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1300 Taberna

por Miguel Pires, em 05.04.12

O Codex da Fábrica  

 

Fotos de 1300 Taberna, LisboaFoto: TripAdvisor

 

Em finais de 2007 começou a dar que falar um pequeno restaurante de nome estranho e pouco mais de vinte lugares, onde se praticava uma cozinha irreverente e se idolatrava o Eusébio. Chamava-se (e chama-se) 2780 Taberna - nome que remete para o código postal da zona onde está localizado, Oeiras -  e tinha como sócios, Nuno Barros, que se ocupava da cozinha, e Bernardo Mendonça, que tratava (e trata) de um pouco de tudo e mais um queijo. As ementas ousadas, o preço acessível e um humor muito particular em tudo o que faziam -dos nome dos pratos, ao site, passando pelo livro que editaram - valeu-lhes boas criticas e casa cheia.

 

Bernardo Mendonça manteve-se em Oeiras, onde agora desenvolve a sua ‘baixa cozinha’, um conceito baseado na utilização criativa de produtos menos nobres e na revisitação de velhas receitas.  Já Nuno Barros mudou-se para Lisboa no Verão do passado ano e instalou-se na Lx Factory, em Alcântara, num novo espaço quatro ou cinco vezes maior. Esta mudança valeu-lhe epítetos simpáticos como, “louco”, por ter investido num projecto de dimensões consideráveis, numa altura de recessão. Os bancos não lhe facilitaram a vida, mas Barros não se intimidou: reuniu condições a chutou a bola para a frente.

 

O lugar é amplo e mantém o carácter do espaço fabril que em tempos ali funcionou. Trata-se de um open space de tons escuros com uma intervenção decorativa de bom gosto, recheado de objectos reunidos entre o sótão da avó e a feira da ladra, o que em conjunto com outros criados para o efeito, transmitem uma atmosfera acolhedora. Cabem nele (contando com o espaço exterior) cerca de 100 pessoas, entre uma primeira área de mesas corridas, onde se petisca e se partilha, à carta, e uma outra, mais ao fundo, de mesas individualizadas onde, ao jantar, funciona com menu de degustação.

Parece-me um conceito sensato, inteligente e democrático ainda que alguma da irreverência e novidade tenha ficado em Oeiras. Nuno Barros refere, na ementa, orgulhar-se por “utilizar produtos genuinamente portugueses e de recorrer a pequenos produtores”, a quem compra carne vaca barrosã, porco, flor de sal, batata doce de Aljezur ou vinhos, por exemplo.

 

Nos últimos meses tive a oportunidade de aqui efectuar várias refeições à carta, tanto ao almoço, como ao jantar. Nota-se que ainda há pontas por limar, o que é normal dada a proveta idade do projecto. No entanto, de um modo geral, saí sempre satisfeito. Com a variedade das propostas, com a fuga ao previsível, com a confecção e, sobretudo, com a qualidade vs. preço. Destas incursões à carta destaco o pão de cerveja Guinness (uma gulodice), o caldo verde taberneiro (uma interpretação interessante do popular caldo português), a pintada recheada com cabidela de galinha, a sandes de entrecosto desfiado com molho de mostarda antiga, as bochechas de porco em molho de (vinho) Madeira com migas de batata e grelos, ou o “pianinho de entrecosto para sujar os dedos” (e lambê-los, acrescento). Não achei as sobremesas um caso sério mas o famoso ‘bolo Eusébio’, um bolo de chocolate 80% dos tempos de Oeiras, tem muitos adeptos e marcha que nem um mimo. Há também um curioso ‘tributo ao snickers’ composto por um bolo húmido de chocolate e caramelo e gelado de manteiga de amendoim e uma a sopa de morangos e manjericão com mousse de iogurte grego e frutos vermelhos, que me parece deslocada na época.

 

 

Fotos de 1300 Taberna, Lisboa
 Foto:TripAdvisor

 

Com a carta bem experimentada tinha curiosidade em conhecer o menu de degustação e para tal calhou bem a recente entrada do primeiro menu de Inverno, inspirado na quadra natalícia. 

