou com um lagostim, “feijoada”, língua de vitela, manjericão, da autoria de Hans Neuner, a mostrar que o chefe austríaco do The Ocean está a compreender bem estas particularidades portuguesas de juntar mariscos com feijões. Um prato de apresentação desconcertante, com vários cubos, cada um representando um dos principais ingredientes, cobertos por um estaladiço de tinta de choco, onde o “pesto” dava o toque original ao conjunto. Apesar do aparente caos inicial, tudo se conjugou na perfeição.

 

 

A desconcertante "feijoada de mariscos" de Hans Neuner


Seguiu-se o prato mais radical, do chefe austríaco Christian Petz, com cabeça de bezerro com caril de lentilhas e ouriço-do-mar. A assustadora cabeça vinha em delicadas e finas fatias sobre as quais repousavam pequenas lentilhas pretas, tudo envolvido pelo iodo do ouriço. Não estava desagradável, havia um interessante jogo de texturas, mas para mim o ouriço tem que ser usado com muito cuidado, senão parece que estamos a jantar no paredão do Estoril quando a maré está baixa.

 

 

A inofensiva "cabeça de bezerro" apresentada por Christin Petz


Menos polémico foi o prato de Nigel Haworth, que se seguiu, de lavagante selvagem, alho francês, caviar quente e torradas de lagosta. Óptimo o ponto de lavagante, a realçar todas as complexidades do seu sabor, que contrastava com o braseado do alho-francês. Só não percebi o nome de “torradas” aplicado a uma “almofada” de pão, ovo e lagosta, muito boa, por sinal, revestida por uma crocante camada de sementes de papoila. Das pessoas com quem falei, não houve quem não gostasse e também eu o considerei um dos momentos altos da noite.

 Por fim, Benoît Sinthon apresentou costeleta de borrego de leite à Primavera (na primeira foto deste post), com a carne num ponto perfeito acompanhada com vários legumes e aquilo que me pareceu um puré de alcachofras. Um prato aparentemente mais simples, mas absolutamente delicioso. À sobremesa, o outro membro da equipa da casa, Yves Michoux, também brilhou, primeiro com um parfait de canela com creme ligeiro de baunilha, geleia de maçã e mel crocante, depois com bola de granizo do “Pico do Areeiro”, bola merengada com sabor a anona e ananás.

 

De referir rapidamente os vinhos servidos, além do patrocinador champagne Pommery que abriu as hostilidades, seguiram-se Vinha Formal 2010, óptimo no aroma, mas que me pareceu curto na boca, um tinto Malhadinha 2009, para mim, sem história, um magnífico vinho verde Contacto 2010, e um tinto bem mais interessante, o Dourum Vinhas Velhas 2008, que calculo que melhore com o passar do tempo. Grande final com o madeira Blandy’s Single Harvest Bual 1993, que me justificou mais uma vez porque esta é a casta local que prefiro.

 

 

O lavagante de Nigel Haworth mereceu aplauso generalizado


Sala cheia, com clientes claramente satisfeitos, em animadas conversas, confirmaram-me que o jantar tinha corrido bem. Segundo soube, todos os jantares tiveram grande procura, o que mostra o acerto em apostar neste tipo de iniciativas, sobretudo numa região turística como a Madeira.
Duas notas rápidas, passadas fora da Rota das Estrelas. Primeiro, numa ida à ilha de Porto Santo, que não conhecia, encontrei um restaurante bem simpático, o Pé-na-Água, que, como o nome indica, fica mesmo à beira da praia. Bem decorado, serve pratos simples, muitos deles de peixe, e bastante correctos. Depois, já na volta ao Funchal, fui conhecer o Riso, especializado em arrozes, com consultoria do chefe Fausto Airoldi. Um ceviche de atum de entrada, bastante decepcionante, com gengibre a mais a sobrepor-se ao peixe, mas depois dois óptimos pratos de arroz, um risotto de lima com peixe-espada frito e banana assada e uma notável versão de arroz de pato. Boa relação qualidade/preço, com os pratos principais a rondarem os 15 euros. Com uma óptima situação sobre o mar, na fabulosa zona velha do Funchal, foi uma bela maneira de me despedir da ilha.

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publicado às 16:19


2 comentários

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De Miguel Pires a 26.03.2012 às 13:47

Boas fotos. De quem são?
Sem imagem de perfil

De cristina gomes a 27.03.2012 às 23:32

tirei do facebook do "rota das estrelas", mas não vem a referência do fotógrafo...
https://www.facebook.com/rotadasestrelas

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