 

Reserva para um Sábado de Dezembro às 20.30h. A mesa que nos destinaram fica junto ao bar e à parede da fachada, num plano inferior à janela. A localização não é extraordinária mas reparei que não há muitas mesas para duas pessoas. O ‘entretém de boca’, bolinha de sangueira com um shot de creme de abóbora, não tardou em chegar. O sabor forte do enchido (uma género de morcela de origem transmontana) conjugou-se de forma primorosa com o aveludado suave do creme de abóbora. Inicio auspicioso apenas ligeiramente comprometido por um pedaço de gordura do enchido, de textura tipo pastilha elástica. O primeiro prato foi um carpaccio de polvo com frutas da estação. Em Trás-os-Montes o polvo é um elemento comum na mesa de Natal, mas a versão apresentada evocava mais o verão, o que não se mostrou desadequado, tendo em conta o menu no seu todo e as propostas mais consistentes que se lhe seguiram. Acresce ainda a seu favor o facto de se notar o sabor do polvo (que na versão em carpaccio é muitas vezes insípido) e deste se cruzar bem com as várias frutas, onde se destacavam  o diospiro e a romã, resultando num conjunto de sabores frescos e delicados.

 

Depois foi a vez da ‘amburga’  de cabrito em brioche de cebola. Pode parecer uma provocação colocar um mini hamburger num menu de degustação, mas tem tudo a ver com o espírito da casa. Comida confortável mas longe de ser banal. A acompanhar, em vez de batata frita, dois ‘gomos’ de maçã, uma ideia que funcionou – até lhes perdoei a ‘gaffe’, quiçá de autenticidade, por se terem esquecido de uma parte da cartilagem do bicho no hamburger (só fiquei na dúvida se tratava-se do brinde, ou da fava).

 

Na etapa seguinte o bacalhau lacado com mel e migas de couve rouxa embrulhadas em couve lombarda resultou numa equilibrada proposta de antecipação do bacalhau da consoada com uns pozinhos de criatividade que valorizaram o conjunto.  Para tal contribuiu a qualidade do bacalhau e o domínio da técnica.

 

Depois houve ainda o leitão à ‘Bairradas’ com puré de castanhas e sorbet de laranja/espumante. Conjunto agradável, com sabores portugueses de época apenas algo prejudicado pela pele encorpada do ’babe’, queimada com o maçarico (pareceu-me), mas não o suficiente para ganhar a textura ideal.

 

‘Noite feliz’ era o nome da sobremesa com que terminou a refeição. Toucinho do céu, brigadeiro de coco, gelado de leite creme, redução de Porto... um conjunto fiel ao exagero doceiro do Natal e que considerei uma antecipação desnecessária que destabilizou um menu, até então, equilibrado.

 

O capitulo dos vinhos parece ser aquele cujo desenvolvimento está mais atrasado. A carta é demasiado curta, mesmo tendo em conta que não estamos num ‘ultimate fine dining’. No dia deste jantar havia três espumantes, onze brancos, igual número de tintos e meia dúzia de vinhos de sobremesa (entre fortificados e colheitas tardia). Quase todos são vinhos de pequenos produtores portugueses, excepto um ou outro estrangeiro, destacando-se os do projecto Monte Cascas (Alentejo e Douro), parceiros do restaurante. Ainda assim a gama de preços é variada e o serviço de vinhos correcto (com copos Riedel – embora com a marca do parceiro vínico). Bebemos um Lua Cheia 2010, branco, um Douro de vinhas velhas que se bateu bem até à sobremesa.

Já depois deste jantar informaram-me que em breve entraria em vigor uma nova carta de vinhos mais completa.

 

Para finalizar gostava de destacar o serviço. Em geral os empregados são simpáticos e prestáveis e mesmo quando não têm um conhecimento profundo do que estão a servir, sabem explicar com a aptidão necessária. Eis, portanto, um bom exemplo de informalidade com competência.

 

Ainda com pouco mais de seis meses de vida, e margem para progredir, a 1300 Taberna é, sem dúvidas, um projecto válido no panorama da restauração da cidade e a que conto voltar várias vezes. Pelo espaço, pela variedade de opções e... pelo que se recebe em troca do que se paga.

 

Morada:

 

LX Factory, Rua Rodrigues Faria, 103, Edifício H, Alcântara, Lisboa · Tel:

213649170; Horário: 2ªF, 09.30h/18:30h; 3ªF a 5ªF, 09.30h/00.00h; 6ªF, 09.30h/02.00h; Sab: 07.30h/02.00h

 

Preços:

 

Preço médio com vinho: 15€/20€, ao almoço (com vinho a copo); 30€ ao jantar. Pela refeição descrita, com água e café, pagou-se 38€ por pessoa.

 

Classificação:

 

Cozinha:17; sala: 17; vinhos:15.5

 

Texto publicado originalmente na Revista Wine de Fevereiro 2012


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publicado às 11:26


2 comentários

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De Miguel Pires a 11.04.2012 às 11:17

Caro Jorge Castro
se ler bem vai ver que referi que os morangos pareceram-me despropositados naquela época dezembro ). De resto não encontro nenhum radicalismo no discurso a referir que todos os produtos são de pequenos produtores, pelo que não me identifico com o seu comentário irónico.

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